Entrevista com Keizen Ono Shihan

foto: Daniel Carvalho

O mundo e suas coincidências, ou como diz o Jung, a sincronicidade. Quarentena rolando, fui preparar minha aula teórica sobre Shoshin, a mente de principiante. Lembrei de um texto que tinha sobre o tema e, ao procurar nas gavetas, achei essa entrevista com o Ono sensei que fiz em fevereiro de 2003. Parei tudo e comecei a ler. Veio na memória eu com o gravador, dezessete anos atrás, entusiasmado com a possibilidade de entrevistar meu mestre. Tudo foi publicado num site da APA, mas dei um google e não consegui achar ela on line. Foi mais um impulso que precisava para tirar o pó do projeto de criar um site e ter um blog.

Achamos que as coisas on line estarão lá para sempre, talvez estejam, mesmo assim podem não ser achadas. Antigamente guardávamos álbuns de fotos, hoje já perdi a conta de fotos que bati e nunca mais vi. Uma das ideias de Shoshin, não a única, é sempre manter vivo nossos momentos e sentimentos iniciais na arte. Achar essa entrevista me levou ainda mais a lembrar deles. Na época não era mais um iniciante, mas em comparação com meu eu atual, não tenho dúvidas, era. Nem precisei achar o texto que procurava nas gavetas, voltar para o tempo me deu insight suficiente para a aula teórica. Decidir criar esse blog foi outra forma de voltar a vivenciar isso, ser um novato e estar aberto as possibilidades e absorver tudo que aparece, especialmente os simbolismos das sincronicidades do dia a dia.

Treino com o Ono sensei há mais de vinte e quatro anos, tenho inúmeros momentos marcantes com ele, dois deles relacionado aos meus primeiros passos no Aikido. O primeiro, estava visitando dojo´s para ver aonde treinaria, ao ver o Ono sensei entrar para dar aula, não tinha nem visto fazer golpe algum, sabia que se fosse treinar seria com ele. O segundo, quatro meses depois, não estava muito animado com os treinos, ele me chama para fazer Suwari waza Kokyu ho, seguro-o firme, na tentativa de impedir qualquer movimento e também ter a resposta que queria: “Aikido não funciona”. Quando pisco, estou do outro lado do tatame e ouço: “Keiko des”. Sensei sempre encerrou o treino falando isso: “Esse é o treino!”. Indo alinhar-me para o fim da aula, um amigo que iniciou junto comigo disse: “Cara, você voou!!”. Foi aí que nasci para o Aikido. Ainda quero entender como ele fez e faz isso, talvez nunca saiba, mas uma coisa tenho certeza: primeiro veio o Ono sensei, depois nasceu meu amor ao Aikido. Não fosse ele, aqui não estaria. Muito obrigado, Ono sensei, por dar vida ao meu caminho e, por de alguma forma paralela, lembrar-me nesse momento adverso o que me motivou, e motiva, a cada dia querer treinar mais e mais.

Keizen Ono shihan e Leonardo Sodré, foto de Ricardo Miyajima

Sensei, quando e como foi sua vinda do Japão para o Brasil?

            Eu vim para o Brasil com oito anos de idade, com a minha família, como imigrante, isso foi em 1934. Primeiro, fomos para Mogiana (região norte do Estado de São Paulo), onde continuei com meus estudos. Fiquei trabalhando até os trinta anos na lavoura e, após o falecimento do meu pai, mudei para São Paulo. Naquele tempo, tinha um grande sonho, que era treinar um Budo japonês. Queria fazer Judo, Kendo ou qualquer outro Budo tradicional do Japão

Hikari Kurachi sensei, um dos pioneiros do Judo Brasileiro

  Na época da guerra, li um artigo sobre o Aikido. Assim que cheguei em São Paulo tinha grande esperança de achar um dojo. Mas perguntava para as pessoas e ninguém conhecia. Quando eu comecei a sentir que meu corpo estava enfraquecendo decidi treinar Judo. Meu mestre foi Kurachi sensei (5° dan – na época).

Um dia minha mãe ouviu no rádio que Kawai sensei iria fazer a inauguração do Aikido em São Paulo. Então, eu o procurei, junto com um colega, no dia da inauguração e foi assim que comecei.

Como foi seu início no Aikido?

Reishin Kawai Shihan 8°dan (1931-2010), introdutor do Aikido no Brasil

Eu assisti a demonstração, não sabia como era, mas gostei. No sábado seguinte, voltei ao dojo com meu colega e Kawai sensei me convidou a conhecer o Aikido. Ele me aplicou uma técnica, gostei e me matriculei. Eu era o sexto aluno e meu colega o sétimo. Isso já faz 40 anos, foi em 20 de março de 1963. Sempre recebi grande apoio e carinho de Kawai Shihan, devo muito a ele e até agora estou curtindo o Aikido (risos).

Quem serviu de Uke para o Kawai Shihan na demonstração?

            Na primeira demonstração, Kawai sensei não tinha aluno e parece que o Uke dele foi um judoka do Dojo Ono. Era um rapaz grandão, mas, como os golpes eram muito rápidos não lembro de muita coisa. Depois que eu entrei, como vinha do Judo, fui durante muito tempo Uke do Kawai sensei.

Quando o senhor começou a dar aula?

Breno de Oliveira, Alfredo Palacios, Kawai sensei, Ono sensei e Chiuzo Oya

Como eu era o aluno mais idoso daquela época sempre fui assistente do Kawai sensei. Sempre o auxiliei. E, em 1967, recebi o dele o Dojo. No início, Kawai sensei vinha todos os dias, mas quem dava a aula era eu. Tinha bastante faixa-preta, mas todo mundo saiu e só fiquei eu (risos).

           

Depois, algum outro sensei chegou a dar aula nesse Dojo?

            Diversos mestres deram aula lá, alguns eram do Japão. Mas depois que Kawai sensei abriu outro Dojo, todos foram para lá. Eu também ia duas vezes na semana treinar na matriz.

Naquela época o seus treinos eram essas aulas ou o senhor tinha algum treino pessoal?

Ryotan Tokuda Igarashi (1938- ), veio ao Brasil em 1968. Fundou aqui no país vários monastérios Zen como o Morro da Vargem, no Espírito Santo, e o Pico dos Raios, em Minas Gerais. Reside hoje na França.

Não! Cada sensei procura, conforme seu corpo, alguma possibilidade de treino. Eu também procurava alguma possibilidade. Mas nunca procurei outra arte marcial, sempre pesquisava dentro do próprio Aikido. Então, eu conheci o monge Tokuda e o convidei para ensinar Zen no Dojo, para aprender alguma coisa a mais.

           

Como foi sua primeira visita ao Japão?

             Eu fui a primeira vez visitar o Japão em 1971. Na verdade, fui treinar no Hombu Dojo. Fiquei três meses lá. Conheci muitos mestres e, aí, meu pensamento e a minha técnica se modificaram. Foi muito gostoso. Até agora não dá para esquecer daquela época, dos mestres, principalmente daqueles que me trataram com muito carinho. Até agora treino com saudades deles.

Naquela época, quais foram os mestres que mais o influenciaram?

            Todos os mestres que conheci me influenciaram, eu gostei de todos. Mas não dá para esquecer do Nidai Doshu Kisshomaru Ueshiba, que me atendeu com muita atenção, de Ichihashi shihan e de Yamaguchi shihan. Diversos mestres me atenderam com carinho, todos estão dentro do meu coração.

Como foi a primeira visita do Nidai Doshu Kisshomaru Ueshiba ao Brasil?

Doshu Kisshomaru Ueshiba (1921-1999)

Quando o Doshu veio a primeira vez para cá, nós não tínhamos palavras para expressar nossa emoção. Eu o recebi dentro da minha alma, e minha lembrança é essa. A primeira vez, ele veio com o Yamaguchi Shihan e com Shibata shihan, que na época era 5° dan. Fecho os olhos e lembro-me bem daquela época e dos movimentos, pois eles estão guardados pra sempre dentro do eu próprio corpo. As técnicas e o carinho do Nidai Doshu e do Yamaguchi shihan estão dentro do meu corpo, isso tudo, graças ao grande mestre no Brasil, Kawai shihan.

Desde aquela época o senhor já estudava os ensinamentos mais profundos do Aikido?

            Eu já sentia que alguma coisa dentro do Aikido estava além da técnica corporal. Então, pesquisava e procurava por isso. Qualquer movimento da vida diária, sem querer, eu ligava com essa parte. Ainda hoje procuro e engatinho para chegar no caminho que O´sensei ensinava e nos deixou.

O senhor é conhecido como um grande acupunturista. Foi o Aikido que despertou esse lado e com quem o senhor aprendeu?

            Kawai shihan foi quem me ensinou acupuntura e shiatsu. Mas eu não sou um grande acupunturista (risos). Até agora eu estou procurando toda essa ligação com o Aiki.

Atualmente, faz mais de trinta anos que o sensei dá aula. Como é hoje ver seu grupo formado e como foi todo esse processo?

            Eu estou muito satisfeito com todos que me acompanham e me ajudam a expandir o Aikido. São todos muito carinhosos e todo mundo está procurando. Aonde eu vou eles me acompanham. Tenho certeza de que um dia chegaremos naquele sonho, de chegar ao ensino do fundador.

Nesses anos todos, o senhor recebeu algum desafio ou teve que utilizar o as técnicas do Aikido?

            Não, foram só brincadeiras. Graças a Deus, nunca aconteceu nada. Só coisas pequenas, brincadeiras que sempre tem, né. Mas são coisas que não são de nada, são coisas que já esqueci, não tem nada (risos), para mim não tem nada (risos). Não aconteceu nada mesmo, foram somente brincadeiras (risos).

Sensei, dentro do seu dojo tem um escrito original do fundador do Aikido, que diz: Sankai AIki. O que isso significa para o senhor e como vê isso no seu treinamento?

            Quanto mais idoso a gente fica e mais treina, o pensamento muda. Agora o modo de pensar é uma coisa, daqui a um ano, devo sentir outra coisa. Mas o fundador do Aikido escreveu que, em todo o movimento existe a força do universo, ele mostrou que essa força é Aiki. Eu penso assim.

Sankai Aiki, os três mundos do Aiki, caligrafia original do O´sensei

O nome do seu Dojo é Associação Pesquisa de Aikido, e o senhor sempre incentivou seus alunos a pesquisarem. Além disso, dentro do seu Dojo está escrito a frase: Bun Bu ryu Do. Qual é a importância deste conceito dentro do Aikido?

Bun Bu Ryu Do, a cultura e o caminho marcial são um só

            Bun Bu Ryu Do não é só no AIkido. Essa é a cultura do Budo japonês, sempre foi assim. A parte do corpo e da técnica tem que estar unificada com a cultura. Mas isso é uma coisa que faz mais parte da moral. Isso que sempre foi o Budo japonês, não é só no Aikido. Inclusive, atualmente o Aikido precisa muito disso: moral e parte técnica unificadas, isso é Aiki. Isso é o que significa “Bun Bu ryo Do”.

Qual a importância de estar sempre pesquisando, já que enfatiza muito isso nas suas aulas?

            É muito importante, tanto para a parte interna como para a externa, procurar aquele caminho que os antepassados deixaram para a gente. Tem que procurar aquilo que a humanidade deixou para gente e, também, para a gente deixar para o próximo. Por isso a pesquisa.

Dentro das suas pesquisas o senhor conheceu o Nishino-ryu Kokyu-Ho. Como descobriu e qual a importância desse método no seu Aikido?

Kozo NIshino (1926- ). Bailarino, Aikidoka e mestre em Kung fu. Criou um método de respiração, NIshino Breathing Method

Eu sempre procurei, mesmo antes de conhecer o Nishino-ryu Kokyu-Ho, alguma coisa relacionada ao “ki”. Todo o Budo japonês procura esse conceito. Então, com essa palavra eu sempre procurava, inclusive dentro do Aikido tem isso. Mas não tinha como, então treinava de diversas formas. Um dia, numa revista de saúde conheci o método do Nishino sensei. Naquele momento, eu vi que era exatamente o que estava procurando. Então, comecei a treinar e depois levei para o Dojo. Antes, fazíamos outros exercícios de Kokyu-ho. Esse método cresceu dentro do Dojo e ajudou bastante os alunos a se desenvolverem. Acho que o método do Nishino sensei combina comigo. Por isso, estou pesquisando e treinando.

Além do Kokyu-ho, o que mais o senhor enfatiza nas suas aulas?

            Eu procuro, na verdade, o fundo da palavra Aiki. Pesquiso isso, para saber como utilizar não só a palavra, mas a função de uma forma real, dentro de mim, dentro do Dojo, para viver. Por isso, enfatizo isso. Esse é meu Aikido.

Toda aula o senhor sempre dá as técnicas básicas, Dai Ikkyo, Dai Nikyo, Shiho Nage, entre outras. Qual a importância de treinar o Kihon Waza?

            Todo o Budo é a mesma coisa. Inclusive, para quem faz Aikido, kihon é importante, sabe. Ao fazer o Kihon Waza durante cinco anos, dez ou vinte anos, sempre conseguimos perceber alguma novidade. E também, o segredo do Aikido, de suas técnicas, está englobado dentro do Kihon, por isso é preciso treiná-lo. Agora, Kaeshi Waza e Henka Waza, para quem treina Kihon, isso nasce naturalmente. Por isso, de uns anos para cá, comecei a forçar as pessoas a treinar o Kihon Waza. Eu não dou aula de Kihon, eu treino junto com as pessoas. Nesse momento, não penso que o outro é aluno, não penso que é meu discípulo ou adepto, penso que é meu colega e que meu corpo está movimentando junto, unificado com o dele.

De uns tempos para cá, o senhor tem enfatizado o Atemi waza. São importantes os atemis ou dá para treinar sem realiza-los?

            Eu nunca aplicava muito atemi. Mas eu fui vendo que tínhamos uma necessidade de usar o atemi na técnica para não dar falha, ser mais real. Só isso. Para fazer isso, nós temos que pesquisar e saber muita coisa sobre atemi na aplicação do Aikido.

Qual a importância de treinar o Buki Waza?

            Eu acho muito importante treinar com Ken e Jo. Não se pode separar isso. Mas uma coisa que eu pesquiso é como manipular o nosso corpo. Agora essa parte de como usar as armas, quem treina Aikido vem sozinho. Mas primeiro vem a parte moral, o movimento do corpo, tai sabaki, o uso da energia, colocar isso no nosso corpo, educar. Aí, essa parte, Buki Waza, vem sozinho. Se você lê algum livro ou alguma coisa que o fundador do Aikido deixou, dá para saber que ele treinou muito isso, Ken e Jo. Mas ele semrpe disse, que isso nasce do corpo do aikidoísta. Por isso, que dentro do nosso grupo, nós treinamos o corpo para utilizar isso.

Vendo filmes e fotos do O´sensei, a maioria das vezes ele aparecia treinando em Suwari Waza ou em Hanmi Handachi. Qual a importância desses treinos na prática do Aikido?

            Suwari waza e Hanmi Handachi são a base do Aikido. É muito importante. No Japão é costume, ou era, sentar em seiza e andar de shikko, mas aqui no Brasil as pessoas não estão acostumadas com isso e acabam machucando muito o joelho com essas técnicas. Por isso, penso em como treinar suwari waza, za ho, hanmi handachi, sem prejudicar as pessoas. Isso vai facilitar a prática. Muitos praticantes param de treinar Aikido porquê machucam o joelho, então, estudo como treinar esses técnicas sem machucar.

O senhor fala muito de Kokyu nas suas aulas. Como explicar esse conceito para os praticantes?

            A palavra Kokyu é respiração. Mas não é só isso. Por exemplo, algum artista tem alguma sensação que recebe, chama isso de inspiração. Kokyu é a mesma coisa, eu acho. Também é comum a palavra em japonês “Iki Kokyu”. Iki é uma palavra em japonês que significa viver, ikei ou ikeru. Quem vive aqui, pensando ou não, está fazendo Kokyu. Então, não dá para separar essa parte da respiração. Por isso, acho muito importante, junto com a parte da energia, ligar o Kokyu com a formação da terra, do Sistema Solar e do Universo. Também é muito importante a força da Terra e do Céu, Yin e Yang, isso é Kokyu. Por isso, forço essa parte, para descobrir alguma coisa para deixar para a gente.

O senhor tem um grupo muito grande de alunos no Espírito Santo. Como é vê-los crescer, poder ir para lá e treinar com eles?

            Isso é um sonho realizado. O pessoal de lá é a mesma coisa que um filho. Aluno é assim, o mesmo que um filho. Por isso eu discuto com as pessoas, troco ideias para ver uma forma mais profunda de ligação com eles. Lá é um pouco longe, tem a dificuldade financeira, mas o que mais falta é tempo. Mas tenho que estudar um modo de ter uma ligação maior. Sempre vou pesquisar algo para poder levar o para lá e trazer o pessoal aqui também. Isso é muito importante para quem mora fora.

O senhor tem um grande respeito pelo Kawai shihan. Como é seu relacionamento com ele?

Kawai shihan entregando o título de shihan e o 7°dan ao Ono sensei, 2006. Foto de Ricardo Miyajima

            A ligação mestre e discípulo no Budo é maior que pai e filho. Minha ligação com o Kawai sensei é tão profunda que qualquer coisa na minha vida, seja Aikido ou acupuntura, foi ele quem me orientou, teve o carinho dele. Isso é o mesmo que faço com meus alunos. Essa gratidão ao Kawai sensei sempre está dentro do meu coração.

Esse ano o Aikido no Brasil faz 40 anos. Como o senhor vê o crescimento do Aikido no Brasil?

Kawai sensei enviou vários discípulos para várias regões do país, com intuito de disseminar o Aikido. Na foto com Herbert Ran Ichi, 6° dan, introdutor do Aikido no Ceará e presidente da União Sulamericana de Aikido

            A ramificação do Aikido no Brasil é muito grande, o trabalho do Kawai sensei é enorme. Eu também, dentro do grupo dele, queria fazer alguma coisa. Mas estou contente, pois aqui no Brasil tem grandes aikidoístas, fico muito satisfeito e muito contente com isso.

E o que o senhor espera para o futuro do Aikido no Brasil, do seu próprio e dos seus alunos?

            Eu sempre tenho orgulho dos membros do nosso grupo e também doas membros do Aikido no Brasil. Espero que todos no Brasil possam crescer bastante. Um bom crescimento do aluno é um orgulho para o professor.

Como é o seu treinamento pessoal? Ou o senhor apenas dá aula?

            O pessoal deve estranhar, eu não vou a nenhum yudanshakai. Mas eu sempre pesquiso alguma ideia, alguma força dentro e fora da gente, essa é a minha ajuda. E também, sempre treino nos Koshukai do Fujita shihan e do Hironobu Yamada shihan, para receber alguma instrução.

O senhor acha que o Aikido do Fujita shihan está ajudando a melhorar o Aikido do Brasil?

            Isso nem dá para discutir. Depois que o Fujita shihan veio para o Brasil, eu acho, que mudou muito o Aikido por aqui. Bom, tem outros grupos que não tenho contato. Mas dentro do nosso, que é o do Kawai shihan, nessas sete ou oito vezes que o Fujita shihan veio, já modificou muito. Todo o ano nós esperamos a vinda dele. Ele é muito bom, sempre dá aula reforçando as bases.

Masatake Fujita Shihan (1937-2014), discípulo direto do fundador do Aikido, foi por muitos anos secretário-geral do Hombu Dojo. Veio ao Brasil dar seminários no período de 1996 a 2004.

De alguma forma o senhor acha que o Aikido do Fujita shihan também influência no seu?

            Eu acho que sim. Sem perceber, nós recebemos o seu ensinamento. Lógico, ele sempre vem dar aula e alguma coisa sempre fica implantado na gente. Coisas que olhando parecem pequenas, mas aquilo que nós recebemos dentro da gente é o mais importante, pois, sem saber já está influenciando. Essa força é muito importante.

Atualmente, o Aikido tem um novo Doshu, Moriteru Ueshiba. Como o senhor vê o sistema iemoto no Japão e qual a importância desse novo Doshu para as próximas gerações?

Bom, toda arte japonesa tem isso, eu acho que é muito importante esse sistema. Eu conheci o Doshu Moriteru Ueshiba uma vez em Tokyo (1967), ele é muito bom, tanto pessoalmente como na parte técnica, tudo muito perfeito. Então, para o Aikido do mundo, não só do Japão, é muito importante o papel dele. Eu não o conheço, pessoalmente, mas um dia com ele e aí receberei um pouco da energia dele. Quem sabe um dia ele vem para o Brasil e todo mundo vai conhecer sua força. Por enquanto, nós só o vemos no vídeo, mas ele é uma pessoa muito boa. Isso é muito importante para quem treina Aikido.

O que é importante para um bom Aikidoka?

            Bom, cada professor dá exemplo diferente, né. É coisa simples. Quem treina procura aquilo que a humanidade precisa, só. Não tem essa coisa de quem treina Aikido tem que ser isso ou aquilo. Para mim é simples, a pessoa tem que ser bondosa para as outras pessoas, ser sério, né. Aquilo que a humanidade procura, dentro do Aikido tem tudo, isso é o mais importante. O resto é dentro da regra de cada Dojo.

E o que é importante para ser um bom professor de Aikido?

foto: Ricardo Miyajima

Um bom professor de Aikido precisa entender seus alunos, isso é muito importante. Geralmente é difícil entender, né. Então, tem que entender o aluno, o que ele procura e o que está precisando. Não é só a técnica. A ligação do professor e aluno é igual, ou mais, de que a relação pai e filho. O resto, com a vida dentro do Dojo vem naturalmente, porque a técnica vem sozinha. Agora, o contato entre as pessoas é muito difícil, ainda mais nesta época. Então, a primeira coisa é entender o pessoal, entender o sofrimento do aluno. Sofrer, sorrir junto com ele. O resto todo mundo sabe fazer.

    

O que o senhor espera para o futuro do seu Dojo?

            O que eu sonho para o futuro é, que as pessoas respondam com o que eu procuro, para que meus alunos consigam plantar isso para o próximo. Graças que eu estou conseguindo isso. Então, sempre agradeço a Deus pelos meus futuros alunos. Tenho grande esperança e orgulho. Futuro é isso. Nós não podemos levar o futuro para dentro do caixão (risos), Quem é encarregado disso é o próximo. Não tenho queixa nem nada. Às vezes, fico meio bravo, mas isso são acontecimentos esporádicos. Não tenho lucro próprio. Meu lucro é poder deixar algum conhecimento para criar meus discípulos, né. O que tem dentro da gente, o que procuramos agora, não dá para levar, só dá para deixar aqui. Então, eu procuro isso. As coisas vêm naturalmente e, naturalmente, ficam depois. Isso é Aikido.

Muitos alunos que treinam, ou treinaram, com o senhor, são hoje sexto, quinto e quarto dan. Como é olhar para eles e ver que se tornaram mestres de Aikido?

            Eu fico contente com essas pessoas que cresceram. Cada um ao seu modo, está trabalhando para fundar e ramificar o Aikido aqui. Cada um, conforme a sua pesquisa, fica diferente. Mas todo mundo faz sua parte para ramificar, todo mundo faz aquela parte integral do Aikido, para plantar aqui no Brasil. Por isso, diariamente, agradeço a Deus.

Parece que o senhor sacrificou muito da sua vida pessoal pelo Aikido. Como o senhor vê hoje toda a sua família ajudando-o no Aikido?

            Graças que minha família toda, minha mãe também, me ajudou. Tudo foi para mim. Parece egoísmo, que não penso na minha família. Pelo contrário, são eles que cooperam comigo, tudo para mim, é tudo para o Aikido. Se não tivesse ajuda da minha família, não teria tudo o que tenho e faço hoje. Por isso, não esqueço essa força que vem deles. Essa que é a minha família!

Todos no Dojo sabem que se não fosse pela senhora Deise, não teria nada hoje. Qual a importância dela para o senhor?

            Não é só ela, é minha família toda. Inclusive minha filha, meu filho e minha cunhada fazem muita força pelo Aikido. Eles é que seguram essa barra (risos). Sempre que penso no Aikido, lembro da minha família. Sem a força da minha esposa não teria vida no Aikido.

Muito obrigado, Ono sensei, pela entrevista.

            Muito obrigado por me entrevistar. Espero que todo mundo abra seus corações, para construir o Aikido aqui no Brasil. Esse é meu sonho e meu dever. Isso é minha mensagem para todo Aikidoísta, procurar o que a humanidade precisa. Dentro do ensinamento do Aikido, não é derrubar ou derrotar o parceiro, é construir a humanidade. Isso é o fundamental do Aikido, isso é o que devemos treinar e não esquecer.

9 comentários em “Entrevista com Keizen Ono Shihan

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  1. Linda sua entrevista com Ono Shihan! Certeza que muitas lembranças voltaram e você reviveu todo o seu caminho no aikido. Mas o que me emocionou mesmo foi esse texto inicial! (Caiu um cisco no olho muitas vezes…). E esse vídeo final é de uma poesia e gratidão infinita! Obrigada Sensei por dividir com a gente esse carinho!

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  2. Adorei a entrevista. Passou pela minha lembrança vários treinos do Sensei como uke do Ono Sensei, sempre muito respeitoso, como uma veneração! Muito obrigada, Leo Sensei, por mais uma rica e imperdível contribuição ao Aikidô e por enfatizar o sentido da Gratidão!

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