Entrevista com Yahe Solomon sensei: parte 2

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Essa é a segunda parte da entrevista com Yahe Solomon sensei. Se a primeira parte é focada na sua história, agora as perguntas são mais profundas em relação ao Aikido e sua prática. Poderia ressaltar inúmeros pontos que o Yahe sensei abordou nas respostas, porém, achei interessante um aspecto bem pessoal, os livros que marcaram a trajetória dele. “A História de Fernão Capelo Gaivota” e o “Poder do Mito”, também são livros que foram extremamente significativos para mim. Lembro, quando criança, o momento que descobri na biblioteca de casa, um livro de capa azul que contava a história de uma Gaivota que estava questionando sobre o ato de voar, indo além de seu utilitarismo para ganhar tons e tons de liberdade e sentido de vida. Já Campbell, é, na minha opinião, uma das leituras essenciais para qualquer pessoa que decide trilhar um caminho. É interessante perceber como elementos externos transformam nosso olhar sobre a prática, assim como o treino pode mudar nossa forma de ver o mundo.

Muito obrigado Yahe sensei pela generosidade da entrevista, certeza que suas reflexões irão tocar inúmeros praticantes.

A primeira parte da entrevista encontra-se aqui

Yahe sensei no Hombu Dojo

Acho que amor é a melhor forma de ser responsável. Atualmente, Aikido parece não despertar muito interesse na geração mais nova. Você começou muito novo e continua a amar este caminho: como você faz com que este sentimento alcance mais e mais pessoas?

Eu não tenho uma resposta sólida para esta pergunta, honestamente. Pra começar, não acho que práticas tradicionais precisem ser modificadas para acomodar uma nova geração. Acho que a tradição se sustenta por si mesma, e tem seus próprios valores, o que lhe permite continuar em frente com sua experiência e prática sagradas. Se poucas pessoas compreendem, bem, é uma boa indicação de se tratar de algo sagrado, da maneira que coisas desta natureza sempre foram pouco compreendidas.

Eu ouço muito que os jovens estão menos interessados em Aikido, mas a média de idade de membros do Dojo sempre esteve entre 30 e 50 anos e acima. Mesmo no dojo de Chiba sensei era assim. Aikido necessita de uma abordagem mais intelectual para a vida e para a prática, portanto é razoável que seja assim. Lembro-me que Chiba sensei disse uma ocasião que o pico do poder do Aikido vem na faixa dos 50 anos e como o Aikido continua a se refinar e se desenvolver ao longo de toda uma vida.

Para mim, este sentido de um longo caminho para aprimorar e progredir é um presente realmente especial para as pessoas, em se tratando de uma arte marcial. Mas, mesmo enquanto escrevo estas linhas, percebo que isto vai contra a cultura ocidental moderna, na qual pessoas mais velhas são quase invisíveis e certamente não são valorizadas.

Eu vejo o Aikido seriamente comprometido como processo de treinamento e não de competição, e em completa oposição com a tendência atual meio anti-humanística. Deveríamos nos sentir orgulhosos com relação a isto.

E por falar nisto, quando olhamos as tendências mundiais no Aikido, geralmente estamos falando de indicadores dos “países Ocidentalizados” de uma forma ou de outra. A Europa Oriental está se descobrindo e, vou dizer francamente, Aikido tem uma presença enorme em muitos lugares por lá, o que me leva a concluir que este discurso “Aikido está morrendo” é uma retórica desinformada, e mesmo altamente enganosa. Mudando sim, morrendo não. Não mesmo. Lembro-me de que quando viajei para a Bulgária para ensinar, em 2019, ao passar pela alfândega eu mencionei que eu era um Professor de Aikido esperando aquela expressão vaga ou curiosa à qual estou acostumado, mas em vez disso o funcionário disse: “Oh, você ensina Aikido” e pude sentir que ficou claro para o público em geral que era um empreendimento e uma prática altamente considerada, de uma forma que eu nunca havia visto antes.

Ensinar lá e ver como todas as pessoas (e havia bastante jovens) se sentiam sobre o Aikido e como o compreendiam no corpo e no espírito foi um evento que abriu meus olhos. Eles têm algo na cultura que lhes permite realmente apreender o valor imediatamente. Eu não sei exatamente o que é, mas é algo que tem a ver com o modo como eles geralmente fazem as coisas ainda hoje, e que se ajusta muito bem ao Aikido. Tivemos 80 ou 90 pessoas no seminário e meu anfitrião Plamen Yoyroukov se desculpou por ser um evento bem pequeno.

E por falar nisto, Plamen teve uma contribuição instrumental para a implantação do programa de bacharelado em Aikido na Bulgária. Inclusive, algumas poucas turmas já se graduaram. Para mim este é um avanço enorme para legitimar o Aikido. Há uma diferença entre, por exemplo, alguém com uma compreensão espiritual e alguém com um diploma de estudos teológicos. Vejo isto de uma forma similar.

Em última análise, o que o Aikido precisa para avançar é se manter organizado ao redor do valor humano da prática. Pela minha concepção o Aikido é exatamente a Medicina que a sociedade moderna precisa dada sua tendência ao isolamento das pessoas, possivelmente o maior fator anti-humanístico no planeta. Todos sabem disto, embora não entendam. Aikido resolve esta situação maravilhosamente permanecendo como uma declaração de como as pessoas realmente são.

Por assim dizer, está tudo aí e se cada um de nós puder criar o mundo em que vivemos, e eu acredito que podemos em um sentido mais amplo, então, especialmente como professores, precisamos acordar diariamente, ficar em pé com orgulho de podermos servir aos nossos companheiros humanos ao longo de um percurso de vida tão afirmativo. Afinal de contas, o que está em seu coração cria o seu mundo e neste sentido cada um de nós somos muito mais poderosos até do que podemos imaginar.

Verdade, eu entendo que muito do discurso sobre Aikido e sua circunstância vem de um ponto de vista Ocidental. Uma coisa que chamou minha atenção na sua resposta foi: nossa missão como instrutores de Aikido e como as instituições deviam investir nestes programas de treinamento de Aikido. Você passou por este processo na forma bem tradicional japonesa, morando no dojo. No entanto, Chiba sensei tinha um programa oficial de treinamento de instrutor, Kenshusei. Como era este sistema? E como seria, para você, um sistema ideal para um programa de treinamento de instrutor?

Bem, o Programa Kenshusei de Chiba sensei continha os elementos básicos de treino que mencionei antes, mas foi concebido em volta de um conjunto de requisitos de horas por semana, junto com uma advertência de tornarmos o programa prioritário naquele período de nossas vidas. Além disso ele tinha subconjuntos dentro do programa para as pessoas, como por exemplo, pessoas um pouco mais velhas e com vidas mais estruturadas. Nestes casos ele exigia um compromisso menor de tempo, basicamente as aulas de Kenshusei e as aulas avançadas que ele dava juntamente com Iaido; para os demais membros da equipe ele exigia em torno de 2 a 3 horas a noite, além da aula da manhã ou do almoço.

Na maioria das vezes os membros mais velhos do Kenshusei davam aulas. Eu inverteria esta situação e colocaria mais os jovens para ensinar. Eles têm uma excitação crescente e precisam realmente explorar e trabalhar a própria arte através do processo de ensinar/auxiliar. Kenshusei mais jovens precisam começar a ensinar aqui e ali logo em vez de mais tarde e eu encorajaria filiais dos dojos nas universidades por esta razão.

Esta é uma prática estabelecida no Hombu Dojo, onde novos Kenshusei/Uchideshi são designados para trabalhos de ensino bem rápido: dois ou três meses depois de se mudarem para o dojo. É o terreno de treinamento próprio que eles precisam desenvolver através da ajuda a terceiros e realmente vejo sabedoria nisto. Portanto, mais oportunidades de ensinar para os jovens são vitais em um programa e certamente ajudariam o crescimento do Aikido.

Quando alguém considera a criação de um programa de treinamento de instrutores deve sempre manter a atenção no resultado: a verdadeira descoberta interior e liberdade na arte, com o ensino e transmissão como algo que acompanha. Isto é básico e o que considero mais fascinante na arte. Uso a palavra “verdadeira” aqui e não necessariamente tenho outra, embora desejasse ter; de qualquer forma, algum tipo de compreensão ou profundo hábito precisa estar presente no corpo para que esta evolução e este caminho, vitalícios, se enraízem e venham à tona progressivamente. Na minha cabeça isto define o que é um professor, em oposição a um simples praticante, como se de repente houvesse uma coisa no centro de tudo que lhe diz por onde seguir a todo instante, como se fosse um mecanismo virtual de auto-apredizagem. Neste ponto você é o guia de um princípio mais profundo e de uma expressão simultânea de Aikido, manifestado e incorporado em você, como você mesmo. Basicamente você é o Aikido e não precisa mais de um professor, todo o contínuo aprendizado vem essencialmente de dentro para fora e não o contrário. Na minha mente este é o alvo.

Agora, como chegar lá é outra história, uma história que provavelmente está sendo escrita enquanto nos falamos, enquanto a cultura da sociedade, as pessoas e os motivos mudam, como provavelmente mudará também o processo. Não consigo evitar de me sentir assim, o que faz com que muito do que eu passei esteja bastante sujeito a interpretações atuais, ajustes e pelo menos algum grau de modificação.

Tendo em vista um programa Kenshusei e projetando este processo de construção sinto que duas coisas são necessárias: “Hon”, raiz, e “Hyaku”, ramo. Por exemplo, ao construir uma casa é necessário ter uma fundação sólida e uma estrutura boa, correta, bem desenhada sobre a qual estabelecer as bases da casa. Mas não podemos nos esquecer que uma vez isto feito, as paredes internas e externas, bem como o telhado e toda a decoração são acréscimos significativos à estabilidade da estrutura.

Por isto não se anime demais dizendo que está fazendo um “treino mais profundo” quando simplesmente caiu na rotina de “profundo só por fora”, ou só na aparência, sem um crescimento simultâneo e contínuo da arte. Neste caso você corre o risco de cair na armadilha de se parecer com o seu professor. As variações desta situação são bastante numerosas e predominantes em volta de organizações de um único líder, e são bastante destrutivas porque matam a criatividade bem como a total transmissão e atividade da arte real. Este único fator é uma das maiores armadilhas por aí. Os dois fatores andam juntos e quanto mais o tempo passa, mais sinto que surgem juntos como uma característica de trabalho da plenitude da expressão humana nas artes marciais.

Quando eu estava com Chiba sensei, as suas formas eram desenhadas primeiramente para atacar o tema “Hon”, Raiz, base, e ele era bastante claro sobre isto e dizia que nós preencheríamos o resto quando partíssemos. O tempo com ele era principalmente um tempo de “crescer para baixo”, como se criando um espaço para alguma coisa eventualmente surgir. Como se pode imaginar, não é exatamente um processo super divertido e parecia funcionar apenas em algumas pessoas suficientemente insanas a ponto de se submeterem a tal “autonegação”, outro de seus termos preferidos. Ele era muito orgulhoso, justificadamente, da sua metodologia visar particularmente pessoas que eram resistentes o suficiente, ou engajadas o suficiente, para lidar com ele… Quaisquer que fossem as razões delas. E eu sempre o admirei pelo seu forte senso de saber exatamente qual era a sua missão.

Mas gerações mudam, e não só um pouco, mudam tanto, a tal ponto, que, mesmo a missão sendo a mesma, a especificidade da missão e a abordagem tem que mudar muito, as vezes bem radicalmente. Parece-me interessante que nenhum de seus antigos alunos tenha duplicado seu processo de forma bem sucedida e produzido professores profissionais de alto calibre como ele produziu. Também me parece interessante que nenhum de nós tenha mantido um contato próximo com ele após partirmos. Talvez estas duas coisas sejam pistas para sabermos como continuar e, a esta altura, uma questão que sinto que vale a pena investigar como algo que pertence à sua pergunta original.

 Por experiência própria sei que todo Aikido autêntico e completo parece brotar como se por acidente aqui e ali no meu dojo, com o Aikido de melhor qualidade aparecendo nas pessoas que são um pouco mais velhas, digamos acima de 40 anos, e que tiveram outras entradas no seu sistema na forma de diferentes professores que me antecederam. Em resumo, no fim das contas eles aderem à minha metodologia de forma consistente, mesmo que nem de longe com o nível de devoção que eu tinha com meu professor em relação ao seu sistema em termos de horas, etc.

Neste sentido, eu podia realmente sentir que eu havia fornecido a eles uma base (Hon) para seus corpos, um sistema em torno do qual se organizar e repentinamente tudo as experiências que eles haviam vivido fazia sentido e emergiam de uma forma muito viva e bonita, e numa intensidade que eu podia dizer “é, eles conseguiram, eles representam o Aikido”, e nada mais há a dizer.

Se eu refletir retrospectivamente sobre o Dojo de Chiba sensei, eu diria mesmo que este foi um resultado até melhor na forma e na demografia. Pessoas comuns não mergulhavam na própria arte no seu entorno, pois ele representava um dever tão pesado com seu estilo de professor “meu jeito ou não tem jeito”, que isto tudo era muito contrário ao seu modo de ser. Novamente, sem melhor ou pior, apenas diferente: tempos diferentes, pessoas diferentes e uma missão diferente. Uma que acho que se ajusta melhor ao ponto onde o mundo se encontra hoje, inclusive ao Aikido.

Primeiro de tudo, as ferramentas que obtivemos dele são perfeitas: armas, Zazen, Iaido; a manutenção de todas vale a pena pois parecem agir como uma grande máquina de raio x que de forma decisiva fotografa e nos acorda para a essência desta arte marcial: tomando-se uma distância sábia no tempo o sábio se sente sábio.

Chiba sensei praticando Iaido

As pessoas têm maneiras diferentes de se mexer e experiências diferentes, mas o centro absoluto de tudo é o que eu chamo de “captar e absorver a natureza correta do Kuzushi durante o movimento”. É esta coisa para a qual todas as modalidades nos conduzem de uma forma progressiva e é o centro daquilo em que estamos trabalhando durante a prática. A maioria dos pontos de contato durante a técnica é uma forma de alongamento deste sentido e, neste aspecto, o ponto crítico de todo treinamento que é simplesmente ter um contato e um encontro bom e conectado. A forma propriamente não é tão importante, pois a experiência de treino pode variar e o corpo de cada um é diferente. Porém, obter uma porção máxima, algo essencial, é o veículo de entrega do próprio medicamento que é o Aikido. Algum tipo de termômetro deve surgir naturalmente dentro de nós para nos dar uma pista de como estamos e como seguimos progredindo nesta dimensão essencial. E aí temos uma descrição do Hon dentro do contexto do Hyaku e isso é quase a única coisa que um professor precisa obter e passar adiante.

Dito isso, eu administrei um programa Kenshusei em New Haven por algum tempo e fazia basicamente o mesmo tipo de treinamento que recebi. Funcionou muito bem, até hoje, quando eu os vejo, eles têm um bom nível, sinto-os bem e densos. A maior parte de tudo isso é criar um ambiente que desgasta as pessoas em um certo nível e faz com que percam o que é desnecessário. Portanto, em certo aspecto, o número absoluto de horas em torno da prática da qualidade tem um propósito muito real e, em última análise, algo como isso não pode ser falsificado. Portanto, deve haver um período de vários anos em que você é jovem e dedicado a este processo desgastante que cria profundidade na arte. Sempre que encontro alguém novamente, mesmo anos depois que fez isso, é imediatamente evidente. O número tradicional de três horas diárias (ou mais) parece certo, pois representa algo que é um pouco demais, é assim mesmo que deveria ser.

Em relação à realização da sua missão e ao alinhamento com a mentalidade do mundo atual, sinto que você realmente trabalha nisto. Você tem usado bastante as plataformas digitais para ensinar. Como foi este processo e como você avalia os resultados?

Sim, eu uso bastante as plataformas digitais para ensinar e, para dizer a verdade, não sei exatamente porque, é só uma modalidade que se conecta com a mensagem de uma forma ou de outra.

Eu tenho no meu coração esta sensação profunda e furiosa de que todos os sistemas que eu uso dizem a mesma coisa num suporte entrelaçado das expressões idênticas de cada um. Na minha opinião há MUITA mística confusa e desnecessária neste entorno. O sistema genial que Chiba Sensei deixou é tão excelente porque acerta o centro de todos estes elementos básicos  que estão mudando a forma como nos colocamos nesta terra e nos relacionamos com os outros através de nossos corpos e espíritos. Se posso levar qualquer crédito é por simplesmente ser capaz de apontar onde está frouxo, sempre e sempre, e não muito mais que isto. Nada disto é complicado. É emocionante para mim simplesmente porque Aikido se torna tão agradável quando você começa a perceber isto. Quando tenho uma inspiração para postar alguma coisa, por exemplo, no Patreon ou mídia social, eu tenho uma fé inabalável no meu coração que há pelo menos uma pessoa que necessita exatamente desta mensagem e eu sigo em frente.

Não posso dizer que haja um mecanismo particular de feedback para indicar o que está funcionando, apenas a fé que tenho que, se faz sentido para mim, faz sentido para uma pessoa lá fora. Se eu conseguir tocar esta pessoa meu trabalho foi feito.  É só uma pessoa, sempre uma, e é tudo com que me preocupo. As mensagens viajam desta maneira, através do éter para o coração, e eu realmente confio nisto. Mas eu adoro treinar pessoalmente e mal posso esperar até que o mundo esteja acessível novamente e eu possa continuar viajando, ensinando e tocando mais pessoas. No entanto, até lá eu vou deixar aqui um desafio para você que eu quero que faça e que é muito simples.

Assuma o compromisso de sentar-se e praticar Zazen de 5 a 10 minutos duas vezes por dia, e então pegar um pouco o Bokken, de forma quase casual, e fazer Suburi focando em descobrir o seu centro de gravidade e o peso natural do Bokken, duas coisas que são uma só, e observe como estas duas coisas se associam. Este simples processo vai fazer com que você avance muito quando puder voltar ao tatame e praticar.

Tenho algumas instruções na minha página no Patreon bem como muito material grátis no meu Facebook e, de verdade, com Zazen é muito difícil de errar. Então, aceite este desafio simples e vamos manter o movimento!

Seus textos no Facebook são muito bons, eu realmente espero que você escreva um livro. Por falar nisto, livros tem o poder de nos causar impacto de inúmeras maneiras e bons livros de Aikido são raros. Há algum livro de Aikido que lhe tocou e fez com que refletisse sobre Aikido?

Obrigado pela pergunta. Realmente, é difícil encontrar bons livros de Aikido. O meu primeiro livro, e único enquanto era criança, foi o original do K. Doshu Sensei chamado “Aikido”. Era da minha mãe e eu costumava o folhear freqüentemente; lembro-me de que realmente gostava da expressão no olhar do jovem que aparecia demonstrando os aquecimentos para o punho e meio que dizia a mim mesmo: “ok, ele é bom!”. O jovem das fotos era Chiba sensei, mas só me dei conta disso quando o encontrei!

Livro: Aikido, de Kisshomaru Ueshiba

Logo que cheguei no Hombu Dojo fiquei obcecado tentando encontrar as similaridades nos movimentos de todos os principais professores e fiz muitas anotações depois de cada aula com isto em mente. Eu estudava particularmente a movimentação dos dois diretores K. e M. Ueshiba e os dois livros deles de Aikido, o que foi bastante útil. Os livros deles tinham fotos de Yokota sensei e Mr Kanazawa nas capas fazendo Ukemi para cada um, respectivamente, e embora estivessem além do meu nível de japonês, possuíam muitas boas fotos que auxiliaram meus estudos. Minha intenção era que toque e concepção visual e intelectual trabalhassem juntos, e funcionou de forma excelente naquela época.

Um livro que sinto que me influenciou ainda bem novo chama-se “Jonathan Livingston Seagull” (lançado no Brasil com o título “A História de Fernão Capelo Gaivota”). Eu tive contato com ele aos seis anos, logo depois de começar Aikido. Eu ainda não sabia ler, mas pedia a cada adulto que encontrava que o lesse para mim várias e várias vezes e juro que devo ter chegado a pelo menos 50 leituras, talvez até 100. Alguma coisa na mensagem era um atrativo e fazia sentido para mim. Acho que era esta noção, e prática, de viver por alguma coisa além das quais todos os outros viviam, e como o Divino podia ser abordado através da luta diária com nossas próprias limitações.

Esta Gaivota metafórica tinha o impulso de elevar o que seria equivalente para nós a viver andando e se movimentando, que seria voar como meio de transporte para ele, e transformar este utilitarismo em algo totalmente diferente. Eu vejo Aikido exatamente assim, já que é uma arte marcial. O que o distingue de “marcial em essência” de simplesmente brigar. Portanto, toda a vida é arte. E, uma prática pode ser criada a partir de algo aparentemente mundano. Eu sinto que este livro colocou um diagrama em algum lugar dentro de mim que virou meu arrimo e pelo qual vivo.

Eu mesmo estou trabalhando em um livro no momento, não um livro tipo manual de Aikido, pelos quais não tenho grande apreço, mas uma exploração do meu sentido para a coisa toda: princípios, etc. Veremos.

Atualmente eu tenho apreciado alguns dos trabalhos de Krishnamurti porque sinto que ele trata diretamente das mesmas coisas do Budo, mas não requer nenhuma arte em particular o que é bastante útil para perceber o caminho a frente. Também os trabalhos de Pema Chodron, um Budista Tibetano, chamam minha atenção. Ela é uma maravilhosa tradutora e comunicadora deste tipo de prática. Sinto que é realmente importante disseminar práticas e ideias de uma cultura para a outra, da mesma forma que o Aikido fez nos últimos 50 anos com a nossa sociedade Ocidental. Nossos pressupostos para a maneira como pensamos, nos comportamos e aprendemos são tão fundamentalmente diferentes que tornam a transmissão muito desafiadora.

De um certo modo é suficiente assumirmos que somos todos seres humanos, o que é verdade, mas é correto somente 50% porque, na realidade, a cultura carrega e é o veículo da mensagem. Entendo isso como algo que está diante de todos nós como praticantes, estudantes ou professores. É um processo em andamento nada simples e em que todos estamos envolvidos. Em um certo sentido, somos todos pioneiros nesta caminhada, então não vamos nos esquecer disto.

Por exemplo, na Forma Japonesa Tradicional de fazer as coisas, questões do tipo “por que” não são sequer abordadas ou perguntadas. Todo o processo é encarado como uma engenharia reversa: você simplesmente faz as técnicas e Kata conforme são apresentados e eventualmente você mesmo responde a pergunta “por que”, o que é muito mais poderoso, já que cresce a partir de dentro e está totalmente integrado a quem você é. Este é um processo legal e que é o certo para as artes marciais em um nível profundo se você quer passar valores, porque tanto cria quanto descreve o autêntico processo de autodescoberta.

O problema é que nós ocidentais não fazemos isto em qualquer parte de nossas vidas. Nós temos uma cultura muito “de fora para dentro” e precisamos entender “por que” antes de continuar em frente. Eu reconheço isto e tento pelo menos dar um sentido das maiores implicações apontando os princípios do que estamos fazendo, enquanto estamos fazendo. As pessoas precisam ter uma noção geral da progressão junto com uma visão clara do processo que as conduzirá. Sinto que faço isto tanto para engajar e motivar os estudantes como pelo meu próprio processo de descoberta, para me ajudar a ser um professor e praticante melhor.

No entanto, posso me tornar um tanto arredio quando as pessoas começam a se relacionar usando seus cérebros e eu as quero fora do cérebro e 100% integradas aos seus corpos, até porque esta é a única forma em que seus cérebros autenticamente funcionam. De algum jeito tem que haver um equilíbrio. A qualquer custo, trabalho duro é o que funciona, e muito do que faço é simplesmente inspiração para que continuem.

Passei por uma fase em que li muitos livros do Joseph Campbell, na época em que dirigia o dojo de New Haven. Eu achava, e ainda acho, que ele é o que melhor descreve as coisas em comum das diferentes práticas mitológicas e rituais que as várias culturas carregam, e ele realmente inspirou-me muito para o Aikido. Seu trabalho mais acessível chama-se “The Power of Myth” (lançado no Brasil com o título “O Poder do Mito”) e eu o recomendo. Além deste, há muitos outros livros de sua autoria, mas são um pouco mais acadêmicos e “The Power of Myth” com certeza é por onde começar. Ele é o tipo de pessoa que tem uma mente iluminada, mas de uma perspectiva intelectual, o que é raro. Então você pode sentar-se e harmonizar-se com ele e deixar que alguma coisa através do seu cérebro seja absorvida pelo seu corpo enquanto lê, o que pode ser um tipo de prática legal a seu próprio modo.

Espero que publique seu livro! “A História de Fernão Capelo Gaivota” e muitos dos livros do Campbell tratam do mesmo tema, nossa jornada ou caminho. Eu acho muito interessante que a etimologia da palavra “Quest” é a mesma de “Question”, vem do Latim quaestio: “procurar, inquirir, ir atrás para aprender”. Você sente que trilhando um caminho, um “DO”, um dia teremos resposta para nossos por quês, ou o que realmente importa é questionar e não resolver o problema?

Ok, esta é outra pergunta fantástica e pela qual agradeço. Definitivamente, o mais importante é a pergunta, não é? Você conhece a velha história do estudante de Zen que se aproxima do monge e diz: “Mestre, eu me iluminei e agora posso ver todo o universo claramente.” E o mestre diz: “Oh, continue sentando, talvez suma.”

Acho que anteriormente, quando era mais novo, eu era um pouco idealista a respeito de alcançar uma coisa ou outra. No entanto, eu sinto que com toda esta prática, o que o caminho faz por mim é abrir meus olhos para enxergar as pessoas de um modo diferente, e ver claramente o que é o processo para mim e para os outros.

Por exemplo, na clínica onde trato pacientes o tempo todo eu posso ver conforme as pessoas envelhecem, se elas tem algo nelas que mostra que estão trilhando o caminho que a energia das suas vidas deseja, o que as torna completas [íntegras]. Estas são de uma turma fácil de recuperar de qualquer doença que apresentem.  Isto mostra que estão honrando a sua energia de vida e seu propósito no mundo na maior parte das vezes. Ninguém é perfeito, mas basicamente eles estão na trilha. As faces das pessoas mais velhas ficam muito belas e podemos perceber algo encantador brilhando se elas permaneceram próximas às suas canções originais.

Eu acho que elas ficaram coladas à sua mitologia pessoal, que é consequentemente universal, e que encontraram os desafios que tinham que encontrar na sua vida, e não importa se tomaram consciência disto ou não. Talvez seja até melhor se não perceberam, mas você pode ver toda a verdade em suas faces e na sua temperança. Temas como mito e mesmo religião criam pelo menos marcadores aos quais as pessoas podem se agarrar. De qualquer forma, as energias nos seus próprios corpos e nos seus “eus” as direcionam.

Penso que tive sorte, pois desde muito cedo Nakazono sensei sempre nos disse para jamais desejarmos, ou mesmo aceitarmos, poderes especiais. Uma vez ele nos disse que depois do falecimento de O’Sensei ele obteve alguns poderes especiais, a partir do amor e Espírito de seu professor, mas o agradeceu humildemente e pediu para que ele e os poderes partissem e assim foi. Ele disse que este tipo de coisas sempre cria um déficit se você se envolve e que é melhor não aceitar.

Parece-me que ter um sentido do caminho faz com que se permaneça centrado, com os pés no chão e progredindo em qualquer tipo de arte/vida em que se esteja envolvido. Portanto, me sinto muito agradecido por esta educação precoce. Mesmo enquanto escrevo aqui, toda esta noção de caminho é vital para que nós, professores e estudantes, mantenhamos nossos pés no chão, não importa onde estejamos. A diferença fundamental é simplesmente que há algo perdido e temos menos a fazer conforme avançamos, e este é um bom termômetro para verificar se estamos no caminho certo.

Se tive experiências excepcionais ao longo do caminho? Sim, claro, e tenho certeza de que muitas pessoas também tiveram, mas não importa porque não se trata da progressão na qual todos estamos engajados e não ajuda neste processo; portanto, para mim pessoalmente, não é uma grande coisa realmente.

Com respeito ao caminho específico do Aikido. Não podemos nos esquecer no que exatamente estamos envolvidos. Aikido é uma prática espiritual/humana que cresce desde o início de tais práticas. Suas raízes provavelmente surgiram da antiga Pérsia e os Sufis, e então para a Índia onde enraizou na cultura, e então mudou para Budismo, e então China, e então Japão. Mas tem uma forte verdade e é muito, muito antigo na base. Como um tipo próprio de ciência que se transformou num caminho que era importante para certas pessoas, ou como uma corrente subterrânea da existência humana que de alguma forma se perdeu no mundo moderno.

Seu objetivo no Aikido deve ser tornar-se livre na arte. Isto significa, especificamente, obter a unificação do corpo e mente, para começar. É isto que a prática de Aikido cria apenas como uma base. Neste ponto você pode se considerar um professor, mas não antes disso. Antes disso você pode se considerar um líder; sim, absolutamente qualquer um que esteja a frente de outrem deve ajudar e isto é ótimo, é liderança verdadeira e parte de nosso crescimento mútuo. Mas você ainda não é um professor porque ainda não é livre na arte e não tem o discernimento para saber qual caminho seguir.

O Aikido compartilha o seu conceito central com o Budismo Mahayana, ou “o grande veículo”. O Aikido é o seu próprio veículo de uma maneira bem específica. A chave é não encarar as técnicas de Aikido como um fim em si mesmas, mas como um veículo no qual embarcar para obter compreensão. Compreensão real, compreensão que dá liberdade para criar como você quiser.

Neste aspecto o processo de Ukemi é extremamente importante. Um aspecto que é muito fácil de bagunçar. Primeiro o essencial: exceder-se no ensino de Ukemi é absolutamente mortal para o processo de aprendizado. Ukemi é sobre manter-se receptivo e altamente sensível para permitir que a energia e a intenção de impacto cheguem ao seu corpo e naturalmente crie uma unificação do corpo e da mente ou ao menos uma base para isto. Assim, a expressão Nage se torna fácil e natural.

Quando eu era uchideshi do Chiba sensei ele nunca me falou de técnicas: ele apenas gritava comigo se eu me desconectasse dele ou não acompanhasse seu movimento e, então, não absorvesse o impacto no meu corpo e assim não deixasse que se transferisse através deste. Ele agia exatamente assim com todos os seus uchideshi e Kenshusei. A ideia central era permanecer conectado a ele, centro com centro, e assim permitir que eu processasse organicamente esta informação no meu próprio corpo único, um corpo único que todos temos, um corpo único onde o treinamento da mente e do corpo/mente pode acontecer organicamente.

Se você tem uma ideia muito clara na sua mente de como você vai cair, acaba criando uma barreira ao se tornar demasiado ativo: subitamente você já não está mais receptivo ao encontro, o momento a momento chegando até você e através de você, e neste processo forjando o seu corpo. É um pouco difícil de descrever, mas espero estar suficientemente próximo. De qualquer forma, somos todos praticantes de Aikido e provavelmente temos como nos relacionar com esta situação.

Existem duas formas de estudar Ukemi: tocando nos iniciantes porque eles sempre têm o sentimento correto, e observando os praticantes de alto nível, como os Uchideshi do Hombu Dojo cujo trabalho principal é simplesmente fazer Ukemi para os instrutores. É assim que rapidamente conseguem a unificação corpo mente a partir da qual começam a criar a sua arte. Mesmo que eu não pretenda o mesmo resultado das suas técnicas todo o tempo, trata-se somente de uma preferência; mas, geralmente, eles têm esta unificação corpo mente e percebi e pude sentir isto imediatamente já na primeira vez que estive lá.

Se tudo que descrevi soa um tanto complexo para algo cujo objetivo é um caminho espiritual único, o mesmo que o Yoga, o mesmo que os dançarinos Sufi tem, etc, é apenas porque estou descrevendo os pontos guia ao longo do caminho que conduz ao Aikido. Você deveria ser capaz de sentir minha história, minha bagagem. Esta é minha visão geral de “DO” no que diz respeito à prática de Aikido.

Ukemi é um ponto central da pedagogia do Aikido. No entanto muitos negligenciam este aspecto ou, como acontece com freqüência hoje em dia, transformam em um espetáculo acrobático. Como evitar que o praticante caia nestes extremos?

Esta é uma pergunta fantástica e atinge o próprio coração do que se trata a prática real. Minha resposta geral à sua questão sobre o estilo de Ukemi acrobático e geralmente desconectado ser tão popular seria que as técnicas de Aikido são vistas como tendo um fim em si mesmas, e não como parte de uma metodologia e de um processo de treinamento total. Num nível básico, excesso de interpretação literal sem focar no que realmente está sendo ensinado: profundas metáforas sobre artes marciais que pretendem criar um corpo que pode realmente fazer arte marcial. O treinamento em si é apenas um veículo.

Vamos começar pelo básico que é simplesmente isto: o papel do Ukemi e o papel do Nage são duas aparências do mesmo exato processo, ou seja, você está aprendendo todos os mesmos princípios neste processo de forjamento. Acredite ou não, isto é absolutamente verdadeiro: UKE e NAGE tem energia e sensação idênticas, e você deve se esforçar para identificar isto claramente por você mesmo. A própria totalidade do treino não tem vencedores e perdedores, certo? Quero dizer, é não competitivo, e todos nós sabemos disto, portanto estes dois papéis são simplesmente ângulos e perspectivas para dar acesso àquilo que o Aikido está aí para nos ajudar a incorporar.

Começando com o ângulo não competitivo. É contraproducente resistir a uma técnica e, mais que isso, é a coisa mais tola de todas as coisas tolas a se fazer, considerando a totalidade do que está acontecendo. Lembro-me de uma ocasião no Hombu Dojo durante uma visita de Sugano Sensei, quando tive a sorte de fazer várias práticas com ele. Estávamos conversando depois da aula e ele me disse que sempre fizesse Ukemi para todos de uma forma boa e sensível e nunca resistir para ninguém. Ele me disse que se eu não soubesse como acompanhar algo, eu nunca seria capaz de deter este algo, pela simples razão que eu não estaria acompanhando e não estaria totalmente conectado ao movimento a partir do meu centro, o que faz total sentido.

Vamos levar isto um pouco mais adiante olhando para o elemento físico que está envolvido: a quietude e conectividade absolutas e um estado de imobilidade interna no seu corpo e como isto se desenvolve interativamente com outro corpo humano. Você deve ser capaz de perceber onde quero chegar: isto é o que se desenvolve fazendo Ukemi para todos de uma forma boa, sensível e conectada.

 Se você analisar o caso de, na deixa [ao sinal], fazer uma grande queda chamativa, e comparar com a situação de resistir e se recusar a cair, perceberá que na verdade é a mesma coisa. Basicamente, uma grande barreira foi erguida à energia que se está trabalhando e digerindo e nenhum aprendizado acontece. Acho que este é um bom ponto para iniciar uma discussão sobre todo o tema.

Aikido é uma arte marcial e tem que ter lealdade a ambos os aspectos, marcial e artístico, que devem se combinar em um só, a ponto de o Aikido deixar de existir se ambos não coexistirem. Lembre-se, esta é uma arte “Do” japonesa, como “Sado”, a cerimônia do chá, onde obter uma xícara de chá não é o principal resultado esperado, mas quando se prepara uma xícara de chá muito, muito bem, cria-se um efeito interno no espírito humano. E por espírito humano eu quero dizer toda a humanidade: portanto praticar algo assim é grandioso. E devemos manter o foco no que estamos fazendo.

Nossa área de ação como praticantes de Aikido não é um pote de chá com uma chaleira de água esquentando e todas as ações em volta disto, mas trata-se do tatame do Dojo e distanciamento e contato de corpos humanos agrupados.  A este respeito é sempre importante lembrar que todo contato, todo toque e todo encontro no tatame tem um potencial de vida e morte. O seu uke não é apenas alguém usando um Gi, é alguém que poderia estar carregando uma faca e que ao tocar você poderia causar sua morte, e isto tem que estar lá como se fosse uma mensagem codificada no DNA e no tecido das técnicas de Aikido, e todas as relações que acontecem dentro e através dele.

 De novo, o resultado não é apenas fazer chá por fazer chá, esta não é nossa tela de pintura. Nossa tela é não matar, embora estejamos continuamente entrando em uma posição onde poderíamos matar; mas não o fazemos e é a partir deste ponto que entramos neste caminho.

Chegamos no momento de examinar as dinâmicas físicas e interações que estão acontecendo entre dois corpos. Como mencionei antes, os dois papéis são um só. Vamos começar com a posição de Nage, pois é a mais comentada e a posição da qual as pessoas aparentemente tem maior compreensão. Aikido é uma arte marcial de defesa e, como tal, você não pode permitir ser agarrado ou golpeado por alguém, você deve constantemente girar seus corpos para um posicionamento onde o agressor está vulnerável, desequilibrado e onde você está entrando no “ponto cego” dele, permanecendo em uma boa posição para atingi-lo. Isto é básico.

Portanto, a posição de Ukemi é o oposto. Mova-se de forma que os seus “pontos cegos” estejam desaparecendo constantemente e que seu centro o tempo todo procure se reorientar na direção da linha de centro de seu parceiro, já que esta é a melhor e única maneira de se defender de qualquer contra-ataque.

Nos dois casos os “pontos cegos” desaparecem e as linhas centrais tendem a girar constantemente na direção uma da outra e esta é uma atividade de cooperação no conflito, que parece algo estranho de se dizer, mas, não obstante, atinge o centro da coisa toda. Basicamente, uma técnica pode facilmente se transformar em outra, se o princípio dentro das técnicas estiver correto, se este princípio envolver realinhamento permanente de seu centro na direção do centro de seu oponente e se for sempre possível responder a novos ataques contra você. Todos vocês aqui são praticantes e, portanto, capazes de entender isto.

Como já disse, não gosto de ensinar Ukemi específico para coisa alguma. Apenas o princípio de, mantendo-se conectado, alinhar o meu centro com o seu centro e deixar que seu corpo se envolva como desejar e, a partir daí, desenvolver adequadamente. É o ponto onde a “Não Mente” se instala, como um passivo e imóvel aspecto que aponta de forma certeira para o corpo que permanece, o “Corpo Original”, por assim dizer.

Para você, como o treinamento com armas, elementos externos ao corpo, podem ser uma ferramenta na busca deste “Corpo Original”?

Excelente questão e, adicionalmente, muito relevante para o estado da arte no ponto em que se encontra hoje em dia. Lembro de observar aulas de Iaido logo que cheguei a San Diego. Chiba sensei costumava dizer a alguns de seus estudantes que a “linha” deles não estava clara. Eventualmente ele expandia o conceito para artes do corpo em algum grau usando a expressão “linha de consciência”, mas primeiramente vi esta idéia usada em torno de armas, especificamente no Iaido.

Mesmo sendo um grande professor como ele era as vezes eu achava que podia perder aspectos essenciais porque ele tinha uma fúria crepitante e um gigantesco campo de força que empurrava você para trás e, sob este aspecto, tinha tanta mágica ao redor dele que era fácil você se deixar envolver neste puro poder dramático de tudo isso e perder o que ele estava fazendo.

Provavelmente, a primeira vez que toda esta noção de “clara linha de consciência” realmente me atingiu foi na primeira vez que vi Shibata Sensei. Sua total falta de drama fez com que conseguisse enxergar seus movimentos, e a absoluta falta de elementos extras neles tornava estes movimentos evidentes e inspiracionais. Eventualmente, ao ver o alto nível dos professores do Hombu Dojo esta lição reaparecia de diferentes ângulos.

Estou começando neste ponto como um meio de explicar o sentido de vazio e quietude que reside no corpo humano, “Não-Mente”, que se expressa através da prática de Aikido: como uma mente, incorporada e fisicamente envolvida na prática, sendo o que é. Basicamente, uma prática antiga expressa nesta nova forma física e em um novo caminho.

Uma das primeiras aulas com Chiba Sensei depois que retornei do Japão foi um tipo de aula de armas/Kenshusei que também envolvia Zazen. Eu estava trabalhando com alguém no que quer que fosse que ele havia demonstrando e, em um determinado momento, ele olhou para mim e disse: “Karada No Chikara Ja Naku Te Kimochi No Chicara” e sorriu como se estivesse me revelando um pequeno segredo e eu sabia que era verdade. A tradução aproximada é “Sem força física, com a força da sensação/consciência”. Realmente, a palavra “Kimochi” tem o sentido de sensação como no poder intencional e focado desta sensação na própria arma e nos movimentos que esta faz, e indica que você dá vida à arma através da sua própria sensação/intenção. Quando estou ensinando eu sempre digo a meus alunos que façam com que suas armas desenvolvam um sistema nervoso, e isto é verdadeiro e você deve fazer algo assim e trabalhar intensamente nisto.

Yahe Solomon sensei fazendo Ukemi para o Chiba sensei em San Diego Aikikai

Se todo o treinamento físico é feito no corpo através do sistema nervoso, se o treinamento com armas é feito através de um sistema nervoso que deve ser desenvolvido na arma, então se torna claro que o próprio treinamento de armas é simplesmente uma ampliação do processo corporal, já que existe fora do corpo, como uma extensão do corpo e, portanto, é inerentemente mais difícil. Por mais difícil, quero dizer que requer mais esforço num nível mente/sensação/consciência do que simplesmente ser atlético, por exemplo. Está na natureza do bom treinamento marcial ser difícil, requerer um intenso esforço com a própria sensação/consciência mesmo se tratando de um ato bastante mundano. Levar esta intenção até a arma representa a ampliação de todo um processo na direção da trifeta que é a Unidade Corpo/Mente/Arma. É da natureza desta ampliação criar um caminho interno para o sentido total de que estamos falando no centro mesmo do sentido incorporado do Aikido. Isto é a quietude ou ausência de qualquer coisa que possa interferir na pura expressão do Aikido, e isto é visto e percebido como a ação natural de duas forças interagindo no campo da gravidade na forma mais pura possível.

Noventa por cento do que realmente constituía o treinamento de Kenshusei era de armas e não arte do corpo. A intensidade pura e a energia focada de trabalhar com armas é algo que não se pode disfarçar; é algo muito, muito difícil, e é como deve ser. Mesmo agora, para mim também é difícil; mas, embora seja difícil, também é muito prazeroso, e isto é algo que quero compartilhar com as pessoas, elas precisam saber que é algo que eventualmente desperta quando a sua verdadeira natureza começa a se revelar através da arte.

O oposto desta “linha de consciência” ele costumava chamar de “consciência desleixada”, que podia se manifestar na forma de sapatos mal-dispostos, na porta ligeiramente entreaberta, nas folhas das plantas não recolhidas e todo tipo de coisa nas quais ele estava sempre atento e que indicavam que estávamos trabalhando nesta consciência. Consciência é a matéria prima mágica que o Aikido usa para chegar à própria fonte. É uma fonte unificada que perpassa todas as antigas tradições espirituais do Oriente.

Neste ponto precisamos voltar à sua questão sobre Ukemi e, ao fazer isto, tratar de como são as práticas de armas no Aikido atualmente. Estas duas coisas são muito relevantes e intimamente entrelaçadas. Os dois sistemas que geralmente vejo são o de Saito sensei e o de Chiba sensei. Tenho certeza de que há muitos outros, mas estes dois são os principais que já vi e por onde vou começar. A coisa mais relevante sobre eles é que seus fundadores já faleceram e, portanto, não podem mais nos dar orientação. Esta é uma situação que devemos considerar.

Chiba sensei estava sempre elogiando Saito sensei como “o melhor professor”, mas ele também costumava dizer que Saito sensei era massivamente mal interpretado e que as pessoas eram aprisionadas no sistema dele, ficavam paralisadas dentro deste, e o crescimento da arte era interrompido. Ele nunca visava especificamente o sistema de armas neste aspecto, mas eu posso sentir que ele criou um sistema próprio para ir além do sistema de armas verdadeiramente interativo de Saito sensei e desenvolver uma metodologia de treinamento. Ele era sempre claro sobre o que estava fazendo: criar um sistema para que as pessoas descobrissem o próprio corpo, o próprio Aikido, e como o Aikido opera de dentro de você; quanto a isto estou 100% de acordo e respeito a clareza de visão que ele tinha. A arte do Aikido é uma arte completa que as pessoas deviam incorporar e aproveitar, e que não deveriam ficar repetindo um sistema em particular sem um propósito. Lembrem-se: nenhum destes sistemas tem uma finalidade em si próprio ou tem um significado particular em si próprio. São simples veículos para nos levar ao Aikido.

Sua resistência generalizada ao longo da vida de emitir certificados de realização de qualquer tipo no seu sistema de treinamento é digna de nota, pois para ele a arte estava sempre evoluindo e não havia significado além do significado para o indivíduo no seu próprio corpo. Consegue ver a beleza disto?

Atualmente vejo que o sistema de armas de Chiba sensei está se espalhando pelo mundo, o que é absolutamente maravilhoso. Infelizmente eu também vejo que ele também está se tornando muito estático e carecendo da sua essência, como os sistemas de transmissão interativa a partir do qual nasceu originalmente, e isto parece estar piorando, ao invés de melhorar, com o tempo, desafortunadamente.

A única coisa que podemos fazer aqui e agora é retornar à questão central, ou seja, perguntar para quê é o Aikido? Mas perguntar da perspectiva das armas, porque é a mesma coisa neste caso e, num certo sentido, na verdade ainda mais. Acredito que se responder a esta pergunta precisamente você vai ser naturalmente conduzido a um lugar onde podemos verdadeiramente compreender e apreciar estes sistemas de armas e usá-los para aquilo para o quê foram originalmente desenhados, que é enxergá-los como um método progressivamente aprofundado e interativo. Este sistema envolve o Uke e o Nage igualmente, e acerta o coração do que estamos trabalhando com o Aikido e a penetração dele nas raízes e união dos pares de opostos. Cortando e ao mesmo tempo recebendo o corte, sendo poderosos no ataque, mas ao mesmo tempo retendo a habilidade de parar e não cortar a qualquer momento. Isto faz todo sentido, dada a natureza da prática conjunta quando podemos ser ferozes e mesmo assim não nos machucarmos mutuamente. Esta é uma contradição muito importante de vivenciar plenamente durante a prática. Não é uma questão de um ou outro, deve ser completo para funcionar. Nunca, nunca mesmo, se retenha, mas não machuque os outros. Você pode conseguir isto, você pode praticar isto? Esta é minha pergunta e meu desafio para você.

Desafio é uma boa expressão para definir a experiência de viver o DO. Qual é seu desafio dentro do Aikido?  E qual o desafio do Aikido como um sistema, no mundo de hoje?

O maior desafio do Aikido nos dias de hoje é o de permanecer Aikido. Uma boa parte do mundo está indo em uma direção puramente materialista e literalista e Aikido não é isto. Não foi criado para isto, nunca será isto.

Quando estive em uma reserva dos Americanos Nativos, na parte Oeste do estado de Montana, a diferença entre a energia da terra deles e a energia da terra de propriedade do governo era palpável. As terras nativas pareciam transmitir para mim uma mensagem de amor e conforto, já que muitas pessoas haviam passado esta mensagem de Amor e reverência por elas por tanto tempo. Você podia sentir.

A terra do governo podia estar linda, com aparência idêntica, mas não tinha a mesma energia. Nossa cultura consegue tomar alguma coisa tão linda como uma montanha e reduzi-la a lenha, solo, rochas, minerais e começa a parti-la em pedaços e vender as partes. Mas é mais do que isto, é este reducionismo materialista e este ponto de vista que mata tudo.

 Aikido retém a beleza do sistema que é integral e tem uma mensagem profundamente humanista. Tenhamos orgulho disto como professores e estudantes deste caminho e não nos esqueçamos. Porque nos inclinamos perante os outros antes e depois da prática, perante o dojo e nossas espadas? Você percebe a vida e a beleza deste simples ato e como ele é o contrário da inútil utilidade da sociedade moderna? Porque dojos dedicados, que tiveram práticas sinceras ao longo do tempo, assumem uma certa qualidade e brilho que qualquer um reconhece imediatamente ao entrar? Este tipo de coisa. Isto e não alguma outra coisa.

Meus desafios pessoais para expressar e me tornar esta arte, como um exemplo para as pessoas no meu corpo humano simples, como um meio para que elas entendam a arte através do corpo humano simples delas. Encontrar a melhor metodologia de ensino que eu conseguir propor. De forma Soberana, o contato pessoal, pois o contato físico é sempre a melhor forma de transmissão e transferência.

Não tenho como agradecer pelas inumeráveis reflexões que você proporcionou aqui. Você tem alguma consideração final que gostaria de expressar?

Sim, na verdade muitíssimo obrigado pela oportunidade de me conectar com a sua comunidade. Espero ter sido capaz de adicionar algum valor ao nosso caminho. Tenho visto Aikido no Japão e em muitas partes do mundo. Aikido pode ter nascido no Japão e possivelmente lá tenha mais suporte cultural, mas o fogo e a direção do Aikido estão 100% em outros continentes.

Veja o Aikido como uma onda de energia curativa que começou lá e se lançou para o mundo, então estamos na vanguarda. Obviamente, a expressão do Aikido na cultura através da qual cada um de vocês estiver envolvido em entregar será única. Ajustes, e expressões culturais, através de situações pelas quais estiverem passando são naturais e corretos desde que fiquem fiéis às raízes e à mensagem central do Aikido que devem se apresentar em tudo a respeito dele.

Há muitas idéias hoje no Mundo sobre todas as diferentes posições que as pessoas estão adotando, as quais, uma vez levadas a extremos, separam as pessoas umas das outras e se transformam em idéias ruins, quase por definição. Aikido é maravilhoso por que não é uma idéia, é uma prática que unifica pessoas. Duas almas interagindo em uma tal dimensão como a prática, isto fala por si só.

Aikido nasceu em um país que tinha sido recentemente devastado em todos os níveis. O fato de estarmos indo na direção do que só posso ver como um tempo de caos faz a relevância desta prática ainda maior. Você tem o meu respeito por esta razão. Mantenha sua coragem e avise-me se eu puder ajudar de alguma forma.

Canal do Yahe Solomon sensei no Youtube

*Entrevista traduzida por Lielze de Siqueira Marques

Um comentário em “Entrevista com Yahe Solomon sensei: parte 2

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  1. Como uma luva, essa entrevista foi um presente e tanto, foi sincrônico, me afetou bastante. Muitos insights, mas o mais inteligível foi repensar “O poder do mito” como uma das boas ferramentas de base para estruturar meios de navegar entre vários corpos de cultura e, qm sabe, vez ou outra tatear o que soa da pessoa que somos, flagrar de canto de olho a sombra do nosso “corpo original” impressa no mundo, triscar sua presença no meio do movimento, da vida que pulsa. Obrigada aos senseis, linda troca, afetuosa e quente, humana, humanista e, portanto, fecunda de mundos por vir.

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