Tiago Gré: As crônicas do Bushido

Um dos mais importantes meios de divulgação das artes marciais sempre foi, e sempre será, a cultura e suas expressões artísticas. Quantos de nós não fomos introduzidos ao universo do Budo através de livros, quadrinhos, peças e filmes? Ainda hoje, percebe-se o aumento da procura nos Dojos quando surge uma citação ao Aikido em séries ou no cinema.

Meu caso não foi diferente. Entrei no Aikido por influência dos amigos, mas lembro o quanto a história do Itto Ogami e seu filho Daigoro, nos quadrinhos do Lobo Solitário, foram essenciais para manter uma conexão com a prática no meu imaginário.

Quando li “Além da honra”, o primeiro da saga “As Crônicas do Bushido”, foi uma alegria enorme. Fora o prazer e diversão proporcionado pela história em si, fiquei feliz em ver como as Artes Marciais, seus ideais, costumes e tradições, ainda despertam em mim o mesmo fascínio que tinha ao ver o Sr. Miyagi ensinando Daniel san.

Escrito por Tiago Gré, a saga se passa no início do Período Ashikaga, através do olhar Yuki Chujitsuna, uma mulher que irá aprender as artes da guerra para vingar o que fizeram com sua família. O autor é um dedicado, generoso e gentil praticante de Aikido que tive a honra de conhecer pessoalmente e que tive a satisfação de entrevista-lo para esse blog.

Tiago Gré, arquiteto e escritor da saga As crônicas do Bushido. É 2°kyu de Aikido, aluno do Leandro Lopez sensei, do Rio Grande do Sul

Você é praticante de Aikido e escritor, poderia nos contar um pouco da sua história com as artes marciais?

Me tornei escritor bem recentemente, nessa aventura que começou em 2019, mas sou arquiteto por formação. A arquitetura é uma fonte de história e cultura e isso em deu boas ferramentas de auxílio na escrita.

Quanto às Artes Marciais, sempre foi um tema que me interessou muito, porém com pouca prática. Na época do colégio sempre fui incentivado pelos colegas e familiares a praticar Judo, mas, acredite, eu tinha medo de cair. Em plena década de 90, no auge dos filmes de Van Damme e de minha adolescência, me vi fascinado e tentei virar um kickboxer, mas não obtive êxito… não durando nem um ano meu treinamento. A partir dali meu contato marcial veio estritamente de filmes e livros.

Então, em 2007 e 2009, um amigo tentou me trazer para o Aikido. Lembro dele me mostrando alguns golpes que ele havia recém aprendido e me interessei (mesmo depois de receber um nikyo desavisado). Pelo meu momento de vida nestes anos, algo me impediu de seguir os conselhos dele e sequer fui conhecer o dojo.

Tive um breve flerte com o Wing Chun, mas que não passou de uma aula marcada que nunca compareci.

Em 2015, o mesmo incansável amigo, Gabriel, praticamente me obrigou a ir fazer uma aula experimental após eu ter exaltado a prática de Jo (bastão) em uma série recém vista. Desta vez não neguei, indo às vésperas do Natal, fazer a aula da sexta-feira no Dojo Central do INSBRAI em Porto Alegre. Completamente descoordenado e me perguntando “o que estou fazendo aqui?”. Devo ter transparecido tal frustação no rosto, pois o instrutor daquele dia, o hoje sensei Marciano, veio e me disse que ele havia passado pelo mesmo, que fazia parte e que logo eu faria melhor o bendito tenkan descontrolado. Isso me tirou um pouco do peso e me empolgou (agradeço muito a ele por isso). Quando eu estava indo embora no término do treino, o instrutor do horário seguinte perguntou se eu não queria experimentar a aula seguinte também. O instrutor deu aula de bokken (espada) e era Leandro Lopez, que hoje é meu grande sensei.

Após as festividades, no primeiro treino do ano de 2016, comecei efetivamente no Aikido e nunca mais parei. Sou apaixonado pela Arte, e pelo Caminho, não conseguindo mais imaginar minha existência sem esta prática. Transcende o dojo.

O Aikido mudou minha história e me transformou, por fora e por dentro. Além de ganhar grandes amigos, o Caminho meu deu um mestre e a mulher de minha vida, Geraldine, que também é praticante.

A sua saga, As crônicas do Bushido, foram de alguma maneira inspiradas na sua prática do Aikido?

Com certeza a prática do Aikido me inspirou e, principalmente, me ajudou bastante no conteúdo, linguagem e pesquisa do livro. Porém, não foi a base de onde nasceu o primeiro livro e tampouco a saga das Crônicas. 

É algo bem curioso para se contar à todos, pois é peculiar. A história de “Além da Honra”, o Livro Um das Crônicas, saiu de uma conversa, de uma brincadeira, entre eu e a Geraldine. Estávamos comentando de o quão bem a gente se dava e que isso só podia ser obra de vidas passadas… e, nessa brincadeira, dissemos que havíamos traçado nosso destino desde o Japão feudal. Essa referência obviamente veio pelo nosso encantamento com o Aikido e pelo seu país de origem, além de nosso fascínio sobre os samurais. Eis que dessa conversa foi criada uma narrativa a qual ela me encorajou a escrever um conto. Comecei a escrever, e o conto que eu imaginava que teria umas vinte páginas, chegou a duzentas. Primeiramente dei o livro – impresso em gráfica expressa – de aniversário para ela, e assim iria ficar, como um presente. Foi a primeira vez que escrevi algo deste tipo, um romance, e ela disse que merecia ser publicado. Após algumas revisões consegui publicá-lo e, só depois disto, veio a ideia de se tornar uma saga que retratasse a forja das Sete Virtudes do Samurai, representadas pelo Bushido. 

Durante toda a escrita me vinha à mente os treinos, principalmente de armas, e foram importantes para o desenvolvimento de diversas situações narradas. Ao escrever eu visualizava os embates, para os descrever da forma mais real possível. Várias frases ditas pelo meu sensei, e outros, foram usadas como base filosófica e técnica em todo o livro, pois são pessoas que me inspiram. Termos técnicos que conhecemos pelo Aikido também foram utilizados, sendo explicados para o leitor não praticante entender. Gosto muito de fazer o leitor se sentir no local, se sentir na pele do personagem, e todas essas informações auxiliam.

O Aikido realmente foi uma inspiração, e trampolim, para me incentivar a buscar conhecimentos sobre a história japonesa e a cultura samurai, que certamente são as raízes da Arte que hoje praticamos e do Caminho que seguimos.

Tiago Gré aplicando Irimi Nage, um golpe de Aikido.

E na literatura, teve algum livro que é o seu de cabeceira ou que te inspirou para a sua saga?

Foram vários os meus livros de cabeceira que influenciaram na minha escrita. Meu pai me passou o vício pelos pequenos livros de Georges Simenon, na sua séria “Maigret”, que retrata a vida do Comissário da Polícia Francesa na Paris do início do século XX. Romances policiais sempre me cativaram pela inteligência e investigação, e Simenon tinha – e tem…, pois literatura é eterna – a maestria no tema, aliado a descrição impressionante da narrativa que coloca o leitor dentro do livro.

Mais recentemente, pelo estímulo da Geraldine, li dois clássicos mundiais. Primeiro o visceral “Crime e Castigo”, de Fiodor Dostoiévski, que me incomodou de uma maneira tão boa que pareceu ter religado algumas áreas cerebrais. Depois veio meu divisor de águas: “Os Miseráveis” de Victor Hugo. Simplesmente me fascinei! Devorei e absorvi tanto a história que ele literalmente me provocou a escrever também. Senti à vontade, e a necessidade, de deixar sair naturalmente de minha cabeça histórias… soltar a imaginação.

Pode ser um pouco ‘decepcionante’ não terem sido livros de Aikido, ou artes marciais, mas estes foram os que me deram a linguagem e o apetite pela escrita. 

A inspiração literária acho que é uma construção de uma vida inteira e se torna quase inconsciente em dado momento, por tudo que se absorveu ao longo dos anos. Mas é bem interessante ressaltar os que deram o empurrão final.

Seus livros se passam no Japão Feudal, como e onde pesquisou esse período? 

Tendo um início de narrativa brevemente escrita, quis situar historicamente o que eu estava desenvolvendo, trazendo realidade à minha história. Eu tinha conhecimento praticamente nulo da época e foi necessária muita pesquisa.

Minha porta de entrada foi o meio mais abundante e de livre acesso que temos: a internet. Com o início da procura sobre informações, notei que a época que escolhi, século XIV, não tinha a quantidade de documentos que estamos acostumados relativo à história de nações europeias, por exemplo. O Japão, até o século XVI, era um território desconhecido para o ocidente e começa a ser documentado após a chegada dos portugueses em 1543. E mesmo assim, o país ainda fica muito fechado até o século XIX.

Procurei sobre costumes, cultura, personagens históricos. Queria que tudo estivesse dentro da realidade daquele tempo, evitando descrever objetos pessoais, práticas e até mesmo armas, que não existissem naquele período de tempo. Por causa do meu perfeccionismo, tal feita foi árdua. Fontes em português são muito breves e fui obrigado a recorrer a páginas em inglês e japonês (traduzidas) para chegar nestes detalhamentos. Foram cruciais para mim o acesso à trabalhos acadêmicos do mundo todo que felizmente estavam disponibilizados na internet e que para serem feitos colheram muito material. Outra fonte brilhante da História japonesa é a Enciclopédia Cambridge, que tem 6 volumes completos sobre séculos desta nação.

Mesmo sendo um livro escrito no fim do século XIX, “Bushido: A alma do Samurai”, de Inazo Nitobe, me auxiliou no entendimento do que é o Bushido para nós hoje. As virtudes por ele apresentadas, e reunidas, foram acontecendo ao longo de séculos, e tinham sentidos mais intrínsecos do que documentados, na real vida dos guerreiros. Com isso, apresento, na minha visão, estas virtudes de forma cotidiana que imaginei acontecendo a tantos séculos atrás. Suas palavras tento interpretar dentro da história, fazendo praticamente uma viagem no tempo da construção destes valores até aquele momento. As virtudes acabam tendo dois lados e deixo aos leitores a provocação do que levar para si como justo.

Também escrito posterior aos anos que retrato no livro, Miyamoto Musashi escreveu “O Livro dos Cinco Anéis”, que foi uma fonte para a percepção sobre a vida destes guerreiros e o que os move, vindo de um próprio samurai.

A Arte, seja literatura, quadrinhos, cinema e games, sempre foi um grande meio de divulgação da arte marcial. Hoje artes tradicionais estão com baixa popularidade, de alguma vê seu livro como uma forma de divulgar o Budo e as artes marciais tradicionais?

No início da publicação eu não tinha essa visão, de que minha escrita conseguisse impactar de alguma forma. Não sabia o quanto de visibilidade teria, tanto que meu primeiro nicho de leitores veio estritamente do meio do Aikido.

Porém, de forma muita orgânica, vi a quantidade de pessoas que se interessam por outras artes marciais – karate, judo, kendo, jiu-jitsu – adquirirem o livro. Fiquei muito contente e a partir daí entendi que o papel do livro no incentivo e aumento do interesse pelas artes marciais é real. Acredito que numa primeira impressão ele pode ter um papel de ‘retenção’ de público, ou seja, ajudar a manter as pessoas das artes marciais engajadas e treinando. Houve casos de leitores que voltaram a treinar depois de ler o livro! Isso me deixou muito feliz.

Também percebi que a História do Japão é um atrativo para outro tipo de público e que, através desse contato, pode encaminhar alguns a se tornarem praticantes de Aikido, Kendo, Kenjutsu, quem sabe? A cultura japonesa com sua forte disciplina e os conceitos do Bushido são porta de entrada para as práticas.

O Budo é maior que o tatame e quando comecei a escrever os livros tinha como intenção principal difundir as virtudes do Caminho – benevolência, lealdade, respeito, justiça, honra, coragem e honestidade – que nos dias de hoje acho tão ausentes. Trazer alguma diferença para a vida das pessoas, algum ensinamento sobre algo que mudou tanto a minha.

O conhecimento e história fazem parte de uma teia que liga muitos pontos, sendo a união delas a responsável pelas conexões que as pessoas podem fazer ao ler meus livros. Conexões que podem tanto ser um incentivo para entrar em um dojo quanto o de ser uma pessoa melhor.

As artes marciais ficaram, erroneamente, associadas ao universo masculino. Felizmente, hoje temos mais e mais mulheres praticando e sendo grandes referências no meio. No livro, a personagem principal Yuki Chujitsuna, é uma mulher, foi algo consciente ou surgiu de forma espontânea? Qual a importância vê em falar sobre o universo marcial através do olhar de uma personagem feminina?

Excelente pergunta! A criação da personagem Yuki teve para mim clara inspiração em minha mulher e foi uma forma de homenageá-la.

Queria justamente mostrar o quão forte são as mulheres e usar meu livro de forma crítica. Então, a partir desta homenagem, foi uma maneira de reforçar o que vejo neste universo feminino, que devemos respeitar cada vez mais. Penso que com a criação de Yuki posso incentivar o envolvimento das mulheres, praticantes ou não, neste mundo marcial que ainda é essencialmente masculino e carregado de preconceitos.    

As Crônicas do Bushido já têm uma quantidade de livros pensadas para serem publicados? O decorrer da história ficará no Japão feudal ou também em outros períodos?

Sim, a ideia é escrever ao todo 7 livros para esta saga. Um livro retratando cada uma das virtudes, do hoje popularmente conhecido Bushido, mas que foram forjadas na alma samurai durante séculos.

Por ser um código que cresceu, amadureceu e mudou durante várias Eras japonesas, tenho a liberdade de viajar com minhas histórias durante todo esse período, sem a necessidade de ficar estancado em determinado limite de tempo. Os dois primeiros livros, e provavelmente o terceiro, se passam numa mesma época e narra a história de um núcleo de personagens.

Para os próximos livros posso viajar séculos à frente e contar a história de outro núcleo de figuras históricas e personagens, chegando quem sabe à uma Tokyo do século XX.

Sinceramente, estou aberto para onde meus personagens quiserem me levar. 

Literatura e artes marciais precisam ser divulgadas para chegar no público. Como você faz para que as pessoas saibam dos seus livros e possam adquiri-los?

Bom, esta parte realmente é a mais difícil, até porque fiz a produção do livro de forma totalmente independente, sem editora. Com isso, deste o desenvolvimento, capa, registro nacional, tudo tive que descobrir como fazer para conseguir colocá-los no mercado.

Minha principal ferramenta de divulgação é o Instagram (@ascronicasdobushido), onde criei uma conta específica com o intuito principal de ser um complemento visual dos livros, onde utilizo imagens históricas e fictícias para retratar cenas e acontecimentos dos mesmos, personagens e objetos, práticas e cultura japonesas. Tudo isto para criar a atmosfera completa da leitura e atiçar a imaginação dos leitores. Facebook é utilizado de forma auxiliar para captação de mais pessoas, mas com o mesmo conteúdo.

Obviamente também utilizo estas ferramentas para divulgar a venda dos livros, que faço atualmente pelo site da Amazon Brasil e Mercado Livre, bem como os leitores podem adquirir diretamente comigo. Essa proximidade é bem interessante, uma venda ‘boutique’ como chamam, por ser feita pelo próprio ‘dono’, onde acabo por vezes conversando com eles, conhecendo um pouco de suas histórias e recebendo retornos bem legais sobre a leitura.

Agora, devido à pandemia, me impossibilita de encontros presenciais onde posso expor o livro – como o seu Seminário Intensivo em fevereiro, sensei Sodré – e momentos como esse, onde o senhor me dá esta grande oportunidade de expor minha história, são vitais. Domo arigato gozaimashita!

Quando sai o segundo livro da saga? E aonde podemos adquiri-lo?

Então, o Livro Dois da saga, que se chama “Kenmei”, será lançado no dia 03 de agosto deste ano. Quem leu o primeiro já sabe que um personagem importante dá seu nome a este segundo.

Poderá ser adquirido pelo site da Amazon,  Mercado Livre ou no Instagram diretamente comigo,  assim como o primeiro livro.

Kenmei, o segundo livro da saga “As crônicas do Bushido”.

Muito obrigado pela entrevista, gostaria de deixar alguma consideração final?

Eu que agradeço por esse seu convite, sensei Sodré! Adorei nossa conversa e, de novo, muito obrigado por me dar essa oportunidade de contar um pouco desta minha aventura.

Como falei no início, algo que começou como uma brincadeira, se tornou um grande desafio, de levar às pessoas algo que acrescente em suas vidas. Há amigos que já me disseram que voltaram, ou começaram, a escrever por causa de meus livros. Quero continuar a incentivar a leitura, algo que parece tão perdido nos dias de hoje. Realmente tudo está sendo muito gratificante e penso que encontrei mais uma paixão em minha vida: a escrita.

Para adquirir os livros:

Instagram: @ascronicasdobushido

Facebook: https://www.facebook.com/ascronicasdobushido/

Amazon: https://www.amazon.com.br/dp/6590043205?ref=myi_title_dp (livro 01)

Kenmei: o segundo livro da saga.

Mercado Livre: https://produto.mercadolivre.com.br/MLB-1616092066-kenmei-livro-dois-as-crnicas-do-bushido-_JM?quantity=1

Entrevista com Tiago Gré, durante o intensivo de verão de 2020

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