Takuan Soho

Sempre tive um fascínio por pessoas que deixaram um legado para o mundo, não apenas influenciando sua época, mas que acabaram virando uma referência para as futuras gerações. Algumas encantam-me, não apenas por seus feitos, mas por também estarem relacionadas a outros grandes nomes. Não é interessante observar casos como Platão? Aluno de Sócrates e professor de Aristóteles, que por sua vez foi professor de Alexandre, o Grande. Como não se surpreender com Leonardo da Vinci e Michelangelo, que viveram em Florenza na mesma época e trabalharam em paredes opostas no Palazzo dela Signora? Ou com a profunda rivalidade entre Newton e Leibniz, que levaram a grandes descobertas na física e na matemática? O fato é que sempre fiquei intrigado com as relações entre biografias históricas.  Há também pessoas que tem um profundo desapego com a glória e fama de seu trabalho, que despertam um encantamento ainda maior em mim. Quem não lembra quando Belchior desapareceu e seguiu seu rumo recusando a vida de celebridade, ou de Little Richard, que no auge da fama decide largar tudo e voltar para escola? Fora tudo isso, desde garoto, tenho uma certa curiosidade sobre os últimos momentos da vida de alguém e de seus epitáfios.

Takuan Soho preenche todos os requisitos acima. Seus escritos e trabalhos não foram apenas relevantes e influentes no início do período Tokugawa, como o são até hoje. Ele conviveu, foi monge e amigo de figuras proeminentes na sua época, como o Shogun Tokugawa Iemitsu, o Imperador Go-Mizuno, senhores feudais como Ishida Mitsunari, e samurais do calibre de Yagyu Munenori e Ono Tadaaki. Era completamente desapegado a sua obra e legado, tanto que é mais lembrado no Japão como nome de uma conserva de rabanete, Takuan Zuke, do que por sua história. Além disso, seus últimos momentos de vida são de uma profunda beleza e reflexão.

Somente esses elementos já o tornariam uma figura marcante para mim. Mas dois de seus textos − na verdade duas cartas, uma para o Yagyu Munenori e outra para Ono Tadaaki − afetaram minha maneira de ver as artes marciais e até hoje são uma grande referência nos meus estudos. Vira e mexe, uso expressões e metáforas que vieram de Takuan. Pretendo, em artigos futuros, apresentar esses textos e conceitos aqui, mas acho que primeiro vale muito a pena contar sobre sua vida e morte.

Takuan Soho nasceu em 24 de dezembro de 1573, na aldeia de Izushi, província de Tajima, atual Hyogo. Embora vindo de uma família de samurais do Clã Miura e no auge da guerra civil que assolava o Japão, entra aos 10 de idade o monastério na linhagem do Jodo-shu (linha do Budismo Mahayana conhecida por sua devoção ao Buda Amida). Com 14 anos, começa a estudar Zen-Budismo da Escola Rinzai, sob a tutela do Mestre Shun´oku Soen, no Sangen-in, um “sub-templo” do Daitokuji em Kyoto. Lá, recebe o nome monástico de Soho. Em 1601, com 27 anos, vai para a cidade de Sakai, continuar seus estudos com Itto Shoteki, do templo de Yoshun-an, aonde é reconhecido como mestre Zen pelo nome de Takuan. Oito anos depois, num incrível feito para um jovem mestre de 35 anos, assume o posto de Abade do Daitokuji, o principal templo do Japão na época.

Daitokuji, localizado em Kyoto, foi o mais importante templo do perído Sengoku, das guerras civis. Oda Nobunaga, principal Daimo de seu tempo e quem tentou reunificar o Japão, foi cremado lá. Na mesma época, Sen-no-Rikyu, considerado o criador da cerimônia do Chá, estudou Zen e formulou sua arte nas dependências do templo.

Seu completo desapego a cargos e honrarias era tamanho, que com apenas três dias como chefe do Daitokuji abandona o templo e inicia um longo período de peregrinação espiritual. Para quem não conhece História isso pode parecer pequeno, mas não é. Se hoje líderes religiosos tem um imenso poder, imagina no período feudal, onde eles eram um misto de gurus, conselheiros e intelectuais. Somado a isso, Daitokuji foi o templo mais importante do período Sengoku e início da era Tokugawa, justamente quando Takuan o assume. Isso o tornaria principal líder religioso de seu tempo, do qual ele tranquilamente abdicou com apenas três dias.

Takuan era conhecido por não ser afetado pela fama ou popularidade. Tratava de igual maneira nobres, samurais e plebeus.  Era célebre por sua fala: “Se tu seguires o mundo presente, darás as costas ao Do, o Caminho, se não queres dar as costas ao Do, não sigas o mundo.” Durante sua peregrinação, que durou quase 20 anos, explora e aplica os princípios do Zen em muitas atividades, como: jardinagem, pintura, caligrafia, cerimônia do chá e poesia. Atingindo um nível reconhecido de excelência em todas elas. Não bastasse isso, cria e reconstrói alguns templos pelo Japão, bem como arrecada fundos para reforma do próprio Daitokuji, que com no início do período Tokugawa já não era tão bem visto pelo Shogun.

Em 1629, ele volta a aparecer no cenário político. Envolve-se naquela que depois foi chamada de a “Questão do Manto Púrpura”, opondo-se à decisão do Shogun Tokugawa Hidetada de interver nos assuntos religiosos. Na época, quem nomeava os altos postos clericais era o imperador. O Japão funcionava com dois poderes, o Shogun era quem administrava e controlava os feudos e armas, como um chefe de governo, e a família imperial era quem representava a alma do Japão, como um chefe de Estado, tendo o poder de controlar os templos e santuários. O que estava ocorrendo era um golpe de Estado e Takuan decidiu agir, ficando ao lado do imperador. Devido ao seu protesto é banido para a o interior do Japão, em Dewa (atual Yamagata).

Foi justamente no exílio que ele escreveu os dois textos que mais admiro e estudo. Fudochishin Myoroku, “O Registro da Sabedoria Imóvel”, para o Yagyu Munenori; e Taiaki, “Anais da Espada Taia”, para Ono Tadaaki. Ambos eram instrutores de kenjutsu do Shogum Tokugawa e de sua família. Após a morte de Tokugawa Hidetada, em 1632, houve uma anistia e ele pode voltar com suas andanças.

Nesse período, seus apoiadores arranjam um encontro com o novo Shogun Tokugawa Iemitsu. Sobre esse encontro, os relatos contam que no outono de 1636, um representante do reino da Coreia foi ao Japão pagar seu tributo em respeito ao novo Shogun. Trouxe vários presentes da cultura coreana, entre eles um tigre vivo. Iemitsu, impressionado com a ferocidade do animal, comenta com Yagyu Munenori se ele, como mestre de espada, conseguiria lutar com alguém assim feroz. Munenori, sem pestanejar, decide entrar na jaula. Quando o tigre veio para cima, acerta-o com um leque de ferro, junto com um Kiai, no meio da cabeça do felino. O animal recua para o canto da gaiola e, sabiamente, Munenori retira-se. Todos ficaram impressionados com o feito de mestre de armas do Shogun, menos Takuan, que advertiu seu aluno, dizendo: “essa não é a maneia apropriada de lidar com as coisas.” O Shogun, que até então não o via com bons olhos, desafia: “Mostre-nos como deve ser feito então, monge”. Este faz uma profunda reverência, respira fundo e entra calmamente na jaula. O tigre agacha, preparando-se para atacar, mas o monge segue em sua direção e, sem demonstrar agressividade ou temor, estende sua mão. Para a surpresa de todos, o animal começa a lambê-lo. Takuan, acaricia o nariz do tigre e diz: “Munenori, embora sua abordagem tenha sido eficaz, você criou um inimigo para a vida toda. Eu fiz um novo amigo!” Dizem que nesse instante, Yagyu Munenori compreendeu o conceito de Katsujinken, a espada que dá a vida. Iemitsu, impressionado com o que testemunhara, torna-se fiel discípulo de Takuan e constrói um templo em Edo (atual Tokyo) para ele, o Tokaiji.

No decorrer de seus anos, muitos outros grandes nomes da história do Japão tornam-se pupilos de Takuan. Reza a lenda que Miyamoto Musashi foi um deles. Apesar de inúmeros indícios − ambos viveram na mesma época, circularam em mesmos ambientes, foram protegidos pelo mesmo Daimo Hosokawa Tadatoshi −, não há nenhuma carta ou documento que comprove que se conheceram e tiveram alguma relação. Porém, o romancista Eiji Yoshikawa firma no imaginário popular essa relação de mestre e discípulo na sua obra ficcional, Musashi. Hoje, muitos jovens também conhecem seu nome através do mangá Vagabond, que conta de forma ficcional a vida de Miyamoto Musashi e tem como Takuan um dos personagens principais.

No período final de sua vida, documentos mostram que foi nomeado pelo Shogun Iemitsu como Kokushi, algo como Ministro da Educação. O que ele prontamente recusou, afirmando não ser um político. Dizem que até o final seguiu seu próprio caminho, independente e excêntrico. A fama e popularidade não o afetaram. Vendo a morte se aproximar, pediu aos seus alunos: “Sepultem meu corpo na montanha atrás do templo, cubram-no de terra e vão para casa. Não recitem sutras, não façam ritos, muito menos lápides e monumentos. Não recebam presentes de monges nem de leigos. Que os monges se cubram com as mesmas vestes, comam as mesmas refeições e façam tudo como nos dias comuns. Não aceitem honrarias em meu nome, quero partir sem deixar rastros”.  Não deixar rastros é um importante Koan Zen, simboliza algo que foi feito por completo, sem deixar pendências, por inteiro e integralmente.

Em um dia de inverno, 27 de janeiro de 1645, aos 71 anos, Takuan pede aos seus discípulos papel e pincel. Num último e incrível ato, escreve o ideograma Yume (夢), Sonho, e morre.

YUME, “sonho”. Shodo, caligrafia, feita por Takuan Soho segundos antes de falecer.

Contrariando seu pedido, são feitos inúmeros ritos e monumentos, não deixando-o sumir dos registros históricos. Porém, ironicamente, é mais lembrado como uma conserva de rabanete e coadjuvante na novela do Musashi. Por sorte, seus textos, poemas, caligrafias, pinturas e cartas foram preservados e podem ser apreciados por nós. Que possamos seguir seu exemplo, vamos ler e apreciar suas obras por completo, “sem deixar rastros”.

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