Entrevista com Yahe Solomon sensei

* The English version of this interview can be found at this link

Poucas pessoas tiveram a experiência de serem uchideshi, alunos residentes, em algum dojo de Aikido. Yahe sensei teve essa experiência não somente em local, mas três. Foi uchideshi do Nakazono sensei, do Chiba sensei e um dos poucos estrangeiros que passou por isso no Hombu Dojo.

Sua história de vida é totalmente conectada com o Aikido. Tendo começado quando criança, diretamente com Mutsuro Nakazono sensei, um dos principais alunos de Morihei Ueshiba. Depois, ele segue no caminho como discípulo do Chiba sensei, conhecido como um dos mais intensos mestres na arte. Na época em que o Chiba sensei estava desenvolvendo seu método de treino de armas, Yahe sensei estava lá.

Não bastasse tudo isso, ele ainda foi aluno interno do Hombu Dojo, tendo recebido instrução direta do Doshu Kisshomaru Ueshiba e dos principais instrutores lá presente na época, como: Kisaburo Osawa, Hiroshi Tada, Seigo Yamaguchi, Sadateru Arikawa e muitos outros.

Poder tê-lo entrevistado foi uma enorme honra. Não tenho como expressar em palavras a generosidade do Yahe sensei em aceitar a entrevista e dispender todo seu tempo discorrendo minuciosamente sobre cada questão. Muito Obrigado! Devido ao enorme conteúdo que tem nessa entrevista, decidi dividir em duas partes. Tenho certeza de que todo praticante do Aikido irá gostar!

Yahe solomon sensei tem uma série de conteúdos disponíveis online com suas instruções, artigos e ensinamentos (clique aqui)

Muito obrigado por aceitar fazer esta entrevista, Yahe sensei. Você tem uma história muita rica dentro do Aikido: começou com Nakazono sensei, foi uchideshi de Chiba sensei e ainda foi um dos raros estrangeiros uchideshi no Hombu Dojo. Como você tomou conhecimento do Aikido?

Eu era um garoto de seis anos. Minhas raízes familiares não eram muito equilibradas e meus pais haviam se divorciado. Minha mãe encontrou Nakazono e estava entre as pessoas que o ajudaram a vir da França para este país (EUA), através do Canadá.

Ele era um homem muito carismático que com muita naturalidade reunia um grande número de pessoas a sua volta. Nós todos vivíamos em uma casa grande ao norte do estado de New York, perto da cidade de Hightown, nos Estados Unidos.

Imediatamente comecei a fazer aulas de Aikido com ele junto com todos os outros. Não havia dojo, então nós praticávamos ao ar livre, rolando na grama no período da primavera e verão.

Duas coisas de que me lembro: eu repetidamente batia a cabeça no ukemi e precisava descobrir como evitar isto, e lembro que ele ficava rindo ao longo da aula toda. Ele tinha uma alegre energia maravilhosa e mesmo as pessoas colidindo em volta ou uma com as outras ele considerava como uma boa parte da prática. Ele realmente amava os seres humanos e se via como um missionário que trazia esta primeira onda de artes, tradições e práticas espirituais asiáticas para os Estados Unidos.

Naqueles tempos tumultuados, quando a sociedade de um modo geral estava em um estado de agitação e as pessoas procuravam por alguma coisa, ele transmitia segurança e era uma forte liderança.

Neste período ele também ensinava Medicina Oriental, meditação e uma abordagem naturalista para a vida, algo que via como uma carência da nossa cultura. Eu acho que ele está certo. Ele também ensinou princípios de Kototama, que é, essencialmente, o estudo de sons antigos, e usá-los nas práticas de meditação e como uma forma de refletir sobre as atividades do dia a dia. Eu assistia muitas de suas palestras desde criança e mesmo assim não posso dizer que entendo completamente, mas posso dizer que é outra excelente metáfora para uma vida naturalista e que nos aponta uma direção mais espiritual e humanista que eu ainda aprecio.

De qualquer forma, eu o conhecia há somente alguns meses quando meu pai cometeu suicídio. Esta é uma destas situações que mudam enormemente a vida, como qualquer um pode imaginar, mas, basicamente, ele foi a pessoa que preencheu o papel de mentor, de guia, para mim e o próprio Aikido se tornou um caminho que englobava tudo isto. Esta é a melhor forma pela qual consigo me expressar.

Na verdade, ele e seu filho K. Nakazono sensei fizeram isto juntos. Ambos salvaram a minha vida na época em que se fez necessário e a maior parte das coisas boas e bem sucedidas que realizei derivam do fato de eles terem assumido este encargo. De certa forma o Aikido tem um significado mais amplo para mim do que o normal e sempre senti o crescimento nele ao longo da minha vida como muito significativo e ancorado nas áreas mais profundas de meu ser. Ao longo dos anos tenho notado que também para a maioria das pessoas o Aikido transforma vidas e também as conecta às áreas mais profundas de si mesmas e de outros. Mas isto é como tudo aconteceu comigo de forma muito orgânica.

Mutsuro Nakazono sensei

Nakazono sensei foi um importante mestre de Aikido, um dos poucos que entendiam o conceito de Kotodama sobre o qual O’sensei falava muito. No entanto, acredito que muitos aikidocas atuais não o conheçam, não conheçam seu Aikido e nem sua pesquisa. Você poderia nos contar mais sobre quem ele era e como ele influenciou o seu caminho?

No que diz respeito a Nakazono Sensei, é um pouco difícil eu objetivamente expressar claramente quem ele era pois eu sempre o vi como a um avô.

Ele era famoso por ter levado o Aikido para a Europa através de desafios aos professores de judô, tendo derrotado a todos. Então eles queriam que ele os treinasse. Uma época muito diferente da atual.

E por falar de uma era diferente, ele mantinha a tradicional ordem japonesa em relação ao posicionamento em que os alunos se sentavam: todos os homens faixas preta / Hakama em uma ponta do tatame, os faixas brancas abaixo deles, depois as mulheres e finalmente as crianças, onde eu ficava.

Era um Dojo old school e eu costumava me desafiar subvertendo a hierarquia e indo treinar com os faixas pretas, apenas para ser lançado com muita força, começar a chorar e voltar para junto das crianças, onde eu havia começado o treino. Mas eu mantive esta rotina tanto quanto pude até completar 12 anos, quando parei de chorar. Em reconhecimento ele me deu um Hakama e como eu sabia que tinha feito por merecer, passei a me sentar com os homens de Hakama a partir daí.

Mesmo em cada seção havia uma estrutura de antiguidade entre os membros e onde nos sentávamos. Era uma estrutura extremamente hierárquica, tradicional.  Anos depois percebi quão única era toda esta situação para a cultura americana. Nem mesmo Chiba sensei tinha uma estrutura tão rigorosa no seu Dojo.

As turmas de Nakazono sensei eram uma mistura eclética. Era verdade que ele estudava os princípios do Kototama extensamente e estes eram a base de todas as artes que ele ensinava, incluindo o Aikido.

Antes de cada aula fazíamos uma versão de prática sonora com movimentos para nos conectarmos com nosso corpo natural e nossos centros rítmicos. Ele era claro sobre o que nós deveríamos estar fazendo: descobrir e atuar a partir deste modo nativo, ou, em suas palavras, “Vontade do Criador da Vida”. De certa forma, um balizamento elevado: Aikido significava para ele algo muito diferente do que provavelmente significava para a maioria dos outros professores. Muito espiritual.

Seu filho, K. Nakazono sensei, parecia incorporar completamente este sentido. Sempre que eu fazia ukemi para ele, sentia como se estivesse deslizando para uma dimensão de onde o tempo, espaço e nós dois tivéssemos sido sugados e algum tipo de evento zero absoluto ocorrera.

Aikido acontecia por si mesmo e eu sempre sentia como se ele nem me tivesse tocado. Eu reconheço que isto talvez acontecesse porque eu tinha esta confiança absoluta no meu professor, mas, não obstante, é uma experiência especial que se destaca e uma experiência que voltei a vivenciar poucas vezes desde então.

K. Nakazono sensei, o filho de M. Nakazono, era contemporâneo de Toyoda sensei e possivelmente não era uma figura tão conhecida no mundo público de Aikido como seu pai, mas, honestamente, tinha a mais profunda compreensão dentro da arte que qualquer outra pessoa que encontrei ou toquei. Eu incluo toda a minha vida e todas as minhas experiências ao dizer isto.

Ele foi um dos últimos uchideshi de O’sensei e cuidava dele viajando regularmente para Iwama, fazendo ukemi para ele e etc. Eu sinto que ele captou a qualidade e o insight essenciais que o mestre tinha. Realmente fui abençoado por ter tido contato com um professor assim tão cedo em minha vida.

Tanto ele quanto o pai gostavam de finalizar muitas de suas técnicas com Koshinage. Lembro-me de muitas aulas que esta foi a única técnica ensinada. Sendo ainda um garoto, na maioria das aulas eu rapidamente atingia o limite do que podia agüentar e ficava imaginando como eu ainda permanecia em pé. Este período de minha prática representou o período de treino físico mais difícil que encontrei em toda a minha carreira. Especialmente nas aulas de K. sensei, acreditem ou não. Portanto, de novo, eu tive sorte!

Katsuharu Nakazono sensei praticando com seu pai, Mutsuro Nakazono sensei

Seu pai, no entanto, tinha uma atmosfera mais divertida a sua volta e freqüentemente nos contava piadas e anedotas divertidas durante as aulas. Neste aspecto ele me lembrava Yamaguchi sensei: um aspecto exterior aparentemente leve ou divertido que mascarava um profundo senso de absoluta certeza da direção que sua arte tomava.

Nakazono sensei também era um mestre da cura e eu freqüentei a escola de Medicina Natural deles, o Kototama Institute. Eu treinei sob a supervisão de ambos, me formei na escola em 1984 e recebi meu certificado que me autorizava a praticar medicina. Eu queria aprender não apenas Aikido, mas também a medicina que eles ensinavam. Eu sentia que era importante que eu incorporasse isto para o mundo de onde eu vinha. Aikido/Medicina completava o necessário para a caminhada de onde eu vinha para onde eu pretendia ir.

O Aikido aqui no Brasil tem uma forte conexão com a Medicina Oriental. Kawai sensei, o introdutor da arte no país, era um famoso acupunturista e os instrutores que ele formou aprenderam tanto Aikido como Medicina Oriental. Como é para você a relação entres estes dois caminhos?

É extremamente interessante que Kawai sensei tenha tido uma influência como esta e como vocês uniram as duas práticas. Eu não fazia idéia disto. Sem dúvida, eu tinha conhecimento do Kawai sensei e de seu trabalho. Um professor muito influente. Na verdade, para mim é muito excitante e fico muito contente de saber disto!

Nakazono sensei também deixava claro que os dois caminhos também eram um só. Ele exigia que todas as novas turmas de seu programa de Acupuntura e Medicina Oriental experimentassem as aulas de Aikido. Pelo menos que eles tentassem, mas eles podiam desistir se não lhes conviesse. A maioria não permanecia por muito tempo.

Todo ano em setembro as aulas ficavam cheias com o começo das aulas do Kototama Institute. Eu nunca esquecerei do olhar horrorizado deles enquanto caíam no tatame e se debatiam com alguma técnica básica e o Nakazono sensei sempre estaria lá, rindo a sua maravilhosa gargalhada.

Quando me formei na sua escola, tirei a melhor nota de toda a história do instituto, um “B”! Sim, um B. Ninguém havia conseguido isto ainda, o que deixa claro o alto padrão que ele mantinha.

Eu achei que eu tinha tido sorte, o que eventualmente ainda acho, mas ele me contou que seu filho, K. Nakazono, lhe disse que isto ocorrera porque eu havia praticado Aikido por tanto tempo com ele.

Ele então explicou que esta era a razão de seu filho ser um curador tão bom; o nível dele de Aikido era muito alto e a diferença entre um curador que tem um alto nível de Aikido e um que não tem era como noite e dia, além de qualquer comparação. Estas foram as suas palavras, e ele disse que normalmente não dizia isto para as pessoas que não faziam Aikido porque não queria desencorajá-las. Mas ele deixou claro que não é a mesma coisa, em absoluto.

Este tipo de pergunta ressoava em meus ouvidos e foi em grande parte a inspiração para minha ida a San Diego para ser aprendiz de Chiba sensei. Para mim era importante dominar a medicina da mesma forma que eles haviam conseguido e para tanto eu sabia que tinha que atingir um Aikido de alto nível como o deles, ou, a qualquer custo, trilhar um caminho semelhante ao deles. Isto guiou o meu caminho. Portanto eu tinha um “foco de laser” para obter aquilo que eu havia visto tão claramente neles, em meio a tantas outras coisas.

Pessoalmente eu sinto que medicina e Aikido combinam muito bem e funcionam de uma maneira tipo Yin/Yang. Quando eu era jovem, na faixa dos 20 e 30 e poucos anos eu lecionava bastante Aikido e praticava menos medicina. Conforme fui envelhecendo a tendência se reverteu.

Eu sinto que a forma de tratar um Paciente é deixá-los vir até você e então meio que ir através de você, também, quando se faz o diagnóstico e tratamento corretos. É difícil explicar exatamente. Tocar um paciente com suas mãos, com seu coração e sua energia, e ao mesmo tempo, e principalmente, deixá-los imperturbados: esta é a chave, já que toda a cura é autocura.

Como o Aikido trata-se basicamente de encontrar e absorver a energia de alguém em você e através de você. A sensação para mim é a mesma, apenas em um contexto diferente. Isto dá às suas mãos e ao sentido táctil um nível mais alto. Faz sentido que os dois caminhem juntos e eu aprecio combinar a utilização da mão em minhas aulas de cura com meus seminários de Aikido. Planejo aumentar esta conexão no futuro.

Embora seja bastante comum, nem todos os praticantes e instrutores lidam bem com a ideia de treinar sob orientação de outro mestre ou de escolher uma nova abordagem para continuar seguindo o caminho. Como foi a decisão de ir treinar com Chiba sensei em San Diego?

Ha. Muito difícil inicialmente!

Quando cheguei a San Diego, senti que tudo o que eu tinha feito anteriormente não tinha quase nenhuma semelhança com o que ele estava ensinando!!

Ele tinha um sistema de treino bem específico. Isto é bem diferente de ser excelente na arte em si, mas o seu sistema era o que ele estava usando para nos treinar e forjar. Eu rapidamente aprendi que eu tinha que esquecer que alguma vez houvera treinado Aikido antes e começar do zero, por assim dizer. Eu podia sentir que isto era obrigatório ou eu não aproveitaria qualquer coisa da experiência.

Mais especificamente, a ênfase em um bom, sensível e conectado ukemi era completamente nova para mim. Eu lembro que uma noite ele gritou comigo durante a aula logo depois que cheguei lá: “Você tem muito potencial, mas não vai jamais entender qualquer coisa disto porque você é arrogante demais!”

Eu vinha fazendo um tipo meio preguiçoso de ukemi para Futari Dori e não permanecia conectado, o que o deixava realmente bravo. Então, quando refletia sobre isto eu entendia que ele estava certo, o ukemi preguiçoso era somente uma forma de expressão de um sentimento mais intenso que eu tinha dentro de mim que era de estar tentando adicionar alguma coisa dele ao que eu já tinha. E decidi ali, naquele momento, abrir mão de tudo e aprender o sistema dele cem por cento. Acredito que esta foi minha primeira grande lição de Shoshin, ou mente de principiante, embora eu não soubesse exatamente como identificá-la na época. Tudo que sabia era que eu tinha que esvaziar meu copo 100%, 99% não seria o suficiente: teria que ser por completo para funcionar.

Você tem razão: é muito difícil mudar de um professor para outro, mas eu acho que é principalmente pela mesma razão com a qual eu também me debati inicialmente.

Yahe sensei e Kazuo Chiba sensei

Você foi para San Diego para ser uchideshi de Chiba sensei? Além disso, imagino que na época que você começou com Chiba sensei ele estava vivenciando um imenso ímpeto criativo, desenvolvendo o próprio sistema. Você poderia descrever em que consistia este sistema?

Sim, eu fui para San Diego para ser seu uchideshi. No entanto, naquela época não havia qualquer processo formal estabelecido para conseguir isto. Mas como era esta a minha intenção eu treinava o tempo todo e ele pode perceber e ficou subentendido. Então, dentro de alguns meses ele me designou como seu uchideshi e me mudei para o dojo me juntando a Juba Nour que já era seu uchideshi há muitos anos.

Sim, esta pergunta sobre o seu sistema de treinamento é excelente. Eu vou responder a partir da perspectiva de uma posição atual, em oposição a como era na época, quando tudo era simplesmente avassalador por ser novo, mas claramente tudo devia ser abraçado.

Chiba sensei estava 100% focado em criar o toque correto e uma compreensão dinâmica de um corpo humano e de como este se movia e executava as técnicas. Todos os seus exercícios eram projetados em torno disto, mas a maioria eram exercícios de treinamento. Ele costumava nos dizer que o que estávamos fazendo não era arte marcial, mas exercícios de condicionamento para a arte marcial. Ele dizia isto com freqüência e agora entendo o significado. Ele queria que obtivéssemos o toque preciso para o entendimento correto, de onde estaríamos livres para desenvolver a nossa própria arte, à nossa maneira; e esta arte teria a qualidade e a dinâmica corretas e essenciais e nunca se desviaria dos princípios marciais, por assim dizer. Não apenas copiá-lo. Ele era um duro mestre de tarefas, mas seu objetivo final era de liberdade na arte para nós e sinto uma profunda gratidão em meu coração por isto.

Do meu ponto de vista, a forma como ele combinava várias artes (Zazen, Iaido e armas) juntas no treinamento e na forja do Aikido era absolutamente genial e nunca fora feito. Ele simplesmente desenvolveu isto sozinho já que ele sabia que isto era necessário.

Ele estava muito envolto numa fase de desenvolvimento de armas e criando o seu próprio sistema quando cheguei lá, mas tinha muito respeito pelo trabalho de Saito sensei e o usava, entre outros trabalhos, como base para começar. No seu escritório eu sempre reparava em livros sobre armas de Saito sensei e como ele os havia marcado com pequenos círculos e flechas destacando pontos que ele queria modificar ou acrescentar ao que Saito sensei fazia.

Ele nos disse que O’sensei era tão livre que chegou ao ponto de não ter definido uma metodologia de treinamento para ensinar armas, e Chiba sensei tinha Saito sensei na mais alta conta por este ter desenvolvido um sistema para transmitir o que O’sensei havia ensinado; sistema em que muito se baseou.

Basicamente, o que ele sempre quis foi uma tensão autêntica no encontro e repostas conectadas e vivas. Por exemplo, no ukemi, para ele, eu tinha que voar para o ataque no exato instante que uma abertura era criada. Ele era muito exigente sobre isto acontecer exatamente no momento e se, por exemplo, eu entrasse antes que ele me tivesse oferecido uma abertura aquele Bokken estava bem na minha garganta, ou se eu rompesse o contato antecipadamente durante uma técnica, criando assim uma abertura secundária, ele me golpearia a sério com o Bokken na lateral das costelas. Juba e eu costumávamos comparar contusões depois da aula, mas vou lhe dizer uma coisa, você não comete o mesmo erro, nem mesmo um erro similar, duas vezes depois de ter levado um golpe destes.

Até por isto você pode perceber o conceito básico do que realmente é ukemi e como ukemi treina os seres humanos a não criar qualquer abertura nos encontros marciais.  Isto é diferente de simplesmente “cair ou acompanhar” que, embora não esteja totalmente errado, carece do conceito central de evitar aberturas.

Yahe sensei sendo uke para o Chiba sensei

No Taijutsu, corpo a corpo, ele também era assim: sempre que você perdesse o contato ele aplicaria um atemi em você, socaria suas, costelas ou algo do tipo. O significado disto você pode ver por si mesmo. Ele fazia isto com toda facilidade porque sempre estava em uma posição segura. Também, ao se manter conectado com o movimento você também permanece a salvo e incorpora o sentido de distância, de timing corretos e se percebe mais alerta. Para mim tudo isto exprime a essência do que é Aikido como uma Arte Marcial de defesa.

Ele costumava nos dizer que a mão não é só uma mão, poderia ser uma garrafa quebrada ou uma faca, e você sempre tem que estar em um espaço seguro mantendo a adversário em desequilíbrio, e era assim que ele criava as situações para nós. Espero que você possa ver a conexão muito orgânica que ele tinha entre as suas artes corpo a corpo e o trabalho com armas no que diz respeito aos princípios profundos de treinamento.

Eu acho que a ênfase que ele colocava no trabalho com armas ampliava e clarificava os princípios marciais do Aikido de uma forma que apenas a “arte corpo a corpo”, frequentemente não consegue. O corpo a corpo pode se tornar desleixado e um tanto vago se não nos lembrarmos de permanecermos atentos e vigilantes para a possibilidade de qualquer outro ataque. Ele criou um sistema claro para a expressão plena do pacote completo do Aikido. Armas traduzem totalmente o corpo a corpo.

É uma mentalidade também, mas ele deixava claro que este estilo de Aikido era Marcial e era como se houvesse uma correção marcial em tudo que simplesmente tinha que estar lá. Zazen era parte do currículo desde o primeiro dia e costumávamos nos sentar pela manhã duas vezes por semana e eventualmente também era incluído nos aulas de armas.

Até nisso ele era único e frequentemente nos dizia que a metodologia de postura e respiração usada nos Templos Japoneses geralmente era muito descuidada para nossos propósitos. Ele era muito específico nas suas instruções para nossas sessões; no nosso Tanden e forçando o ar para fora desta região, já que ele abordava o assunto mais como exercício de Kokyu do que puramente “apenas ficar sentado lá”. Tinha uma qualidade mais ativa nisto. Este Zazen eu sempre associava com a idéia de cavar fundo, tirando a sujeira, encontrar e subir com o material para forjar o Aikido.

Mais tarde ele costumava fazer sessões mais adequadas de Zazen com alguns mestres diferentes: Rev. Hogan do Soto Shu do Japão, no começo da década de 90 Genki Roshii que era de uma seita Rinzai. Ele também recomendava muito que fizéssemos Rohatsu, um intenso Sesshin (sessão intensiva) de oito dias. Esta foi uma experiência transcendental para mim. A intensidade das sessões de longos períodos, juntamente com o conhecimento atribuído a tudo, realmente abria a pessoa para um nível mais profundo a cada vivência tornaram todo o processo importante para mim, mas não foram muito agradáveis no momento!

Iaido era alguma coisa específica e única no sistema dele e ao longo dos anos eu entendi porque ele o enfatizava. É difícil colocar em palavras tudo que a prática de Iaido abarca. A quietude do corpo e da mente, como o movimento, cria o relaxamento adequado para realizar bons Taisabaki, a necessária ramificação da arte. Minha maior lembrança é dele em uma ocasião dizendo como Iaido funcionava para realmente nos conectar ao chão através de um bom trabalho de pés. Mesmo o próprio Iaido foi significativamente modificado para criar o sentido marcial correto do Aikido no corpo humano, no que se referia a ritmo, tempo e execução. Por exemplo, se você olha para o professor de Chiba sensei, Mitsuzuka sensei, ou para as técnicas da All Japan Iaido e Kendo Federation, o que ele ensinava era diferente. A colocação da espada conforme ela sai diretamente do topo da cabeça enquanto corta sem deixar uma brecha. Este é um desvio do padrão japonês que tem uma grande conclusão para cima antes do corte, criando uma abertura secundária no intervalo do seu movimento. Isto cria uma compreensão e dinâmica diferentes que conduzem diretamente ao Aikido como arte marcial.

Cortar vertical, sem nenhuma brecha, constitui uma prática tanto para conectar com seu centro de gravidade quanto para percorrer o eixo de seu corpo, sem deixar nenhuma abertura. Aikido é uma arte marcial de defesa e, portanto, isto compõe a essência da prática e os praticantes deveriam ser capazes de se relacionar tanto física quanto intelectualmente.

Sua ênfase em puxar fortemente e colocar potência na mão esquerda durante a operação simultânea da mão direita no chiburi é única. Isto tem o efeito de identificar a crítica linha central no seu corpo através da qual tudo faz rotação. Isto estabelece contato com o lugar de onde os ritmos emergem naturalmente. Qualquer um pode ver que isto é específico da função holística do Aikido como arte marcial. Com a passagem do tempo eu pude ver e fico impressionado com o fato de ele ter conseguido isto e com a sua visão e seus instintos no processo criativo.

Aikido é a arte e a ciência da navegação da gravidade através de nossos corpos e de controlar o centro de gravidade de outras pessoas: o contato com o chão onde ficamos em pé é absolutamente soberano. Como Iaido é uma prática de solo e o sentido de ritmo e de timing como quando você localiza onde a gravidade pesa no seu próprio corpo durante a execução da técnica é um elemento essencial, assim como na prática de Aikido.

Além disso, é profunda a estrutura geral que é criada no corpo humano pela disciplina singular de sacar e cortar com a espada. “Seu corpo deve se tornar a espada”, ele diria. Em certo sentido, a espada é assimilada pelo seu corpo, mas seu corpo se torna o oposto da espada através do manuseio correto desta e como consequência deste. A disciplina do manuseio correto da espada é o caminho através do qual o “Corpo do Aikido” é alcançado. A natureza de uma espada é ser forte e afiada na borda de corte e flexível e suave no dorso para que possa ceder um pouco e não quebrar. O corpo humano que é criado para a arte marcial de Aikido deveria ser o oposto. Uma tensão forte e condensada do lado de dentro e uma natureza suave e absortiva por fora. Você percebe como estas duas naturezas se unificam através desta simples prática? Neste ponto importa muito pouco se você está usando jo, bokken, tanto ou taijutsu; é tudo o mesmo, já que o corpo se fundiu com a arma.  Os detalhes de Iaido são importantes e devem ser aprendidos e praticados de forma contínua e consciente até que os dois se misturem e a espada desapareça, e o corpo desapareça, e eles se tornem um só. Este é um grande exemplo da materialização do Muto, “a espada da não espada”, através da prática. Muto era uma ideia que ele jogaria de vez em quando, sem explicação, o que é melhor pois conduz nosso pensamento e nossa prática usando um tema geral. lembro que ele disse a Juba e a mim que Iaido era o Budo definitivo e eu não o entendia então, mas agora entendo.

Eu não entendi na época, mas com o passar dos anos eu realmente sinto que esta arte sozinha foi absolutamente fundamental para esmagar uma certa pieguice que pode escoar para dentro da nossa prática. Estas Artes “Assistentes” esclareceram e elevaram a própria prática de Aikido. Mais ainda, tornou-se um sistema bem estabelecido atualmente, algo que ele deixou com seus estudantes como um legado; neste aspecto é incrivelmente valioso.

Intensidade e comprometimento são palavras que sempre parecem estar presentes quando penso em Chiba sensei e seu sistema. Por quanto tempo você viveu no Dojo dele como uchideshi, empenhando-se 24 horas por dia com esta intensidade?

Eu cheguei a San Diego no outono de 84 e fui para o Hombu Dojo no outono de 89. Portanto mais do que alguns poucos meses vivendo em um apartamento conectado ao Dojo. Houve também um período, uns nove meses depois de ter chegado a San Diego, quando Chiba sensei ficou retido no Japão devido a problemas de visto. Juba e eu continuamos vivendo lá.

De alguma forma eu sinto honestamente que este primeiro período não foi tão ruim por uma razão ou outra. Eu era o único ali e ele vinha dar suas aulas, ia para sua casa e me deixava trabalhando por ali, ajudando visitantes ou em uma prática extra com algum dos rapazes mais jovens, principalmente George Lyons e Frank Apodaca. Nas manhãs em que eu não eu trabalhava ou em que não havia aula nós três nos juntávamos e treinávamos o que quer que ele estivera fazendo conosco.

O foco principal desta primeira fase era sobretudo fazer ukemi para ele e eventualmente eu atingi um ponto aceitável, digamos. No entanto quando voltei depois de um período como uchideshi no Hombu Dojo percebi que eu havia me desenvolvido muito. Ele também percebeu e o fator intensidade disparou. Era como o ukemi que eu fazia para ele antes, mas agora eu podia receber as técnicas de forma muito mais profunda e agregava uma conexão e compreensão dele muito maiores.

Este foi a última parte do meu treinamento sob a supervisão dele e foi muito difícil por razões que mesmo hoje não consigo articular, mas vou tentar. Ismail Hasan e eu vivíamos com ele e a família no Dojo e não podíamos ir para casa ou nos afastarmos dele nunca. Ele tinha uma personalidade extremamente volátil e carregava ao seu redor esta intensidade insana que eu sempre conseguia sentir e que em algum ponto começa a desgastar você. Eu diria que eu não estava longe de um colapso nervoso na maior parte do tempo deste último período. Foi bem sinistro.

Ukemi e o resto no tatame eram a parte mais fácil de tudo isto, e num certo sentido representavam uma folga no caos, pode acreditar. Pelo menos a aula se limitava a um treino físico e não, como direi, qualquer tipo de coisa! Com isto eu quero dizer que ele sempre estava engajado em um processo de nos desestabilizar em algum aspecto. Criar uma regra e depois gritar comigo por não estar fazendo alguma coisa completamente diferente da regra, já que ele acabara de mudá-la e me comia vivo por não ler sua mente ou adivinhar suas intenções.

Omote/Ura é uma forma muito comum de comunicação para os japoneses, e ele levava isto ao extremo. Meu trabalho era basicamente ler sua mente (Ura) a partir de qualquer coisa que ele dissesse ou estivesse sendo comunicada na situação (Omote). Tudo no Dojo, ou sobre Aikido, ou, honestamente, sobre qualquer coisa podia se encaixar nesta situação.

Ele costumava falar sobre “Big Aikido” e quando eu era jovem e imaturo achava que ele dizia isto para manter pessoas com poucas habilidades físicas no caminho do Aikido, mas suponho que, na realidade, ele estava falando de Ismael e de mim.

Vou contar uma coisa: na época em que eu fui embora eu consegui ‘pega-lo’, e com isto quero dizer que absolutamente eu podia ler sua mente e suas intenções quaisquer que fossem, e sempre podia entender o que ele realmente queria dizer a partir de qualquer coisa que ele dissesse e notei que mantive esta percepção. Tornou-se quase que um “golpe” físico: eu conseguia chegar à essência da maioria das coisas que ele dizia.

Chiba sensei observando a demonstração de Yahe sensei (uke: Ismail Hassan)

No fim do meu período lá ele circulou pelo Dojo e pegou algumas coisas que havíamos esquecido na preparação de um seminário. Ele colocou Ismail e eu em uma sala, comeu o nosso rabo e nos disse que não tínhamos qualificação para ser uchideshi dele e para irmos embora! Eu quase não consegui disfarçar um sorriso porque sabia que na verdade isto queria dizer “Bom Trabalho Rapazes, Vocês Estão Diplomados” e não fiquei nem um pouco chateado.

Anos mais tarde eu pude realmente ver a sabedoria de todo o processo em mais de uma forma. A primeira é que alto estresse é uma excelente maneira de gerar um aprendizado e comportamento mais profundamente enraizado no corpo; neste caso arte marcial. Provas de fogo existem por uma razão e. não importa quem você seja, são como um carimbo de entrada em qualquer caminho que você esteja buscando. Simplesmente é isso e elas não podem ser evitadas se você realmente quer ganhar perícia, uma individualidade verdadeira e profunda e liberdade na sua busca.

Os militares sabem disso e estão constantemente estressando seus recrutas no sentido de incorporarem o tipo de comportamento que vai possibilitar que eles sobrevivam e vençam uma briga. Como este tipo de coisa vem ocorrendo há muitos e muitos anos, séculos, e todos os militares apenas copiam e aperfeiçoam as táticas um dos outros, parece lógico que este representa um método de aprendizado rápido e profundo de uma variedade de conhecimentos que precisam se apresentar quando a necessidade aparece em ambientes extremamente estressantes, ou seja, significa que realmente tudo está incorporado. Portanto a metodologia é muito sólida se você pretende treinar outros professores, e nunca vou questionar isto. Em relação a isto, mesmo coisas como sentar-se adequadamente, colocar seus sapatos alinhados ou mesmo a própria etiqueta e Reigi representam fatores estressantes que abrem a porta para que ocorra um aprendizado profundo.

O que exatamente está sendo ensinado ou aprendido é assunto totalmente diferente, porque técnica ou a ciência de se tornar tecnicamente proficiente pode ser aprendida, mas a mesma atividade elevada a um estado de arte não pode, tem que ser autodidata ou incorporada a partir de dentro.

Ele sempre se sentia como se estivesse fazendo mineração nos abismos de alguma compreensão de espiritualidade, espiritualidade que neste caso residia nas profundezas da tradição cultural japonesa.  Com certeza, enxergar Ura dentro de Omote, ou ser capaz de reservar um espaço no coração para a existência de pares de opostos é uma das melhores formas de atingir o alvo definitivo de ultrapassar a dualidade bem e mal, as posições profundamente enraizadas, os preconceitos arraigados que nos separam. Por isto que, ao dizer que O Japão tinha uma corrente subterrânea de base espiritual e que a dos Estados Unidos era baseada no materialismo, ele não estava falando que no Japão havia pessoas “melhores” ou “boas” em um grau maior que nos Estados Unidos. Não é isto. Trata-se de algo muito além disto.

Portanto, toda esta metodologia que ele tinha de quebrar o preconceito juntamente com qualquer noção de “isto é isto e eu entendi” estava absolutamente vinculada e direcionada a uma abertura total e rompendo com um sentido de autoconhecimento para ganhar um autoconhecimento real. Isto soa um tanto estranho, mas você tem que confiar nisto como um processo, o qual tinha muito pouca relação com qualquer um de nós lá, ao ponto de sermos todos apenas como atores em um tipo de nascimento da compreensão. Por exemplo, se me perguntassem se eu confiava no Chiba sensei eu responderia que este não é o ponto. Ele estava lá e eu também estava e este foi o encontro. Mas confiei no encontro, de verdade. Mesmo tendo odiado eu confiei, o que pode soar estranho, mas é isso.

Neste meio tempo, você foi um dos poucos uchideshi na história do Hombu Dojo. Como foi esta experiência? Quem eram os outros uchideshi da época e qual mestres tiveram maior impacto em você?

Logo que cheguei o outro uchideshi era o Kuribayashi que era sênior e morava na sala de baixo; Kanazawa vivia no outro lado do hall do quarto andar, onde Shimamoto e eu ficávamos. Mai, tarde o Kato chegou e ficou por aproximadamente seis meses e creio que retornava eventualmente a Nagoya, de onde era. O Inoe veio mais ou menos na mesma época, mas teve que desistir por questões de saúde. O Kondo também ficou uns poucos meses e igualmente teve que ir embora por questões de saúde. Tony Hind, um canadense, também ficou por lá durante meu último ano e Wilko Vriesman, Plamen Youroukov e Atsushi Yamada ficaram conosco por alguns meses. Houve outros que ficavam brevemente, mas não eram uchideshi de longo prazo.

De pé: Takanori Kuribayashi sensei, Plamen Youroukov sensei, Etsuji Horii sensei
Agachados: Yahe Solomon sensei, Takeshi Kanazawa sensei, Tamayuki Shimamoto sensei

Eu não posso começar a falar sobre quem eram estes professores do Hombu sem antes mencionar por que eu estava lá e o que eu tinha esperança de conseguir. Quando saí de San Diego Chiba sensei me disse que havia algo que ele não podia me dar neste processo de arredondar e completar a minha arte e que eu precisaria de muitas fontes para tanto. É verdade, e eu descobri que isto envolvia muito mais que somente o aspecto físico. Por exemplo, suas personalidades e como cada professor ensinava, tudo foi muito útil para que eu descobrisse quem eu era como professor.

Os diretores a época, Doshu Kisshomaru e Dojo Cho Moriteru Ueshiba senseis causaram uma forte impressão em mim pela profunda intenção de dividir a arte, cada um a sua maneira. As aulas do Doshu Kisshomaru tinham uma energia especial, como se gerações de pessoas estivessem embaladas em uma grande aula de história. Você literalmente podia sentir toda a linhagem da arte sendo passada. Eu sempre me sentia profundamente tomado por este ambiente. Aparentemente ele se orientava por um código interno e de alguma forma treinava com cada um no tatame, mesmo que fosse uma turma enorme, tratando a todos igualmente, sem preferências. Tudo isto muito me impressionou e rapidamente ele se tornou meu modelo de humildade e de desejo de compartilhar continuamente.

Fui muito abençoado por passar muito tempo no entorno do atual Doshu Moriteru sensei porque ele me levou aos seus Gashuku de verão, como Otomo, ou no exterior, por algumas vezes. Eu imediatamente me encantei pela forma com que ele fazia as coisas no tatame, criando uma atmosfera generosa, entusiástica, alegre e divertida. Eu o vi e pensei: “OK, assim é como isto deve ser”. Eu ainda me sinto deste jeito. Fazer Aikido não deve ser um tipo de obrigação. Deve ser algo que você desfruta ao fazer e ao ajudar outros a fazer e ele incorpora isto perfeitamente.

Tony Hind sensei (o primeiro sentado a direta), Yahe sensei (ao fundo a esquera), Doshu Kisshomaru (sentado a direita) e Doshu Moriteru Ueshiba (em pé a direita).

A próxima parte é complicada de explicar exatamente, mas tente me acompanhar. Hombu Dojo tem uma porção de professores de Aikido que teoricamente fazem a mesma arte, embora possa parecer totalmente diferente. Muitos deles não compartilhavam da minha versão/visão do que constituía o tipo de Aikido que eu estava buscando, mas é assim que deve ser. Aikido é um mundo grande e há espaço para todos os tipos, e falo isto a sério. Eu tinha me comprometido com este processo de acabamento e, ao fazer isto, eu me propus a fazer/aprender com cada um dos professores em cada uma das aulas que eu freqüentava todos os dias.

Por exemplo, na aula de Watanabe sensei, não se engane, ele era um grande professor e um ser humano maravilhoso que criava um ótimo ambiente. Com certeza eu não adotei o estilo “non-touch” de ukemi que ele tinha, mas eu simplesmente ia em frente e mantinha algum contato, ele me projetava e eu aprendia alguma coisa com ele, como o Kuribayashi me demonstrou.

Ou, por exemplo, se eu estava nas aulas de Seki, Yasuno ou Yokota senseis eu observaria o trabalho de pés, posicionamento ou o que quer que chamasse minha atenção, mergulharia nisto e acabou. A definição específica da arte de outra pessoa é que não é a sua definição e, portanto, é algo que você nunca poderá fazer por completo; aceite isto, vá em frente e experimente. Você absorverá o que lhe for natural, posto que a absorção é inevitável, e começará a crescer.

Toda esta noção de treinamento tradicional japonês atinge o cerne de toda esta coisa de individualismo e a dicotomia de se encontrar depois de se deixar ir. Percebe o que quero dizer?

Com o passar dos anos eu posso sentir que experiência incrível foi e como todas aquelas pequenas lacunas do meu desenvolvimento foram sendo preenchidas naturalmente, apesar do fato de que eu não podia fazer o mesmo Aikido que eles. Em se tratando disto, eu não tenho qualquer favorito, apenas gratidão por todas estas diferentes pessoas, por ter estado nas aulas delas: todas ajudaram para que eu atingisse este ponto em que estou agora e do qual realmente gosto. Este é um sentimento que cresceu com o passar dos anos, mas acho que vale a pena lembrar-se de sair do momento, olhar para trás 10, 20 ou até 30 anos da sua vida para ter uma perspectiva de quando um valor foi realmente apropriado pelo seu processo interior. Em retrospectiva você perceberá.

Yamaguchi sensei definitivamente chamou minha atenção, mas por razões que não estão muito claras para mim, e não sei exatamente o que falar sobre ele. Ele representava um padrão de crescimento na arte e alguma coisa que parecia alcançável em algum nível. Pode parecer estranho, mas assim que o vi achei que ele se movia como Chiba sensei, mas seu “encontro” era talvez mais conciso, ou pelo menos seu taisabaki era um pouco diferente. Ainda assim, o que eu via nele representava uma versão que incorporava totalmente o que eu queria da arte do Aikido. Não necessariamente a aparência, mas os princípios mais profundos que eu 100% desejava. Neste sentido ele, Tada e Arikawa sensei também estavam em uma posição diferenciada. Era a incorporação total personificada e eles eram únicos de acordo com minha visão. Estes professores eram excelentes e eu me sentia no reino dos Deuses quando estava nas aulas deles. Parecia que eles vertiam mágica através das mãos, era muito maneiro.

Provavelmente outra coisa que tinham em comum era a intensa visão de que através do Aikido tinham como alvo um princípio mais profundo. Cada um tinha uma abordagem diferente, mas Aikido não era só Aikido para eles, era como se estivessem sintonizados em alguma coisa mais profunda e que a arte era simplesmente uma expressão deste processo deles. É tão emocionante estar com seres humanos assim! Novamente, eu fui um afortunado de ter recebido ukemi deles e regularmente ter uma percepção de como eles eram praticantes únicos. E certamente todos tinham os mesmos princípios Marciais exatamente alinhados apesar da completa diferença na aparência e na energia.

Com Arikawa sensei eu diria que tive uma sorte extra, pois durante os dois anos e meio que fiquei lá só eu fazia ukemi para ele em suas aulas. Acho que nossas personalidades se ajustavam e eu gostava realmente dele e achava extremamente atraente sua excentricidade juntamente com seu intelectualismo. Suas aulas tinham pelo menos 30 técnicas, portanto envolvia muito trabalho. Mas eu tive muitas oportunidades de sentir seus movimentos, o que era bom porque eu não entendia visualmente o que ele estava fazendo; mas não importava, eu constantemente tentava fazer as coisas exatamente como ele fazia apesar de ter a sensação que era impossível.

Yahe sensei fazendo ukemi para Sadateru Arikawa sensei no Hombu Dojo

Eu vou dizer que de 5 a 10 anos depois que fui embora eu pude realmente começar a sentir os efeitos do trabalho que ele estivera fazendo tantos anos atrás, e tudo continuou a crescer com a passagem do tempo. Ajudou-me na conexão com o princípio marcial que eu buscava no meu próprio corpo/self e que só ele tinha então. Você vê como esta informação viaja ao longo do tempo e como fé e sinceridade são o veículo usado para isto? Não é isto uma coisa belíssima que nós temos e na qual estamos envolvidos: o coração humano vivenciando o processo do caminho?

Tada sensei era maravilhoso e tinha uma visão completa do que o Aikido representava para ele. Você podia perceber que ele estava trabalhando alguma coisa por dentro de tudo que ele estava ensinando. Ele começava suas aulas com exercícios de respiração para gerar Kokyu e então fazia com que nos movêssemos por nossa conta, num tipo de versão para Aikido do exercício de sombra no Boxe, mas 360°. Todas as suas técnicas pareciam Kokyu Nage, pois rapidamente você estava flutuando pelo ar ao tocá-lo, de forma quase instantânea.

Aqui também tem um determinado elemento que só apareceu um dia muitos anos depois que eu parti. É perfeitamente identificável como algo que veio através dele e que ainda está crescendo como um aspecto do meu próprio sentido total. Eu posso realmente sentir. Chiba sensei havia me dito que eu encontraria todos os tipos de Aikido lá e que eu devia tentar absorver tudo sem julgamento, mesmo os tipos que eu não gostasse. Por quê? Como podemos julgar o futuro se ele ainda não chegou, e de forma muito real não estamos na posição de fazê-lo; e examinando esta arte eu diria que este é um pensamento acurado.

Por exemplo, Kisaburo Osawa sensei era um homem amável, maravilhoso e extremamente respeitável, mas no começo eu não tinha seu Aikido em alta conta. Além disto ele parecia exercer uma grande influência em algumas gerações abaixo dele inspirando uma cultura generalizada de ensino, algo que honestamente eu achava um tanto irritante. Exatamente por isto, nas suas aulas eu me esforçava ainda mais para contrabalançar o meu próprio preconceito. Funcionou muito bem e, de novo, anos depois eu pude começar a perceber uma curva de crescimento definida acontecendo dentro de mim, que certamente não estaria lá não fosse pela persistência. Se eu tivesse seguido meus sentimentos iniciais tenho certeza que haveria toda uma dimensão que minha arte não poderia ocupar. Estremeço só de pensar que eu poderia facilmente ter dado um tiro no pé e ter perdido este tesouro.

Que relato valioso, muito obrigada. De fato, fé e sinceridade são formas importantes de acessar este conhecimento. Estou aqui pensando quão incrível é sua trajetória: você viveu com dois discípulos de O’sensei e foi uchideshi do Hombu Dojo. Você sente o peso da responsabilidade deste valioso acesso ao conhecimento que você pode ter na sua jornada?

Outra pergunta muito boa e que pareceria ter uma resposta direta, mas, pelo menos para mim, evoca muitas coisas e merece alguma exploração, levando em conta a minha experiência. Eu levanto este aspecto porque quando jovem alguns de nós, eu inclusive, fizemos alguns sólidos pontos de contato com uma forma muito tradicional de fazer as coisas através de Chiba sensei e do Hombu Dojo.

Chiba sensei era muitas coisas, mas as primeiras a vir à mente são: inovador brilhante e professor magistral. Em relação ao aspecto de se tratar de um treinador hardcore ele era perfeito. Quando olho para trás no tempo sinto como se Deus aparecesse usando Hakama, plantasse seus pés no chão e ajudasse algumas pessoas exatamente da forma que era necessária.

Lembro-me da primeira vez que cheguei em San Diego; nós estávamos na sua mesa da cozinha e ele estava falando com Juba e comigo. Ele provavelmente havia tomado alguns drinks porque aquela face usual demoníaca estava temporariamente inativa e ele nos contava como as coisas são feitas “tradicionalmente, neste país”. Não lembro as suas palavras exatas, mas, em essência, era que você aproveitasse tudo dos seus professores enquanto estivesse com eles, sem julgamentos, focando apenas em pegar 100%. Depois, quando você partisse, as partes que eram naturais para você ficavam e as outras não, e é assim que se faz. Outra coisa que ele mencionava especificamente dizia respeito à personalidade do seu professor, que também deveria ser totalmente aproveitada. E, de uma forma ou de outra, era assim que Juba e eu estávamos envolvidos.

Eu mencionei Deus de Hakama antes, e esta é a parte luminosa, considerando o aspecto prático do Budo, o risco de vida, também como luminoso e muito útil para a humanidade. Ele sempre criava uma situação de estresse extremo ao seu redor e isto é uma coisa amorosa de se fazer já que qualquer coisa aprendida em situações de extremo estresse se fixa mais profundamente e será recordada melhor e mais intrinsecamente no momento que sua vida depender disto. Adicionalmente, este aprendizado dá uma profunda sensação de poder. Considerando o número de estudantes que ele afetou e mais aqueles que seus estudantes afetaram, não tenho dúvidas de que ele salvou muitas vidas. Algumas figurativamente, mas com certeza algumas que foram salvas literalmente, como é da natureza do Budo.

Mas ele também tinha um lado escuro ao redor dele que eventualmente era perceptível quase como um elemento. Lembro que ao entrar na casa dele sempre havia um lugar em um lado da sala de estar que parecia assustador. Em toda casa em que ele morou, toda vez, sempre estava lá. O homem também tinha um elemento dentro dele que podia cortar a sua humanidade e torná-lo extremamente frio: muito assustador, honestamente. Na sua vida ele usou isto para o bem e eu o admiro pelo que conseguiu: fazer luz da escuridão. Isto sempre me pareceu o seu processo de treinamento, mesmo para ele mesmo era verdade.

Também tinha o outro lado; ele sempre estava neste processo e de alguma forma tinha muita dificuldade de encontrar outra roupa para colocar. Embora fosse apropriado para os estudantes, era realmente difícil para muitas pessoas próximas a ele e de uma forma que eu sempre achei censurável. Não me sinto a vontade para apontar o que é certo e o que é errado em termos absolutos. O máximo que posso fazer é apontar esta realidade que eu chamarei de viver a vida como se quer viver.

Esta “prisão existencial” que vivi por tantos anos sendo uchideshi, foi uma escolha que fiz, mas uma coisa muito destrutiva como escolha de se fazer, por assim dizer. Tanto que aos 28 anos quando finalmente deixei San Diego eu me senti institucionalizado, menos capaz de funcionar individualmente. Uma boa parte do começo da minha carreira em Connecticut foi sobre separar quem eu era das idéias dos meus professores. Muito daquele peso que o Chiba sensei carregava estava amarrado ao seu senso de responsabilidade e costumava nos contar sobre a relação dele com o próprio professor, O’sensei, em relação a quem ele real e profundamente tinha um elevado senso de responsabilidade. Muito do sistema e da metodologia brotava deste sentimento profundamente arraigado nele e sobre o qual não tinha vergonha de nos contar. Passe adiante, continue [o processo], é a coisa certa a fazer e eu concordo que é humanamente necessário.

Mas é aqui onde dever, responsabilidade e arte começam a se misturar e a se interpor ao que é realmente importante, pelo menos para mim: amor. Se ele expressava amor de alguma forma vou lhe dizer diretamente que, definitivamente, não é a forma que eu expresso. Eu tenho muito da compreensão dos meus professores no meu corpo, mas minha abordagem é, fundamentalmente, muito, muito diferente. A tal ponto que, nesta altura da minha vida, eu vejo coisas como responsabilidade atuando essencialmente contra a força primária que me empurra na direção do Aikido que é o amor.

Meus primeiros dias ensinando eram mais sobre responsabilidade do que sobre amor e precisei de muito tempo para chegar onde estou e de onde não quero sair, de onde certamente nunca vou sair já que foi muito difícil de conseguir, para dizer o mínimo.

Amo ter uma arte viva que cresce em minhas mãos e nas mãos de outras pessoas quando estou em torno delas: sério, é uma das coisas mais agradáveis, mais gratificantes que fiz. Este sentimento pode não estar em oposição direta com responsabilidade, mas para mim está e é sempre melhor não pensar muito a respeito para evitar que fique no caminho da minha humanidade vertendo sobre o tatame e sobre as pessoas. Provavelmente esta é minha tradução pessoal da palavra responsabilidade nesta altura da minha vida e funciona para mim. Tenho certeza que não respondi exatamente à sua questão, mas isto é o que tenho [a dizer].

*Yahe sensei Patreon

**Entrevista traduzida por Lielze de Siqueira Marques

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