Sen no Rikyu: o maior Mestre do Chá

Quando pensamos nos samurais olhamos sempre para o lado da capacidade de combate, de suas habilidades nos campos de batalha ou feitos em duelos. Poucos saem desse senso comum e observam que muito do universo das artes, da cultura e dos cerimoniais moldaram o éthos do guerreiro. Não é por menos, um dos lemas mais conhecidos, e ainda enfatizado, é o Bunbu Ryodo, o pincel e a espada são um só caminho, ou seja, a cultura e arte da guerra são uma via única.

É importante saber, ainda mais em tempos que as artes são tão desvalorizadas, que muitas expressões e conceitos que estão presentes no Budo nasceram do universo cultural e artístico que permeava a vida dos samurais. Assim como muitas figuras que foram marcantes no meio marcial japonês, não apenas na história, mas no legado de ideias, não eram mestre em nenhum tipo de luta. Aliás, muitas atividades que hoje podem não ser vistas como algo ligado ao samurai, como poesia, pintura, ikebana, teatro Noh e cerimônia do chá, eram na verdade, práticas dos guerreiros ou admiradas e usadas por eles.

Dentre essas, Chanoyu, a cerimônia do chá, ou também conhecida como Chado, o caminho do chá, foi uma das atividades mais marcantes entre os Bushi. Seu mais influente mestre, Sen no Rikyu, deixou marcas profundas nas artes marciais e na cultura japonesa, além de transformar por completo a cerimônia em si. Conhecer um pouco de sua biografia é entender que o Budo vai muito além de saber se defender, de ser o campeão ou de se tornar um guru Jedi. Trilhar um caminho marcial é de alguma forma a busca por sentido ou beleza em meio a esse caos do dia a dia. É estar em contato com suas dúvidas e imperfeições, com seu lado mais humano, e admirar a singularidade e brevidade da vida diante da certeza inevitável.

Nascido em 1522, durante o período mais sangrento da história do Japão, aonde senhores feudais lutavam continuamente pelo poder, numa interminável guerra civil, chamado de Sengoku Jidai. Por sorte, sua cidade natal, Sakai, era uma zona neutra. Governada por ricos comerciantes que faziam negócios com todos os feudos e com o exterior, tinha uma certa independência, gerando paz e prosperidade na região. Esses comerciantes também apoiavam a alta cultura da época, algo que eles partilhavam em comum com a classe guerreira.

O pai de Rikyu era um grande atacadista de peixes e investiu na educação do seu filho. Desde jovem, ele iniciou no Chanoyu com o mestre Kitamuki Dochin. Com dezenove anos, ele foi indicado por esse sensei a continuar seus estudos com o renomado mestre Takeno Joo, que era conhecido por ser um dos entusiastas do wabi-cha, uma cerimônia mais simples, sem tanta pompa como eram as de costume na época então.

Naquele período, os rituais do chá eram extravagantes, em espaços de arquitetura luxuosa, fazendo grandes degustações, com jogos de adivinhação de onde provinha o chá e com a utilização de utensílios caros, que eram dados como prêmios por conquistas em batalhas ou mesmo para comprar a lealdade. Além disso, o chanoyu era de suma importância para os guerreiros de então. Era uma forma essencial de firmar laços entre senhores e vassalos, criar alianças diplomáticas com outros feudos, funcionando como um grande jogo diplomático desse tempo. Indo contra essa corrente, nasceu o wabi-cha, pelo mestre Murata Juko e transmitida ao mestre Takeno Joo, que buscava apreciar a beleza natural das coisas e vivenciar a frugalidade.

A história popular conta que ao iniciar seu treinamento com Takeno sensei, Rikyu foi ordenado a limpar impecavelmente todo o jardim, sem deixar uma folha no chão. A tarefa era impossível, ao terminar de varrer uma parte, folhas já caiam em outra. Porém, um dia ele conseguiu limpar tudo, deixando o jardim perfeito. Ao olhar para aquilo, ele bateu com o cabo da vassoura no tronco de uma árvore fazendo cair inúmeras folhas ao chão. Nesse instante, ouviu seu mestre dizer que ele compreendeu o Wabi-sabi, a beleza das coisas imperfeitas, incompletas e impermanentes. Após completar sua formação no Chado, com 22 anos, foi estudar Zen no templo de Nanshu, em Sakai, depois no Daitokuji, em Kyoto.

Raku, tigela, usada por Sen no Rikyu

Durante esse tempo, pouco se sabe de sua vida, até 1569, quando Oda Nobunaga toma o controle da cidade de Sakai. Nobunaga era maior Daimyo da época e reunificador do Japão e, como todo samurai, um fervoroso entusiasta da cerimônia do chá. Um exemplo foi no cerco do castelo do Clã Matsunaga, aonde envia um acordo para o Matsunaga Hisahide, senhor do local, que pouparia a vida dele caso o mesmo entregasse sua famosa chaleira Hiragumo. Num final dramático, Matsunaga enche a chaleira de pólvora e se explode.

Ao dominar Sakai, Nobunaga estava ansioso para ter um mestre renomado de Chado ao seu dispor, por status e também como ferramenta política. Com isso, emprega Sen no Rikyu, que ao organizar as cerimônias passa a receber muito destaque, tornando-se seu conselheiro e confidente. Aproveitando do seu prestígio, Rikyu começa a difundir cada vez mais seu ideal de wabi-sabi, tornando o ritual mais intimista, mais simples, menos extravagante. Numa época em que o chá era muito além da bebida, ele criou esse poema, no qual podemos aplicar para qualquer Caminho que seguimos:

Embora muitas pessoas

bebam chá,

se você não conhece o Caminho do chá,

o chá o bebe.

Seus lemas, que hoje usamos nas artes marciais, eram: Ichi-go-ichi-ê, “um instante, uma vida”,que a ocasião irá ocorrer apenas uma vez na vida, portanto o que tem valor é o encontro, o momento, não os objetos, posses e status; Wa Kei Sei Jaku, harmonia, respeito, pureza e tranquilidade; e “prepare-se para chuva, mesmo que não esteja chovendo”, saber que o acaso irá acontecer, independente do nosso desejo.

Após a morte de Nobunaga, 1582, seu principal aliado Toyotomi Hideyoshi ascende ao poder e imediatamente torna Sen no Rikyu seu mestre de Chá. De origem humilde, Hideyoshi tinha ainda mais afeição pelo chanoyu, seja por gosto ou como meio de se apropriar de uma cultura de elite e legitimar sua posição. O fato era que ele precisava de Rikyu para mostrar sua autoridade, com o mestre e sua filosofia ganhou mais influência no meio, ao ponto de, em 1585, organizar uma cerimônia ao Imperador, no qual ao fim, ele foi proclamado Tenka Gosado, Mestre de Chá de tudo sob os céus.

Com todo esse prestígio, Toyotomi ordena a Rikyu construir uma chashitsu, casa ou aposento especial para as cerimônias. Difícil dizer se o plano era ter uma pomposa construção, tal qual as da época, ou se era ter algo genuíno do mestre. No entanto, mesmo com todo orçamento e condições ao seu dispor, Rikyu construiu a uma chashitsu simples e bela, chamada Tai-an.

Tai-an: considerada um tesouro nacional japonês, localizada no templo de Myōki-an, em Yamazaki, Kyoto

De apenas dois tatames, por volta de 3 metros quadrados, todo material usado sugeria rusticidade, simplicidade e modéstia. Sua entrada era extremamente baixa, obrigando adentrar ao recinto agachado, tornando todos iguais independentemente da posição social.

Dizem que ele se inspirou, para criar a Tai-an nesse poema, da antologia Shin Kokin Wakashū do início do século XIII:

Para aqueles que anseiam

apenas o desabrochar das flores de cerejeira

Eu mostraria

A primavera nos rebentos de erva,

que lutam por sobreviver

Em montanhas cobertas de neve

Mesmo transitando entre a elite japonesa, ele sempre manteve seus ideais de uma vida simples e conectada com o presente. Dizem que uma vez, quando Hideyoshi exaltava suas conquistas e patrimônios, ele o alertou com o provérbio antigo: “Hanjo, Ichijo, Nigohan”, “meio tatame em pé, um tatame deitado, duas tigelas de arroz”, ou seja, não importa suas conquistas, deve-se ater ao essencial para viver, que é a frugalidade da vida em si, não o material.

Apesar de toda a consideração e admiração de Toytomi por Rikyu, ser próximo de um déspota é sempre uma honraria perigosa. Ele era um paranoico, achava que todos queriam traí-lo. Quando Rikyu tinha 68 anos, seu aluno favorito Yamanoue Sōji fez uma observação que enfureceu Hideyoshi. O incidente levou Sōji a ser decapitado. Aqueles que não gostavam dos ideais de Rikyu, sentiram que esse era o momento e começaram a espalhar boatos que ele iria envenenar o chá que daria ao Hideyoshi. Para esse, uma suspeita era suficiente para a execução instantânea, com isso ordenou o mestre de chá cometer o seppuku, no ano de 1591.

O “Último Chá de Rikyu” é celebre, sendo contado em livros, peças e filmes, tamanho o destaque da grandeza dele para a circunstância trágica. Ele convidou seus principais alunos para a cerimônia. Segue todo o protocolo da mesma, de acordo com seus preceitos do wabi-sabi. Ao final, presenteou cada um com algum objeto ali presente. Apenas a tigela na qual bebeu não foi doada, “Que esta xícara, conspurcada pelos lábios do infortúnio, nunca mais seja usada por um homem”. Assim dizendo, ele a quebrou. Logo em seguida, despe de seu uwagi e, ao contemplar a adaga, professa o seguinte verso:

Eu vos saúdo,

Ó espada da eternidade!

Através de Buda

E também de Dharma,

Vosso caminho abris.

Conta-se que com um sorriso no rosto ele seguiu para o desconhecido. A lenda foi ao aumentando, claro. Dizem que após rasgar sua barriga, ele corta um pedaço do seu intestino coloca numa bandeja e pede a uma testemunha levar para Hideyoshi, “Diga a ele”, disse Sen no Rikyu, “é assim que um samurai morre”.

Mesmo após sua morte seu legado continuou. Seus filhos iniciaram a San Senke, que são hoje as três principais escolas de cerimônia do chá do Japão. Seu modo de vida e ideias de simplicidade, elegância do imperfeito e viver o instante, foram sendo reverenciados e difundidos dentro do meio marcial e depois para toda cultura japonesa, ao ponto que a expressão wabi-sabi ser vista atualmente como o próprio senso estético japonês.

Embora eu varra e varre
Em todo lugar o caminho do meu jardim,
Através do invisível
Nas finas agulhas de pinheiro, ainda
podem ser encontrados restos de terra

Sen no Rikyu, 1522-1591

Aula teórica sobre o wabi-sabi

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