Entrevista com Ricardo Leite sensei

foto: Cadu Souza

O Aikido é uma arte marcial muito rica, técnica e filosoficamente. Porém, nossa comunidade tende a prestigiar poucos os talentos e grandes nomes que dão vida a essas riquezas. Ricardo Leite sensei é, sem dúvida, um dos grandes talentos técnicos do Aikido no mundo. Infelizmente, coloco-me aqui como culpado do que crítico, nunca tive a honra de participar e prestigiar seus treinos. Por sorte, tive a chance de vê-lo em ação em alguns seminários que participamos. Mesmo não tendo nenhuma aula direta com ele, nos anos 90, Ricardo sensei produziu um VHS ensinando as técnicas básicas, que tive a sorte de adquirir e muito me ajudou nos meus estudos.

Sempre ativo na divulgação do Aikido, há muitas entrevistas dele para diversos canais de artes marciais e afins, recentemente deu um passo além: criou um curso de armas online, dando mais possibilidades para diversos aikidokas se aprofundarem nessa área. Seu grande trabalho e legado, na minha opinião, é a sua abordagem pedagógica que desenvolveu, a qual denominou de Perspectiva Sistêmica Bushinkan Aikido (PSBA).

Deixo aqui meu agradecimento pelo Ricardo Leite sensei ter aceitado o convite dessa entrevista, bem como também ter tido a honra de conversar com ele no Aiki Papo Bom.

Ricardo Leite sensei é 7°dan de Aikido, sendo um dos principais discípulos de Yoshimitsu Yamada sensei no mundo.

1) Você foi introduzido nas Artes Marciais bem jovem, como foi esse
início?


Inicialmente, quero expressar que é um prazer conversarmos, em virtude do que observo de seu empenho em ser sincero e dedicado ao estudo do Aikido, por sua busca por fontes qualificadas e, consequentemente, apresentar um trabalho admirável.

Iniciei no Budo em 1970 acompanhando irmãos e primos mais velhos que já praticavam num dojo que viria a ser ligada ao icônico mestre, Chiaki Ishii sensei. Também tive padrinhos de batismo, japoneses (dirigentes na Seicho-no-Ie), com quem eu tinha grande afinidade e que reforçaram a iniciativa.

O contexto sociocultural que me afetava era ainda o movimento hippie de contracultura simbolizado por “paz e amor” com toda sua complexidade e forte “orientalismo”, um mundo polarizado politicamente com a Guerra Fria, primeiro homem na Lua (1969), país em regime militar, tricampeonato na Copa do Mundo com Pelé, sistema de TV incipiente, analógico e em preto e branco, mas já influenciando a sociedade como o celular, hoje em dia, já haviam produções japonesas infantis para TV, os westerns já recebiam influências de filmes de samurai. Tudo isso e também, “Bruce Lee” e, posteriormente, o seriado Kung Fu com David Carradine foram motivações e inspirações naquele momento, no sentido de ideais infantis de herói; honrado, justo e habilidoso, mas sábio e compassivo… Elementos que o ambiente do Budo propiciava serem vivenciados e amadurecidos pessoalmente.

2) Muito obrigado, Ricardo sensei, poder ter essa conversa com você é uma grande honra. Interessante você abordar os contextos culturais, especialmente o poder das Artes e entretenimento na construção de um ideal. Muito da percepção que temos e/ou adquirimos em relação ao Budo, vem de expressões artísticas, como cinema, literatura, quadrinhos e afins. Na sua juventude, lembra de alguma obra artística que o marcou em relação ao Budo, ou mesmo além dele?

A adaptação de Robin Hood por M. Lobato deve ter sido uma das minhas primeiras viagens literárias autônomas (início de meu fascínio pelo Kyudo e sua simbologia), na pré-adolescência. As artes plásticas sempre me fascinaram, mas sempre fui um desastre nisso. Nas artes cênicas lembro-me da performance de um circo chinês, com um tipo de “malabares luminosos” no total escuro do ginásio do Ibirapuera, gerando um vibrante silêncio de fascinação coletiva encantando com beleza e criatividade. Foi uma experiência definitivamente formativa, na infância. A música foi o que melhor pude apreciar, tendo um irmão desde jovem gradativamente se profissionalizando, convivi com músicos, instrumentos e ensaios, com riqueza. Também um professor de artes, na escola, que tinha sido músico profissional nos cassinos (quando ainda eram permitidos, no Brasil) e foi marcante profissional e pessoalmente. Pelé e Garrincha foram mais do que atletas imensamente inspiradores e também os Harlem Globetrotters ainda eram surpreendentes. A capoeira e a magia feiticeira de seu berimbau sempre seduziram minha atenção. Fred Astaire dançando com um cabideiro (Royal Wedding -1951), sempre foi deliciosamente instigante para mim. Arte e esporte espantavam o mundo naquela época das primeiras transmissões televisivas mundiais como; Mikhail Baryshnikov, Nadia Comăneci, etc. Tive uma infância principalmente urbana, mas extremamente rica, com família grande, vida comunitária integrada e ativa. Num híbrido entre esporte e arte lembro-me de que, já Aikidoka, entendi que eu não poderia chegar ao alto nível em tudo que eu admirava. Mas sentia que eu poderia vivenciar pessoalmente os ideais de conduta e liberdades de expressão que eu admirava naquelas outras áreas, com o Aikido, e que este seria o meu caminho na busca pela excelência. Foi uma decisão que se confirma ainda hoje, incessantemente, pois os limites que encontro estão em mim e não na arte.

03) Quando foi que começou o Aikido, foi logo após conhecer o Judô?

Insisto em contextualizar, ainda, alguns momentos que se davam em realidades (micro e macro) imensamente distintas das de hoje. Como foi dito, comecei Judô em 1970, mas em 1975 minha família mudou de residência. Não estabeleci vínculos com os novos vizinhos e o novo quintal tornou-se meu espaço amador de estudos pessoais. Por perto, havia uma casa anunciando “Aikido” na frente, mas ninguém conhecia essa arte e, essa casa, era uma das raríssimas unidades em todo o país. Era um mundo analógico e desconectado. Livros de budo eram raros e de baixa qualidade, livros importados eram ainda mais raros e caros, filmes domésticos só em S8, longe de serem populares. Até o recém sucesso comercial de Bruce Lee (fora os seriados de TV), só podia ser revisitado em salas alternativas, muito longe do grande circuito dos cinemas… O primeiro filme de Aikido é de 1975 (Gekitotsu! hoje disponível domesticamente no Youtube), mas só chegou ao Brasil nos anos 80 e, no cinema, apenas. Fui assisti-lo com Kawai sensei e sua saudosa esposa, já como discípulo, no Cine Niterói, na Liberdade (“bairro japonês” de São Paulo, na época) Em 1978 decidi dar uma chance à curiosidade sobre o tal Aikido. A primeira visita ao dojo (somente para assistir), desafiou meus paradigmas sobre arte marcial e competição. O mestre era japonês (o que, na época, era um aval quase em si mesmo) o ambiente tinha solenidade e intimismo respeitoso, então senti que poderia experimentar corporalmente, no mínimo. Iniciei, casualmente, no dia de meu aniversário de 14 anos, 30 / 08 /1978 neste dojo, com o saudoso (Toshio/Reishin) Kawai Sensei. Rapidamente fui me encantando com o sistema e com a não competição. Logo em seguida, o Kisshomaru Doshu veio ao Brasil com Seigo Yamaguchi Sensei e Ichiro Shibata Sensei. Foi um tremendo movimento que, inclusive, resultou na promoção de Kawai Sensei para 7 Dan (Algo incomensurável à época em qualquer arte. Lembro-me de que, quando surgia algum material de alguém “apenas” 4° dan de qualquer arte, já era um tesouro, pois já era uma graduação de mestre de alto nível). No mesmo ano, fora criada a primeira federação no Brasil (a FEPAI) sob sua direção (de Kawai Sensei). Enfim, foi uma feliz sincronicidade para mim, que propiciou uma jornada ininterrupta, ainda hoje.

Kawai shihan e Ricardo Leite sensei

04) Ter jovens praticando uma arte é fundamental para o futuro e sobrevivência da mesma. Você iniciou o Aikido bem jovem, continuou no caminho e se tornou se um expoente na arte. Poderia nos contar mais profundamente sobre o que te encantou no Aikido naquela época?

Deixar um mundo melhor para a geração futura e deixar uma geração melhor para o mundo futuro, são ações complementares, fundamentais e, em nada, excludentes. Vejo o mesmo para o Aikido. Tive a honra de um início muito feliz, no Brasil, com Kawai Sensei (1931-2010) e, em 2021 faço 30 anos de discipulado com Yamada Sensei, ícone histórico e estrutural da arte, mundialmente.

Não chego nem perto da dimensão deles como expoente da arte, mas, felizmente, o pouco que caminhei até aqui, foi sobre base sólida. Sobre a questão, achei muito feliz ter começado com o judô na infância, pois tive uma experiência íntima em perceber o que não aprecio e o que aprecio, pessoalmente.

A competição é excelente, mas me deixou claro que eu não tinha interesse algum em me dedicar a vencer alguém, muito especialmente por eventuais desvios, que não são esporte e, menos ainda, budo. Isso não acontecia em meu dojo, mas com crianças que eu encontrava em campeonatos e isso me desagradava demais, não fazia sentido para mim. O Aikido me mostrou que eu era o meu próprio fator limitante e que o sistema não competitivo (entre outras características) disponibiliza recursos para me expressar plenamente e que isso ainda pode ser de forma fraterna e edificante. Os chutes eram o mais empolgante e populares naquela época, mas nisso, eu me preparava para aprender no futuro, eventualmente, exercitando-me em casa. Por sua riqueza e maturidade sistêmica, vivenciar o Aikido superava minhas fantasias joviais. Desde meu início o Aikido se tornou o centro de minha atenção e aquela foi uma fase de intensa formação, numa feliz sincronicidade entre minha fase de vida, a fase de vida do sensei, a fase histórica do Aikido e do mundo. Essa primeira fase se deu de 1978 a 1990, ou seja, dos meus 14 aos 25 anos de idade. O amadurecimento gera desilusões, naturalmente, mas a realidade me encantava mais do que as ilusões perdidas…

Até o 4º kyu (segunda de 5 graduações de iniciante) eu achava que seria capaz de aprender o Aikido a fundo, mas, felizmente, desde então essa fantasia se dissolve revelando um universo tão vasto, que minha ignorância só aumenta a cada entendimento conquistado.

05) Dentro do Budo essa relação mestre – discípulo é muito viva. Você sempre cita sobre seus mestres e a vivência estreita longeva que teve com eles. Qual a importância dessa relação na formação de um Aikidoka?


Você diz que sou um expoente da arte e, como 7º dan, não posso ser pessoal, simplesmente, sob pena de desonrar a responsabilidade depositada em mim. Por mais sincero que seja, não posso simplesmente dizer que eu não me sinto assim, pois essa graduação é um patamar elevado pelas gerações anteriores e, formalmente assim assumida pelo Doshu e pela Aikikai. Não obstante, quais são (caso hajam) meus méritos? Há um ambiente de alto nível de Aikido em que essa minha condição seja algo digno de menção, ou a despeito de um ambiente amador (e exatamente por ser esse o desafio), ainda assim há uma posição entre o alto nível da arte, por ela mesma? Se há algum mérito digno, com o que e com quem tais conquistas se tornaram possíveis? São méritos próprios, ou apenas estar no lugar certo, na hora certa (ou por um certo tempo) uma condição externa conduz à uma condição expoente? Seja qual for a condição que levou à essa posição, há uma legítima ocupação dela? Ou seja, circunstâncias estruturais e/ou administrativas externas o conduzem a esse nível, mas você assume a responsabilidade dignamente, ou usurpa as conquistas desde ancestrais diretos e até de guerreiros que mataram e morreram em combate, para se dizer um samurai/budoka por vaidade, etc.?

No caso de méritos, ainda assim há reconhecimento (não humildade, mas sinceridade) de que nada se conquista sozinho, ou uma vaidosa e pomposa postura de maestria e superioridade que depõe contra a arte, por mais que a técnica, eventualmente possa ser uma referência de estudo? Essa jornada foi digna, ou pisou em alguém, ou até na própria arte para assumir tal posição? Houve franca exposição perante praticantes e mestres de alto nível com resultados relevantes, ou apenas diplomacia, fotos e clientelismo? Houve investimento do que você tinha (e não tinha) e dedicação sincera à isso, de forma que isso represente uma jornada, ou dinheiro e tempo que você tinha e escrúpulos que você não tinha, de forma que expressa apenas sua obsessão e capricho pessoal?

Correspondeu com sinergia e reciprocidade ao mestre e à arte, ou só colheu benefícios unilaterais para arquitetar um templo ao seu ego. Aproveita(ou) para se aprofundar na arte com mestres, perguntando, ouvindo, observando e convivendo com eles, ou foi apenas um jovem habilidoso e com oportunidades, que só tem aventuras joviais e entendimentos próprios a compartilhar. Meu primeiro sensei me recebeu e me tratou fraternalmente até o fim de sua vida, pois eu nunca desonrei nossa relação, ainda que nossos caminhos tenham se separado.

Yamada sensei não me tem como seu mais ilustre representante, mas ainda recentemente me disse, que eu nunca lhe causei perturbação, ao mesmo tempo em que, no tatame, há 30 anos demonstra um positivo e orientador olhar, inclusive com prática corporal, direta. Veja a história de Yamada sensei no Aikido e tente imaginar o que o parágrafo anterior significa para mim…

Quem (além da sinceridade comigo mesmo) poderia me dar essas referências com um olhar maduro, que conhece e pertence à história, à estrutura e vida do Aikido de alto nível profissional mundial, por dentro? Não me refiro “apenas” à ilustre pessoa de Yamada Sensei, mas ao meu sensei (além de outros digníssimos mestres a quem ele me deu eventual acesso direto, de forma que não me refiro à uma questão doméstica, mas estrutural). Tudo e todos são fontes de aprendizado para um aprendiz voraz, mas o valor dado à qualidade e profundidade das referências mostra o sentido no aprendizado e aprofundamento na arte.

Ricardo Leite sensei e Yoshimitsu Yamada shihan

06) Como sente essa responsabilidade em ser você hoje o mestre, a referência, para vários praticantes?

Sem a generosidade dos mestres, não há talento que extraia deles a imaterialidade da arte de que são portadores. Isso se dá em transmissão direta e pessoal, no momento apropriado, que desperta no íntimo, a chama que orienta o caminho daquele indivíduo. A despeito de meus enormes limites e de poucas décadas no Aikido, fui agraciado pela generosidade de mestres altamente qualificados com quem me dediquei e me dedico a aprender o máximo de Aikido ao meu alcance. Dessa forma, me tornei legatário de um acesso a um tesouro cultural imaterial, autêntico e ancestral.

A natureza da arte clássica não é de modelos. Não sou, não pretendo ser e, sou o primeiro a desconstruir qualquer olhar sobre mim, como um exemplo. Antes, haveriam outros muito melhores. Cada um tem seu próprio caminho e desafios para que a arte (para além da fantasia imaginária) veicule vivências e realizações de sua (do indivíduo) livre expressão, com excelência humana. Transmitir recursos qualificados, que possam maximizar os esforços pessoais para realizações nesse sentido é o desafio para, minimamente, honrar a generosidade que recebi e ser responsável com o que disponibilizo. Não tenho interesse em deixar meu nome na história, nem necessidade de reconhecimento por uma maestria, ou habilidade excepcional (que, aliás, não tenho). Cumprir dignamente meu pequeno papel nesse imenso universo da arte, já é uma honra e, faço meu melhor nesse sentido. Sou instrutor desde 1981, fui dirigente em 3 federações no Brasil, sou membro sênior da Sansuikai International e estou sempre disponível à organização do Aikido. Mas meu foco de contribuição é um conteúdo de qualidade, autenticidade e, com acessibilidade. Um pressuposto de sua pergunta é de que haja interesse em encontrar referências. Conforme expressei inicialmente, esse interesse teve uma hipertrofia em minha geração, pela escassez de informações e, atualmente, há uma hipotrofia, devido ao acesso fácil à muita informação. São processos que a arte, em sua longa jornada, absorve, amadurece e se atualiza a cada dia, preservando sua relevância como patrimônio cultural.

07) Quando e como começou a dar aulas de Aikido?

Declinei de um convite do sensei para exame de faixa-preta no início de 1981, mas ele insistiu no segundo semestre e, perante os membros mais graduados e antigos, na recém fundada federação, fui promovido por unanimidade de votos, após exame prático, em agosto daquele ano. Por alguma razão, o primeiro de dois horários noturnos (o segundo era do Sensei) estava com dificuldade de ocupação regular por um instrutor e, eventualmente, quando 1º Kyu (pré faixa-preta), eu era indicado para substituição de emergência. Com a carência no horário, minha disponibilidade e faixa-preta reconhecida, fui rapidamente sendo delegado à assumir a responsabilidade. Ao contrário do sensei, eu era um jovem inexperiente, um faixa-preta iniciante, brasileiro (ou seja, capaz e com o lógico dever de expressar instruções verbais claras). Além disso, como sabemos, a instrução é um desafio nela mesma e habilidade pessoal é algo intransferível. Em outras palavras, não era nada fácil, ou confortável corresponder à missão, mas esse era o único caminho a seguir e não poupei esforços nesse sentido.

Durante toda minha fase de kyu (graduações anteriores à faixa-preta), eu fui regularmente requisitado como uke (receptor da técnica) no preparo e nos exames de muitos colegas. Isso foi muito rico em minha formação inicial e posterior função de instruir. Com jovialidade e ukemi seguro, eu era uke frequente dos mais graduados do dojo, de professores visitantes e, gradativamente, do próprio sensei, com regularidade. Outra fundamental experiência em minha formação inicial e posterior função de instruir. Após as aulas, com as portas fechadas, eu explorava diversas práticas experimentais com colegas, com graduados de outras artes, ou sozinho, em busca de experiência apropriada à graduação e à responsabilidade (segundo eu sentia que deveria corresponder àquilo). Com a devida licença de meu sensei, frequentei aos domingos, por um período (não sei precisar quanto), o dojo de meu senpai Makoto Nishida Sensei, que era diretor técnico da federação e com um trabalho de ênfase em métodos (entre outras qualidades). Ele foi muito generoso e instrutivo, como um excelente senpai. Essa, inclusive, era a visão que eu tinha de minha função como instrutor iniciante; ser um senpai que pudesse facilitar os entendimentos entre os iniciantes e o mestre altamente graduado, naturalmente, muito distantes, na arte.

A primeira vez, em São Paulo, que se viu um vídeo de Ueshiba O-Sensei, foi por uma complexa ação “diplomática”, minha. Um faixa-preta do Rio de Janeiro estava em São Paulo e havia adquirido um vídeo de um documentário, mas também havia gravação de K. Tohei Sensei, que havia se separado recentemente da Aikikai e ele estava com muito receio de causar alguma polêmica. Tive que convencê-lo a emprestar, me comprometendo firmemente a passar apenas a primeira parte do vídeo, só com O-Sensei, além de conseguir uma TV e um (dos recém-chegados ao Brasil) aparelho Betamax, emprestado. Após um complexo e rápido arranjo, num yudanshakai (encontro de faixas-pretas) conseguimos ver, pela primeira vez, imagens em vídeo, de O-Sensei. Obviamente foi excitante, ainda que quase inócuo aos nossos olhares despreparados à época, mas foi um início de estudo. O vídeo, é claro, hoje está no youtube, inclusive o do Tohei sensei…Enfim, eu fazia tudo ao meu alcance para amadurecer minha formação e, muito além de meus entendimentos pessoais e intuitivos, aprender o mais autêntico da arte, por ela mesma, que eu pudesse, para transmitir com o mínimo de minha imensa ignorância. 

08) Interessante essa relação que cita entre ser ter sido Uke constantemente e isso ter sido essencial na sua formação. Qual a sua opinião sobre o papel do Uke dentro do Aikido?

Esse é um tema delicioso e sem fim, que vou abordar como acredito que possa contribuir, nessa conversa. Inicialmente, em Aiki a união é fundamento. O isolamento do Uke do Tori (Nage) está em nível analítico de apreciação, sem perder de vista o conjunto. A pergunta assume como premissa, uma variável (minha opinião) e, duas constantes, (Uke e Aikido). Mas é uma premissa imprecisa, quanto às constantes (Uke e Aikido). Aikido é um tesouro cultural imaterial, com toda a complexidade que isso significa, inclusive identitária. Mais uma razão para se referir ao mestre, pois a linhagem da escola é uma referência inicial muito importante em relação às bases que, eventualmente, fundamentam, ou não, uma opinião (especialmente uma opinião profissional).

Um olhar simples pode ver o Uke em 3 níveis: básico, intermediário e avançado. Sem esforço, pensei em mais de 20 situações ordinárias, começando por ser Uke como: kohai, dohai e senpai. Ou seja, mais de 60 situações ordinárias, num breve olhar. A premissa da resposta para todas essas situações e qualquer outra, é simples de entender racionalmente: fazer Aiki. Ser capaz de apreciar e explorar suas infinitas nuances, além de ser um grande aprendizado é um prazer imenso, física, emocional e mentalmente. Em escolas antigas de espada, o sensei (ou senpai/veterano) recebia a finalização em um kata (estrutura técnica), pois assim, ele (sensei/veterano) expõe o aprendiz, a condições processuais e decisórias que precisam ser dispostas estrategicamente para que, desde corporal, emocional e racional, até intuitivamente o Aiki desperte de dentro dele
(aprendiz).

Por mais habilidoso, complexo, ou quantidades de kata que se tenha acesso, serão letra morta se não conduzirem ao Aiki, desde o básico, em diante. Com bokken (espada de madeira) fica mais claro quando alguém faz algo diferente ou oposto ao estudado (como expor uma face da espada oposta a estabelecida), sem perceber. Receber/acolher e fazer Aiki com isso é de imensa importância para orientar o fluxo sem se prender (menos ainda prender o outro) à forma, mas torná-la (a forma) veículo de expressão do seu Aiki. Entre o Uke e o Tori, sistematicamente o Uke é quem tem mais liberdade para esse trabalho. Por exemplo: num estudo de esquiva à direita, há diversos pressupostos que podem gerar tal ação (naturalmente, estratégica e perigosa). Como Uke, posso estudar quais situações gerariam essa esquiva à direita contra aquele meu ataque estudado (lembrando que ocultamos aqui, o Tori, na equação). Assim, aprecio quais vantagens o outro pode explorar em tais casos. Absorvendo plenamente o golpe (Kihon) me habilito, também, a buscar até o último momento uma reversão, alterar o fluxo impreciso (Henka waza), ou até mesmo, reverter a vantagem (Kaeshi waza). Absorver, anular, ou oferecer uma vantagem como indução, são recursos estratégicos construídos e habilitados sistemicamente, muito além da ação e reação física e instintiva, ou eventual habilidade pessoal. Sabiamente o Aikido não cultiva prática competitiva, nem combativa, mas a armadilha disso também requer atenção. Ou seja, uma prática automática e vazia, ou guiada pelo externo (como “tradição” ou estética, apenas) pode minimizar o Aiki, ou tornar práticas específicas foco isolado e até alheias à arte. Por outro lado, a simples atenção e com boa condução, é um caminho sem fim de aprendizado e prazer. Uma analogia que aprecio (entre infinitas outras, possíveis), em certa instância, é como uma banda profissional (de Jazz, por exemplo) mantém uma base de qualidade para o solista se soltar em sua criatividade sem se perder em si mesmo.

E assim, voltamos à equação básica onde não há isolamento, mas interdependência e intercâmbio de funções. Como iniciei dizendo, é um assunto sem fim.

09) Você citou o trabalho de armas. Dentro do Aikido tem aqueles que praticam muito e outros que não fazem uso do treino de armas. Na sua opinião, qual a importância do Buki waza e do seu treinamento?

Grosso modo, podemos destacar: o Aikido, o Aikido enquanto sistema e o Aikido de cada um. O primeiro foi fundado com O-Sensei, que manifestou, semeou e deixou referências e orientações. O sistema da arte Aikido é fruto de trabalho conjunto da família Ueshiba e grandes discípulos de O-Sensei, iniciado com ele ainda em vida. O Aikido de cada um é o sentido de sua existência (do Aikido) e o que nutre o sistema, organicamente em evolução e, cujo equilíbrio (do sistema) advém de sua autorregulação. Uma questão que me parece fundamental é sobre como os elementos diversos, desde mecânicos até subjetivos, se harmonizam dentro do sistema de forma a não dispersar, mas maximizar o despertar do Aiki. Por isso, me refiro a noção de sistema, no sentido holístico. Pode haver desde grande até pouca ênfase em Buki Waza (prática com instrumentos marciais), mas não há, em Aikido, alienação do Tai jitsu (prática corporal).

Por natureza a arte tem uma espécie de simbiose de sistemas entre a espada (e/ou outros instrumentos) e o corpo, chamada de: Riai. Aprecio muito uma orientação do Kisshomaru Doshu que, tratando de Riai, sugere que se inicie pelo Tai Jitsu. Entendo que isso orienta enormemente o estudo dentro do Aikido com maior eficiência na assimilação do conjunto do sistema.

Yamada Sensei recebeu orientação pessoal de O-Sensei e, absorvendo-a a seu modo, seguiu-a com ênfase no Tai Jitsu. Mas isso, dentro de um sistema de trabalho comunitário e diverso (Aikikai, USAF, Sansuikai) em que seus irmãos de Aikido (alguns com grande ênfase em Buki Waza), deram provimento aos seus alunos interessados em mais ênfase neste estudo, como eu mesmo, por exemplo.

Vários relatos mencionam O-Sensei ter promovido situações para seus alunos aprenderem o básico de espada com especialistas, para conseguirem estudar com ele, que aprendeu e conviveu com alto nível clássico de Buki Waza e que, sabidamente, não se dedicava a ensinar, mas a desenvolver. Esse dado nos remete à questão de níveis. Em nível básico é importante se “alfabetizar” com alguém preparado para fazê-lo, minimizando a chance de investir energia em falácias, em premissas estéreis. Isso orienta que, desde o básico, o todo do sistema já esteja sendo disponibilizado de forma que o desenvolvimento seja orgânico e natural, cada vez menos dependente e mais interdependente, como num ecossistema. O alto nível é Aiki, não é ser um esgrimista (mantendo o exemplo genérico do bokken), nem tão pouco, ser um replicante de estruturas com menos, ou mais detalhes e habilidades, por si mesmas.

Por exemplo: antes, depois e a até durante um encontro a imaginação pode preponderar a ponto de resultar em experiências alheias para cada um. Fisicamente, as experiências tendem a se aproximarem, num embate físico (ou iminência de um), mais ainda e, um embate com armas (chamadas brancas) tende a aguçar ainda mais a percepção um do outro e do contexto.

Com ou sem armas, temos desde três momentos distintos (antes, durante e depois) na imaginação de cada um, até “apenas” uma situação atemporal de presença plena com possibilidades como: ação, interação e não-ação. Quanto mais plena a presença, mais o “DNA” de Aiki tende a ser intimamente despertado. Uma dinâmica previamente estabelecida orienta quem e como ataca e defende, mas sem considerar o “matar” e “morrer” (sua iminência sistemicamente exposta), prepondera a imaginação, há baixo cultivo de Aiki, de união com o outro, de harmonização da situação, do fluxo.

Inversamente ao holismo, temos um reducionismo, no melhor dos casos… Isso é uma questão de vivência sistêmica, madura e sincera, de corpo, mente e espírito. Um samurai (ou qualquer humano sadio e preparado) não se postaria diante de uma lâmina ofensiva, nem de forma paranoica, nem relapsa.

Assim como Tai Jutsu não visa o combate físico, mas Aiki, os recursos também imensamente ricos de Buki Waza, tanto quanto mais sabiamente acessados em seus fundamentos, mais profundamente promove vivenciar a sabedoria que os rege. Nada disso, tem a ver com ir para a guerra, ou arriscar a vida para adquirir experiência pessoal de combate, ao contrário, se refere a extrair dela (a guerra vivida pelos ancestrais), uma lição radical, uma vivência de cultura e sabedoria de humanidade, desde física à íntima, que transcenda a guerra e propicie vivenciar Aiki.

10) Você usa bastante esse conceito de Sistema, e sei que tem todo um estudo pedagógico que desenvolveu baseado nisso. Poderia explicar o que seria a perspectiva sistêmica que faz do Aikido?

A Perspectiva Sistêmica Bushinkan Aikido (PSBA) propriamente dita é um instrumento em permanente evolução, mas com maturidade já estruturada e com suas bases expostas e disponíveis na internet. Desde 1970 no budo e de 1978 no Aikido, especificamente, são apenas poucas décadas de experiência individual, de forma que, longe de uma criação, a PSBA é fruto do desenvolvimento de elementos próprios e clássicos tanto da arte, como de seu contexto cultural.

O primeiro elemento de sua origem é a natureza do aprendizado, que demanda pesquisa e reflexão ativa, o que, nesse caso, se refere a identificar o esforço do oriental em alcançar a mente ocidental e cuja reciprocidade se faz necessária, complementar e fundamental. Isso propicia acesso mais direto à natureza própria da arte minimizando as barreiras culturais e desvios de entendimentos na comunicação, por analogias, paralelismos que tendem a se cristalizar neles mesmos, como réplicas, representações, no melhor dos casos. Esse processo surge da busca de habilitação para vivenciar autenticamente a arte, o que nos leva em busca de recursos que orientem tal habilitação, não de réplicas, ou representações, mas de sua natureza mesma, desde técnica e cultural. A exterioridade cultural pode ser inclusive um trunfo, em que tal processo esteja livre de paradigmas da própria cultura ao mesmo tempo em que conta com uma séria dedicação em seu estudo (naturalmente, não se trata de se tornar um japonês, ou brincar de samurai). Outro elemento é que a matéria prima do estudo está em pessoas, desde suas expressões corporais até culturais e de vida, onde manifestam a arte em diferentes formas e é preciso um “radar” cada vez mais refinado para enxergar, valorizar e se aprofundar em elementos que escapam facilmente ao desatento, despreparado e que são tesouros valiosos.

O que nos leva a mais um elemento que são os níveis de desenvolvimento, ou seja, acumular tesouros, mesmo autênticos, não o torna rico, mas pesado, desperdiçando muita energia em carregar recursos que não são os que o conduzirão para níveis superiores. O exemplo mais recorrente são técnicas, tradições por elas mesmas, ou macetes, elementos isolados ou juntados numa arquitetura artificial e falaciosa que ancora mentes ao racional, analítico (e até moral), mais camuflando do que revelando. Temos um caldo cultural rico de elementos milenares, técnicas seculares, gerações passadas, presentes e futuras envolvidas num mesmo momento a cada ciclo evolutivo da arte. São muitos fatores de imenso conhecimento em vários níveis e instâncias humanas individual, grupal e social que se interagem continuamente numa relação imensurável com lógica própria, que compreende tal processo e suas peculiaridades.

Uma coisa importante foi elencar e ordenar os elementos da arte que, por ela mesma, como uma língua, evolui com vida própria. Mas estabelecer um sistema que contemple essa vida, sem aprisionar, mas favorecer a livre expressão por através dessa língua, inclusive, é um recurso valioso e clássico.

O mundo das teorias dos sistemas é infinito e fascinante em suas diversidades, naturezas e complementaridades, mas me refiro a lógica clássica oriental como lógica de interdependência, de natureza mutante e de seus signos que se retroalimentam organicamente na natureza, na vida. A PSBA, contempla em seu núcleo, signos elementares da arte propiciando referências ao próprio apreciador/praticante, da arte, minimizando a necessidade de intervenção externa à sua própria experiência, sem, ao mesmo tempo, ditar qualquer tipo de conduta, técnica ou entendimento. Ou seja, o recurso não é para ensinar, mas para aprender e, naturalmente, quanto mais profissional e sério o ambiente, melhor é o processo, sempre fundamental.

Um exemplo simples, recorrente, mas nada insignificante é quando o sensei propõe um estudo técnico e essa prática se torna, ou impossível, ou tão “fácil” que não faz sentido, ambos os casos são desconcertantes (polarizados como caricatura)… Qual é o ponto??? Para onde olhar??? O que procurar??? Sou eu, o outro, o sensei, o waza, o Aikido??? Peço ajuda ao outro??? Procuro o sensei??? Qual recurso próprio da arte eu tenho, antes da opinião pessoal minha, ou de qualquer outra pessoa?? Não é sobre um hipotético “verdadeiro Aikido”, mas sobre uma vivência autêntica, um fluxo legítimo. Quais recursos são da natureza mesma da arte e como podem dar maior autonomia processual, sistemicamente orientadora, enriquecedora da experiência individual e coletiva, condutora de superação e de elevação no nível de aprendizado?

Ricardo Leite sensei ministrando treino no seminário do Yamada sensei em Piracicaba. (foto: Cadu Souza)

11) Interessante essa sua abordagem. Pelo que entendi, é um sistema de aprendizagem, para dar liberdade ao praticante, não prender ele num código. Porém, sempre temos o risco de cair no sistema pelo sistema, de ficarmos presos dentro de regras. Ao mesmo tempo, sem sistema algum, vira tão caótico que dificilmente o praticante tem condições de progredir. Como você lida com essa questão, entre a forma e a liberdade, entre um sistema de aprendizagem e a compreensão livre do caminho?

“De fato, somos uma liberdade que escolhe, mas não escolhemos ser livres: estamos condenados à liberdade.”  J.P. Sartre

Essa é uma pergunta desconcertante que não faria sentido para um oriental, imerso numa cultura milenar em que alguns pilares são paradigmas naturalizados por gerações. Responder demandaria traduzir sua tradição num reducionismo que beira a blasfêmia com a própria cultura, diante da imensidão do tema. Por outro lado, qualquer expressão simbólica parece fadada a ser tomada, como definição, ou uma amostra suficiente para entender superficialmente, resultando em falácias em ambos os casos…

Tratamos de elementos de algumas das civilizações mais antigas Um dos clássicos mais antigos, com milhares de anos, é o I-Ching, uma expressão sistêmica da natureza mutante, que contrasta diretamente com a noção de cosmo grego. São 64 hexagramas (sem palavras), mas estudado e comentado por sábios como Confúcio, o que nos coloca diante de algo longe de um oráculo de fantasia e superstição.

Ainda no taoísmo, a não-ação como ícone de sabedoria, contrasta com o ícone hegemônico do herói, em nossa cultura. Há milênios escolas como hinduísmo, budismo, yoga se dedicam a algo como o deslocamento do “eu”/ego em direção ao Eu Superior em sistemas; gradativos (encarnações), ou súbitas (como o Zen entre várias outras), com ênfase em elementos como: físico, emocional/devocional, mental/reflexivo, ou integrais (os 3 anteriores). O confucionismo desenvolve sua noção de Humanidade num sistema “filosófico” icônico, ainda hoje.

Tudo isso se desenvolve em processos peculiares se entrelaçando ao longo de diversas culturas e períodos com apenas pontuais intercâmbios com o “Ocidente”. Essas (e muito mais) são tradições do contexto, além do próprio xintoísmo, budo/bushido e, finalmente, o Aikido apresentado por O-Sensei, como expressão clássica dessa cultura… Quando eu me refiro a sistema, não se trata de uma tese, um produto intelectual de minha autoria, mas uma perspectiva de acesso à noção da dimensão disponível em que, o silêncio, o vazio são o grande bem e, efetivamente, portador.

Creio que (entre muitas razões), por ser o corpo, íntimo e radical portador desse conjunto de sabedoria, O-Sensei adotou o Budo como elemento basal de condução do legado. Métodos de treinamento, condicionamento, habilidades e diversidades técnicas só são portadores enquanto propiciam amostras dessa fonte, ou se tornam, como você disse; “o sistema pelo sistema”. Exibição pessoal (de habilidades, e/ou de informações, por si mesmas), também não compõem um processo formativo, mas, eventualmente, de entretenimento. A transmissão e o aprendizado é um processo que demanda receber, portar e transmitir, no mínimo…

(“Céu”)

Para haver uma harmonia natural (Aiki) é importante lidar com os ritmos de cada um em cada situação (Kokyu), o que demanda uma conexão significativa (Musubi).

(“Terra”)

A relação se processa polindo uma linguagem comum (Awase), aprendendo a não se chocar (omote/ura), numa relação que se inicia clara entre dar e receber, mas que se transcende e se dinamiza ao evoluir (uke/tori).

(“Humanidade”)

Por isso é importante entender o nível em que estamos trabalhando SHU/HA/RI e a natureza das situações (Kotai/Jutai/Ekitai) de forma a favorecer que, independentemente de referências, momentos desde mínimos à plenos de harmonia natural, sejam percebidos, valorizados e norteadores (kitai).

A “liberdade” a que você se refere é exatamente o elemento que permite não suprimir, nem impor nada ao real. Não obstante, sistemicamente consequências das decisões adotadas, são apontadas/exploradas com Aiki, por instrumentos (o mais corporais, possível) como; Chushin (o centro da guarda) entre tantos outros, próprios da arte e de seu contexto. N. Tamura Shihan, um ícone histórico e estrutural do Aikido tomava (entre outros mestres) Chushin como uma constante e é um elemento encontrado em vídeos do próprio O-Sensei, orientando.

Ainda citando N. Tamura Shihan, a sinceridade é um elemento fundamental nessa jornada, o que nos conduz de volta ao complexo contexto no início da desta resposta…

12) Hoje o Aikido, e o Budo como um todo, é praticado no mundo inteiro. Porém, ele é composto de elementos culturais e também geracionais. Como você lida com o choque de cultura e também de gerações dentro do tatame?

O Essa “roda” já foi inventada há muito tempo. Tem modelo “Flintstones”,carroça, cross, passeio, pra chuva/sol, cerimonial, exibição, ambulância, autoescola, clássicas, ultramodernas, enfim, o Aikido de cada um é o patrimônio da arte, que dá tangibilidade de forma nuclear e vivencial, no tatame. Yamada Sensei e seus “irmãos” de Aikido na USAF, pela Aikikai, são uma referência concreta, para mim, da universalidade do Aikido, em que; geração, nacionalidade, cultura, gênero, título, ou qualquer distinção natural, ou cultural, encontra no tatame, um caminho de vivenciar Aiki de forma edificante.

A origem japonesa, a natureza de budo e o “DNA Ueshiba” são elementos radicais que, por mais distintas que sejam as leituras, ainda encontram uma base comum para qualquer conduta minimamente considerada como Aikido. Não há como descrever o que nos coloca num mesmo tatame de Aikido. O que é vivido no tatame alimenta a vida fora dele (dentro e fora do âmbito da arte) que, por sua vez, retroalimenta a vida dentro dele, sistêmica e incessantemente.

Propensão ao choque é algo natural e é a premissa de quão valioso é o Aikido, para além da inércia, ou instintos basais, acompanhar a natureza com harmonia e humanidade. Naturalmente, O-Sensei teve como vida, antes ser um sábio do que um guerreiro e refletiu isso no Aikido, diretamente. Essa conduta é fruto do saber clássico, que não exclui elementos, mas tem a hierarquia muito clara sobre o alto nível do saber humano e os níveis abaixo. Esse é um elemento do classicismo do Aikido, que não alimenta violência e arrogância nem consigo mesmo, nem com o outro, exatamente por ser portador de valiosos saberes ancestrais. Me ocorre uma lembrança: por volta de 1980 quando veio ao Brasil uma comitiva do Hombu Dojo central de Tóquio, Japão, liderada por Norihiko Ichihashi Shihan acompanhado por mais 3 proeminentes instrutores, que hoje são mestres consagrados mundialmente. Eu era um jovem inexperiente, com uma cultura familiar e brasileira ainda preponderante onde chinelo (felizmente com muito amor), tinha múltiplas funções.

Lembro-me do quanto eu desejava treinar com algum (todos) deles, mas achava um atrevimento de minha parte, tentar me aproximar sendo apenas um 1º kyu então ficava torcendo para ser um sortudo escolhido para treinar, mas não foi o caso. Infelizmente, não troquei mais do que olhares e “apenas” assisti espetáculos vibrantes de elementos revolucionários para a prática nacional da época.

Depois eu entendi os procedimentos e que não foi falta de sorte, mas antes, falha de conduta minha, pois longe de atrevimento, se apresentar disposto e disponível é o mínimo que se espera de quem quer aprender. Desde a “roda Flinstones” até as “ultramodernas”, tudo é uma oportunidade de fazer Aiki, continuamente se polindo, tanto para afiar, como para conservar o brilho que revela, como em uma espada. É assim que cada Aiki pessoal amadurece continuamente e, com eles, o Aikido. Yamada Sensei lidando carinhosa e respeitosamente com Kisshomaru Doshu, com Waka Sensei (na época) e hoje o atual Doshu, com Tamura sensei, um senpai altamente estimado por ele, com os demais mestres contemporâneos, com os mestres formados por ele e sua geração, são referências inestimáveis.

Ricardo Leite sensei com Yoshimitsu Yamada Shihan no Hombu Dojo (à esquerda), com Doshu Moriteru Ueshiba (ao centro) e com Doshu Kishomaru Ueshiba (à direita)

Uma infinidade de inspirações intraduzíveis faz da experiência vivida um aprendizado na raiz da cultura e da arte. Tradições, protocolos são referências do já conhecido, não são o fim da história, mas a base, o passado à disposição do novo, do desconhecido da vivência única de cada um. Seguir ou quebrar protocolo pode ser por ignorância, para sinalizar desarmonia, ou para fazer melhor ainda, com deferência e, todas alternativas expressam o nível de Aiki, desde indivíduos, como de grupos.

Como reflexo da vida, muita coisa acontece noutros níveis, mas como eu disse; me refiro à base comum para qualquer conduta minimamente considerada como Aikido.

13) Como tem sido enfrentar a pandemia e manter sua prática? Acredita que a pandemia pode transformar em como vemos o Aikido e as Artes Marciais?

Não há palavras para expressar tal tragédia mundial que, atualmente, levou mais de 500 mil pessoas apenas no Brasil, com esta dolorosa crise. Em nosso tema, cabe observar a questão de ciclos em que, problemas e soluções estão em incessantemente dinâmica e, a solução de hoje, caso se cristalize, pode ser o problema de amanhã.

O forte em aula presencial, isoladamente, tem deficiências, assim como pesquisas e conversas, isoladamente, também não suprem uma formação plena e aprofundada. Não é o tema de nossa conversa, trabalhos desequilibrados, menos ainda, militar por um ideal do supostamente correto, verdadeiro, etc., uma vez que cada jornada pessoal tem características próprias.

Diferente da minha fase inicial, hoje há uma constante e crescente disponibilidade de material de apoio para estudo, assim como um amplo campo de escolas favorecendo uma adaptabilidade e seriedade de trabalho. Eu aproveitei a escassez em meu início para aguçar minha percepção, capacidade de captação e assimilação de micro referências, desenvolve recursos para destrinchar e aprender com as fagulhas de conhecimento disponíveis à época.

“Artes Marciais” se tornou um termo muito abrangente e impreciso, de forma que prefiro me referir ao budo, que permite um pouco mais de especificidade à minha fala. Assim como no chamado “mundo real”, o virtual conta com diferentes proporções de interesses, como: entretenimento, hobby e até aprendizado/formação. Eu não sei o que “as pessoas” precisam, ou deveriam saber, entender, fazer… No melhor dos casos posso contribuir com responsabilidade o que disponibilizo para que descubram por si, caso estejam procurando ou, no mínimo, abertas. Análises sobre civilizações, entidades, grupos, ou indivíduos oferecem perspectivas, mas a realidade jamais se deixa ser capturada pelo intelecto, menos ainda por caricaturas reducionistas. Ou seja, é preciso adotar modos de vida e convívio, mas sempre demandam atualizações, no melhor dos casos, refinando, polindo, simplificando com eficiência. O Budo não tem nada de democrático, mas isso é uma característica, não um álibi. Yamada Sensei a despeito de liderar uma das mais icônicas federações de Aikido do mundo (USAF), não tem o menor apreço pessoal pelo sistema federativo adotado tanto nos EUA como ao redor do mundo, para organizar os grupos. A grande questão dele é que, a cartolagem (expressão minha) é quem acaba regendo as entidades e, por definição (de cartolagem) muito mais em prejuízo, do que em favor da arte, amparados burocraticamente para suas perversas disputas (internas e externas) de poder, como:

– O Aikido é o caminho da harmonia: “claro que, harmonia COMIGO”.

– O Aikido é para fazer da humanidade uma família: “claro que, a MINHA família”

– Devemos no caminho da harmonia sermos todos amigos: “claro que todos, MEUS amigos”

O enorme período de isolamento na América Latina foi ainda mais insalubre, sedimentando uma camada cultural orgânica e reprodutiva de progresso burocrático e artificial. Você mesmo, é um profissional isolado em qualidade de trabalho, mas (imagino eu) sabe que não basta “ter um olho em terra de cegos”, para que isso o torne um profissional de alto nível perante o trabalho da comunidade internacional, a própria arte, o Budo e a sociedade, de forma responsável.

A questão geracional é um grande ponto de mutação necessário, inexorável e a esperança de amadurecer, atualizar e refinar tanto discurso como, principalmente, o conteúdo da arte propriamente. O ambiente homogêneo da internet (até desfavorável aos mais antigos) tem promovido uma aproximação pessoal em diferentes áreas em que profissionais de altíssimo nível se dispõem a falar com estudantes, expor, demonstrar, etc., e que expressa um valioso foco (e amor) mais ao conteúdo e menos ao status e títulos. Essa hierarquia organizacional de elementos, eu aprecio muito, pois mais/menos tempo, mais/menos graduação, etc., são referências secundárias que não deveriam camuflar, mas revelar, em nosso caso, o Aikido. A heterogeneidade é valiosa, quando não usa a diversidade como álibi para diferenças autoritárias, mas realmente disponibiliza um espectro amplo de bases cujo ordenamento (circunstancial) é um otimizador da comunicação e da reciprocidade na evolução edificante.

14) Muito obrigado, Ricardo sensei. Não tenho palavras para agradecer. Você gostaria de deixar alguma mensagem ou consideração final?

Quero parabenizá-lo por sua paciência em aguardar meu tempo nessa conversa. Isso é o mínimo necessário e que diferencia uma produção científica séria, de uma “industrial”. Sua imersão (não nas intrigas da corte, mas no aprendizado) no Hombu Dojo é um patrimônio inestimável para você e para o Aikido nacional e fico feliz em ver seu desconforto em estar quase isolado em sua geração e no contexto do Aikido brasileiro. Um triste retrato disso é que, com seus atuais 25 anos de prática, residindo e praticando a minutos de distância, nunca tenhamos praticado pessoalmente e, quase nunca, sequer estivemos no mesmo tatame. Ou seja, podemos e devemos emancipar o Aikido nacional para além de pequenos “reinos” que só formam um mercado consumidor de “super stars, gerando mais discursos “hierárquicos”, do que aprendizado e desenvolvimento.

Eu não tenho palavras melhores do que as de meu mestre, Y.Yamada Shihan, que sempre diz, aproximadamente: “Eu não espero, nem peço que vocês sejam todos amigos, mas que trabalhem juntos; por si mesmos, por seus alunos, pelo seu sensei e pelo Aikido”. Que eu saiba algo, não faz de quem não sabe (ou pelo menos, não do meu jeito) alguém que está errado, que sem isso tudo mais é falácia e nem é Aikido.

De outro lado, todos se esforçam e a imaginação tende a equacionar todos os dados no “mundo individual/grupal”, emparelhando esforços e experiências. Muito/pouco, forte/fraco, bom/ruim, etc., são realidades diferentes para cada um e, eventualmente, muito díspares.

Pode haver discordância ao dizer o mesmo de forma diferente e concordância ao dizer coisas muito diferentes da mesma forma. Certo e errado são premissas impróprias, especialmente fora do momento e circunstâncias, sempre únicas.

Como se dissolve a dúvida e, mais ainda, como aprendemos com tudo isso? Confronto direto, além tolo (e ilegal, pois poderia implicar em vida e morte) é uma falácia que não supera os limites dos indivíduos e do momento. Um sistema qualificado (como é o Aikido) e com instrução qualificada, pode fazer um maravilhoso trabalho de acesso à arte e da arte em nós. Temos níveis basais, intermediários, avançados e uma vastidão à disposição. Não basta apenas um capitão experiente, ou apenas uma tripulação treinada e, nem mesmo, uma só embarcação.

Segundo uma interpretação minimamente genérica de O-Sensei, nada nem ninguém estará em Aiki isolado e impermeável… Você se encontra num lugar neutro (que nossa história gerou), devido à sua geração, seu esforço próprio e seu focado investimento em aprendizado no Hombu Dojo. Nessa linha de trabalho, você pode contribuir com o amadurecimento do foco das energias investidas, na busca pelo Aikido, especialmente o brasileiro e, fico feliz com mais esse potencial entre nós. Espero ter contemplado seu tempo e de quem se dedicar a essas linhas, de forma edificante. Como sempre diz Yamada Sensei: “nos vemos no tatame”.

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