Entrevista Herbert Ran Ichi sensei

Em japonês existe uma palavra, Majime (真面目), que quer dizer: diligente, aplicado, zeloso, atento, assíduo, sério, honesto, decente e sincero. Convenhamos, são inúmeros adjetivos e bem raros de ser encontrados em uma só pessoa. Porém, sempre que ouço essa expressão, Herbert Ran Ichi sensei me vem à cabeça.

Nos conhecemos pessoalmente em 2006, quando fui acompanhar o Seki sensei em Fortaleza. Na época, eu e várias outras pessoas, ficamos hospedados no Dojo, que era aos fundos da casa dele. As instruções sobre a hospedagem foram uma apresentação a ele em si. Fora os habituais avisos – lembrar que estávamos num dojo, sobre a limpeza e respeito −, o final foi inesquecível: “se algo acontecer ao dojo, alguém invadir, seja um ladrão ou um desafio, vocês são os responsáveis. Vocês perderem a luta ou morrerem não é o pior que pode acontecer. Fugir da sua responsabilidade é. Se alguém não estiver pronto para isso, aqui está o endereço do hotel: o Ceará tem praias lindas, treinar não é para você!”. Claro, isso poderia ser apenas alguém falando. Afinal, até papagaio fala. Mas acredite, não é o caso. Herbert sensei é alguém que assume suas responsabilidades e espera o mesmo de quem diz trilhar um caminho. Com o passar dos anos, fui outras vezes treinar no Ceará.

Muito além do seminário, as conversas e aprendizados ao estar junto dele foram para mim de grande valia. Em qualquer caminhada, e no Budo não é diferente, é fundamental encontrarmos pessoas que podem nos nortear, alguém que não apenas tenha qualidades que buscamos, mas que seja capaz de falar dos seus erros e acertos abertamente. Herbert sensei é uma referência para um Aikidoka sério. Para mim, muito além disso, é um grande amigo, um sempai que tenho uma profunda admiração e respeito.

Herbert Ran Ichi, 6° dan, iniciou o Aikido em 1975 com Reishin Kawai shihan, foi durante 8 anos uchi deshi, aluno residente, que mora com o mestre. Recebeu em 1991 a incumbência de divulgar o Aikido no Ceará. Hoje é presidente da União Sulamericana de Aikido, e um dos principais responsáveis pela expansão da arte no Norte e Nordeste do Brasil

Como você iniciou nas artes marciais? Qual arte foi a primeira a praticar e com quem começou?

Eu pratiquei Judo aos 6 anos de idade, no Clube de Regatas Tietê. Infelizmente nos mudamos e eu não pude continuar. Aos 14 anos de idade, vivendo em Santos, voltei a praticar Judo e logo comecei a treinar também o Okinawa Shorin Ryu Karate Do, com Yoshihide Shinzato sensei.

Yoshihide Shinzato sensei (1927-2008), um dos mais importantes mestres de Karate da sua época.

Em 1975 compareci à demonstração de abertura de um dojo de Aikido naquela cidade, com a presença de Kawai sensei. Assistindo aquela demonstração eu senti que havia encontrado a arte e o mestre que eu procurava.

Renshin Kawai shihan, 8° dan (1931-2010). Introdutor do Aikido no Brasil

Foi aí que viu e ouviu falar do Aikido a primeira vez? E como foi seu primeiro treino de Aikido?

Eu havia feito uma aula, levado por um amigo, nesse local que seria inaugurado. Depois de um treino focado no que viria a descobrir depois ser shiho nague e dai nikyo, meu corpo de karateca experimentou um relaxamento diferente, um bem estar que eu nunca havia sentido. Aquilo despertou meu interesse e decidi continuar. Ia começar a treinar com aquele professor, mas quando vi Kawai sensei não havia mais ninguém com quem eu quisesse seguir. Foi um sentimento inconfundível, tinha que ser com ele! E era um sacrifício enorme. Naquele tempo eu só podia treinar em São Paulo nos finais de semana; levava três horas para chegar ao Dojo no sábado à tarde, depois de seis horas de aula no pré-vestibular, ensopado de suor, com fome, mas feliz demais pela oportunidade. Domingo treinava pela manhã, com Kawai sensei, depois cuidava da casa e do Dojo. À tarde treinava novamente com ele e íamos com dona Letícia, esposa do sensei, ver um filme num dos cinemas japoneses que existiam, no bairro da Liberdade. Depois jantávamos num dos restaurantes japoneses locais e eu voltava para casa. Nas férias eu me mudava para o Dojo e vivia como uchi deshi. Isso durou até dezembro de 1977, quando me mudei de vez para o Dojo e permaneci como uchi deshi, em tempo integral, até 1979.

A experiência de ser um uchi deshi é única e muito rica, poderia nos contar um pouco de como era a rotina do dia a dia?

Isso se deu em dois momentos, 1977 – 1979 e 1982 – 1988. No primeiro, o Dojo era no bairro da Previdência. Eu ainda não era aprendiz de acupuntura, então minhas obrigações se resumiam a dois treinos por dia mais um treino diário de pelo menos dois mil suburi com boken. Eu cursava faculdade de química e por um curto período cheguei até a trabalhar fora, numa indústria química. Foi um momento marcado pela visita do nosso Doshu Kishomaru Ueshiba, acompanhado de Yamaguchi sensei e Shibata sensei, então um jovem 4° Dan. Foi incrível pra mim porque, além de motorista, servi de uke para eles. Eu estava no céu.

Já no meu retorno, em 82, sensei logo comprou um terreno em frente à sua casa, com uma casinha abandonada dentro dele, onde hoje está localizada a Academia Central de Aikido. As portas e janelas não fechavam, havia buracos nas telhas, faltava o piso, mas com a ajuda do Dr. Celio Taniguchi ligamos água e luz e eu me mudei para lá. Não havia banho quente e eu dormia num tatame instalado sobre uma maca de madeira. Era tudo muito espartano. Nesse período minha experiência como uchi deshi foi bem particular, porque eu acompanhava Kawai sensei em tudo e isso quer dizer que eu vivia shugyo em tempo integral. Estava proibido de namorar e sem televisão (não havia computador, nem celular), acordava às 4h da manhã para banhos frios, orações e treinos. Fazia longos jejuns, dormia em média quatro horas por noite, nunca mais de cinco ou seis. Ficava o dia todo disponível para o que ele ordenasse, aprendendo shiatsu, acupuntura, moxa, shiatsu, koatsu, seitai jutsu e kanguen jutsu, as técnicas da medicina oriental nas quais Kawai sensei tinha uma capacidade quase divina.

Você foi Uchi deshi em dois períodos, ao todo por 8 anos?

Sim. Em 1978 eu comecei a militar em um grupo clandestino que fazia oposição à ditadura militar. Eu já havia realizado algumas ações esporádicas de oposição ao regime, em Santos, mas na faculdade essa militância se aprofundou. Eu acabei me tornando uma referência, e fiquei receoso que aquilo pudesse prejudicar Kawai sensei, que tinha entre os seus clientes muitos empresários e generais ligados ao regime. Era um risco ao qual não podia expô-lo. Foram quatro anos longe, tempo em que me tornei muito conhecido como dirigente estudantil, na baixada santista, até que a eleição de governadores de oposição em todos os estados brasileiros, em 1982, decretou na prática o fim da ditadura, embora ainda houvesse a luta por eleições diretas para Presidente, as Diretas Já. Naquele momento houve uma grande luta política entre os grupos de oposição, que a mim não interessava mais, já que eu não tinha ambições pessoais naquilo. Fui convidado a disputar as eleições e me candidatar com um grande apoio, mas preferi voltar ao que eu amava mais que tudo, o Aikido e Kawai sensei. Tempos depois o meu irmão se tornou deputado estadual, mas eu nunca mais voltei a militar politicamente.

E o que representou toda essa experiência na sua prática?

Bem, quanto à militância, era uma consequência natural do sentimento de um jovem contra aquele regime de trevas, que jogou o país num atraso do qual ainda não saímos. Mas a luta por poder não me interessava e ainda não interessa.

Já em relação ao Aikido – que eu conheci com Kawai sensei muito jovem ainda, 44 anos de idade – era forte, vigoroso e podia ser fatal, se você não soubesse o que fazer. Eu mesmo tive o braço quebrado três vezes por ele, ao não conseguir acompanhar seu movimento. Nosso Dojo tinha 12 alunos, chegando a 15 num recorde, voltando depois a 12 novamente. Não era fácil aguentar jiyu wazas de 45 minutos, uma hora às vezes, que era o que eu precisava suportar. Depois vieram uns poucos senhores e senhoras japoneses, pessoas idosas com quem o sensei priorizava a saúde e com eles os treinos focavam em alongamento e ukemi.

Isso refletiu em minha prática, sem dúvida. Até hoje eu prefiro o Aikido que pode proteger a vida. Mas entendo que dá para treinar com todos. Em meu Dojo procuro fazer metade de cada treino com duplas de polos opostos e metade com tipos iguais, para que aprendam a lidar com as diferenças e depois ficar mais à vontade com alguém de seu próprio padrão. Assim ninguém se machuca e todos podem crescer, aprendendo juntos.

Como foi essa relação mestre e discípulo, quando se convive tão intensamente dentro e fora do tatame?

Foi sempre uma relação de amor mútuo, mas de obediência da minha parte. Kawai sensei era um exemplar único de japonês com mentalidade do período Meiji. Defendia e representava em alto grau todas as tradições mais difíceis de serem aceitas por ocidentais, o que lhe custou muita incompreensão e deslealdade. Lembro-me de uma cena em que o outro rapaz que era uma espécie de “semi uchi deshi”, porque ficava só uma parte do dia conosco, chorou perguntando por que eu aceitava que o sensei fosse tão duro comigo. Para mim era simples, eu sabia que o mestre dele havia sido muito mais duro com ele do que ele era comigo.

Além disso, citando um sábio eu posso dizer: “um mestre real sempre parece um inimigo e sempre será perigoso. Um mestre falso dará a você consolo, afagará você, buscando a sua aceitação. Seu ensinamento será uma bela canção de ninar. Mas um mestre real é perigoso, porque ele busca a verdade em você. Aproximar-se dele é muito perigoso. Você se move ao seu próprio risco, porque ele não pode permitir que você sonhe e não pode ajudá-lo a sonhar, senão toda a proposta é perdida!”.

Kawai shihan e Herbert sensei

No Budo, e em diversas tradições, existe uma forte relação entre Mestre e discípulo, há até o ditado: “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”. Porém, hoje esse tipo de relação parece que vem diminuindo. Como explicar a importância de se procurar e ter um mestre? E ao mesmo tempo, como evitar que professores se vejam como mestres que devem ser procurados s seguidos?

Sua pergunta já traz a resposta: “quando o discípulo está pronto”. Quando alguém inicia o Budo querendo tornar-se um mestre, já está preso a um desejo egóico que o afasta do Caminho, percebe? Você deve querer ser discípulo e nem pensar em mais nada, só em aprender. Isso o guiará, se você for sincero.

Ser discípulo é o caminho das pedras, das dificuldades sem recompensas. E é aqui que quase todos desistem. É o caminho da devoção, da fidelidade absoluta; um caminho que só é verdadeiro se for livre de expectativas, embora seja feito de esperança.

Para ser discípulo no Budo você tem que aceitar abrir mão de sua vontade e até de sua vida por seu mestre, como um samurai ante o seu senhor. Tem que submeter o seu ego e não tentar negociar as condições dessa submissão, até que toda vaidade, todo sinal de egolatria desapareça, dando lugar a um espírito calmo e resiliente, capaz de enfrentar qualquer perigo, injustiça ou ameaça apoiado unicamente em seu centro, em seu coração. Essa é a decisão que capacita ao discipulado.

É muito difícil que os homens e mulheres modernos aceitem com tranquilidade essa noção de sacrificar a si mesmos, seus desejos e seus prazeres mais pessoais. A própria palavra sacrifício está estigmatizada em nossa sociedade, remete a uma ideia de tortura, de dor, quando etimologicamente fala do sacro ofício, do trabalho sagrado. E que outro trabalho é o do discípulo, senão este?

Encontrar alguém que trilhou esse caminho até o fim e chegou a se tornar um mestre é como ganhar sozinho na loteria, muito raro. Se você encontrou um ser assim, dotado de um silêncio interior inabalável, capaz de olhar para o mundo sem filtrar esse olhar por seus interesses pessoais e sem nunca se afastar do Caminho, não saia de perto dele até que você possa sentir o mesmo acontecendo em você.

Relações baseadas numa ideia de custo-benefício, em perdas e ganhos, jamais fizeram parte do Budo. Quem pergunta quanto tempo precisa treinar para chegar à faixa preta, quando poderá obter um novo Dan, ou quem pode lhe oferecer mais vantagens, é só um negociante, nunca um budoka.

Veja, no Brasil o meu único sempai é o meu querido Ono sensei. Existem pessoas com 7° Dan – superiores a mim e iguais em Dans a ele, portanto – que tiveram a sua primeira aula de Aikido comigo, quando vieram se matricular no Dojo de Kawai sensei, onde eu dava aulas para os iniciantes. Nessa altura Ono sensei era 5° Dan e eu era uchi deshi, 2º Dan. Essas pessoas passaram rapidamente de um mestre a outro, ansiosos por promoções, com esse afã por Dans e títulos que é uma marca da insegurança que alguns budokas sentem. Buscam apoio nessas coisas externas, para obter reconhecimento aos olhos dos outros e se sentirem realizados. Nunca foram discípulos e nunca chegarão a ser mestres. Porque ser Mestre não é ter Dans, alunos, ou o título de Shihan. É ser Mestre de si mesmo e discípulo do Caminho.

Kawai Sensei tinha essa qualidade que desde cedo me encantou: ele não precisava de nenhum reconhecimento externo, embora isso o agradasse bastante, de certa forma. Ele não sentia inveja, era simples e natural ao demonstrar admiração por algo ou alguém que visse como melhor ou maior que ele próprio. A exemplo de certa vez, quando eu perguntava sobre alguns Instrutores do Hombu Dojo e ele me disse que a técnica deles era muito superior à sua, já que ele viera ao Brasil para ensinar, precisando trabalhar com a acupuntura para se manter, mas eles permaneciam praticando Aikido entre si, seis a oito horas por dia. Ou quando falava das capacidades do seu sensei e de outros antigos mestres como inatingíveis. Dizia isso de modo simples, natural, seguro e autoconfiante, como sempre, sem nenhuma necessidade de provar nada sobre seu próprio valor. Eu pensava: “eu quero isso aí, eu quero ser assim, ter essa autoconfiança, essa liberdade, essa capacidade de ser eu mesmo – esse olhar sem medo e sem inveja que ele tem”. Quando ele morreu e eu cheguei em seu velório, Ono sensei levantou-se e segurou os meus ombros dizendo: “Herbert san, que grande ensinamento, que grande ensinamento!” Assim mesmo, repetindo a frase.

Naquele salão cheio de gente, só eu sabia o que ele estava sentindo e só ele sabia o que eu sentia. Nós tivemos um Mestre – e soubemos ser discípulos. Nem o nosso Mestre era perfeito, nem nós fomos perfeitos como discípulos. Mas nem ele, nem nós, jamais abandonamos o Caminho.

E como eram os treinos do Kawai sensei? O que você hoje acha que era os elementos centrais dos ensinamentos dele, técnicos e filosóficos?

Quando o conheci, Kawai sensei era incapaz de apresentar uma didática nos termos comuns. Frequentemente dizia que um bom budoka devia ser observador e conseguir entender um movimento ao primeiro olhar. Nos muitos treinos que fizemos só nós dois, ainda no Dojo da Previdência, ele explicava o movimento uma vez e no máximo três vezes. Depois disso, se eu perguntasse novamente ele apenas dizia “treina, treina, teororia, teororia, prática outra”. Mas, como uke dos meus movimentos, ele procurava me conduzir até onde eu compreendesse o que era necessário. Essa é uma lição que eu guardo até hoje, como ensinar em silêncio, ajudando o movimento do parceiro.

Acredito que o elemento central, para Kawai sensei, sempre foi desenvolver o que em japones se diz “kondjiou”, fibra, ou força de vontade, aquela resiliência nascida da disciplina mais forte, que torna o homem capaz de superar desafios através do shugyo, o sacrifício, o “plus” que se conquista indo além do limite físico, ou mental. Isso é muito japones, muito tradicional no Budo. Ele focava tudo isso no desenvolvimento do saika tanden, o chacra abaixo do umbigo.

Vale lembrar que em sua juventude seu mestre o colocava em shugyos duríssimos, treinando na neve, tomando banho em água congelada, dormindo ao relento e sem comer nada por mais de 20 dias, todo tipo de coisas que os japoneses antigos acreditavam ser necessárias para desenvolver a força do espírito do homem.

Nos treinos normais, após o jiyu waza final, ele começava a falar sobre sua infância, ou eventos do tempo da guerra, ressaltando as qualidades do povo e do soldado japones, os exemplos de estoicismo e coragem, a grandeza do Imperador que foi sozinho ao encontro do General MacArthur, coisas assim. Esses discursos duravam sempre mais de meia hora e tínhamos que observar o mais perfeito seiza, sem esboçar movimento algum. No começo eu tinha muita dificuldade em permanecer sentado e procurava aliviar a circulação me movimentando discretamente para os lados. A bronca era gigante: “brasileiro disciplina não tem – dizia ele. Ocê aguenta precisa”. E lá íamos nós em mais meia hora de broncas e ensinamentos. Eu aprendi a aguentar, mas muitos não ficavam por conta desse tipo de coisas. Houve até uma vez, em 1978, que um descuido desses de nossa parte, levou a uma bronca de quatro horas inteiras dedicadas a mim e a um rapaz argentino que era o outro uchi deshi. Depois disso ele voltou para a Argentina. Então, podemos dizer que o treino físico e filosófico eram um só, na verdade: shugyo à maneira samurai.

Depois, com o passar dos anos, Kawai sensei compreendeu que tinha que ser mais paciente e brando, ou nunca teria muitos alunos. Mas então ele já havia formado uma geração inteira de Instrutores que estão aí até hoje, embora a maioria tenha se desligado dele por não suportar esse modelo de mestre e de ensino.

Somente Ono sensei e eu ficamos até o fim. E, para nós, foi como Ono sensei resumiu maravilhosamente em apenas três palavras: “que grande ensinamento!”

Como foi seu início como professor de Aikido?

Eu ganhei meu shodan em 1977. A partir de 1978, já vivendo no Dojo, comecei a cuidar de quem chegava para as primeiras aulas. Em 1979 assumi também as aulas das manhãs de sábado, na Sociedade Esportiva Palmeiras. No final daquele ano me afastei e passei quatro anos fora. Ao voltar, era só mais um aluno no tatame. Recebendo o nidan, em 83, fui de novo convocado pelo sensei para cuidar de quem chegasse. Durante dois anos e meio eu só treinei com faixas brancas, de manhã e à noite. O treino dos faixas pretas, uma vez por mês, era a única oportunidade que eu tinha de fazer algo diferente de Ikkyo, shiho nague, irimi nague e zagi kokyu ho. Foram dois anos e seis meses e eu odiava aquilo, porque tinha a sensação de que estava sendo punido por Kawai sensei pelo tempo que passei longe. Outras vezes pensava que ele queria que eu desistisse de vez. Via os outros treinando e tinha a impressão de que estava ficando para trás. Ainda assim, tratei aquilo como mais um shugyo e procurei dar o meu melhor. Acabei descobrindo que era bem mais difícil fazer aquelas técnicas com quem não acompanhava os movimentos e às vezes até queria me impedir de realizá-los. Hoje agradeço, porque compreendo que fosse qual fosse o motivo de Kawai sensei, isso me deu uma base incrível. Chegando ao Ceará, ikkyo, irimi e shiho foram fundamentais nos muitos desafios de praticantes de outras artes marciais que enfrentei.

Após o 3° Dan, continuei auxiliando com algumas aulas da manhã – e à tarde, em um grupo de mulheres. Deixei de ser uchi deshi após seis anos, no final de 1988, mas só abri um Dojo próprio em 1990, em São Paulo ainda, no bairro de Santo Amaro. Por ocasião de sua segunda visita, o Nidai Doshu Kishomaru Ueshiba, presenteou-me com o nome do meu Dojo, “Seishin Aikidojo”. Um presente precioso, um tesouro, por seu significado e pelas palavras que ele disse ao me presentear o nome manuscrito num papel, com seu kanji. Em outubro de 91 eu vim para Fortaleza e deixei meu Dojo, com 32 alunos, para o meu kohai, Roberto Maruyama.

A partir de então, foram mais de mil alunos aqui no Ceará, com três 5° Dan, cinco 4° Dan e outros tantos sandan, nidan e shodan em Fortaleza, Juazeiro do Norte, Recife, Salvador, Boa Vista, Porto Velho e agora, Rio Branco. Recebemos treze visitas de shihans do Hombu Dojo. E nossos Instrutores também tem visitado o Hombu.

Há muito mais por vir para as regiões Norte e Nordeste, se Deus quiser, estamos só no começo. Ainda sou um iniciante.

Treino dos instrutores da Federação Cearense de Aikido com Shoji Seki shihan

Você além de ser sensei, formou inúmeros Aikidokas que hoje instruem. O que é ser um sensei de Aikido?

Kawai sensei me mostrou que o único ensinamento que fica gravado na alma é o exemplo. O sensei de Aikido precisa ter fundamentos sólidos daquilo que vai ensinar, como em qualquer profissão. Se a vida te colocou nesse lugar e você sabe que ainda não está qualificado – como eu, quando era nidan e dava aulas no Dojo de Kawai sensei e no Palmeiras – reconheça, treine muito e corra atrás dessa qualificação. Não aja como um burocrata recém-promovido, se acomodando nessa nova posição.

Aikido pode ser um caminho de autoinvestigação, autoconhecimento e autoconsciência. Alguém conduzido por seus desejos e compulsões inconscientes, necessidade de autoafirmação, ciúme, inveja e desejo de controle sobre os outros usará seu lugar de sensei para obter um tipo de poder tirânico sobre os seus alunos, oprimindo e ferindo para afirmar esse falso poder que acredita ter ou merecer.

O caminho do samurai é a morte, diz o Hagakure, e ninguém voltou de lá para nos dizer o que acontece. Todos temos crenças a respeito, mas são apenas crenças. Então eu penso que o que vale é o que você faz aqui e agora. Se você tem real noção da sua mortalidade, sabe que precisa ser alguém comprometido com a verdade em tudo, principalmente com a sua palavra – e na consciência dos seus atos. Vai errar, vai cair, mas não vai desistir dessa autoinvestigação permanente em busca de sua natureza real. Vai dar o seu melhor e viver cada momento sabendo que independente do que haja depois da morte você cumpriu o seu dever e viveu em plenitude.

O sensei de alguém precisa antes ser sensei de si mesmo.

Além de professor, hoje você é presidente da União Sulamericana de Aikido, qual a função dessas instituições? E qual é a sua missão como presidente, e que legado pensa em deixar?

Mantive-me distante das decisões enquanto Kawai sensei vivia. Não faço política com o Aikido, só gosto de treinar e o que ele decidisse, eu acatava e fazia. Após sua morte, eu esperava que Ono sensei ocupasse essa posição por muitos anos ainda. Foi uma surpresa quando coube a mim, por antiguidade, o posto de Presidente da União Sulamericana de Aikido.

Estou Presidente – e uma vez que fui chamado a assumir esse lugar venho tentando fazer ver aos meus companheiros que uma Entidade é um ser jurídico, impessoal, de caráter geral, que deve ser regido por regras claras, através de um Estatuto que produza a transparência necessária para que todos possam saber exatamente quais são seus deveres, seus direitos – e os limites da atuação de cada um.

Percebo que existe uma resistência a isso, não só na União Sulamericana de Aikido, como nos outros grupos do Aikido brasileiro. É muito mais cômodo se valer dos conceitos de hierarquia que remontam aos princípios do Budo. Aplicam-se esses conceitos porque são úteis para garantir a posição de quem deseja continuar a exercer poder. Mas é só essa interpretação formal que é levada adiante, a letra morta do Bushido, não o seu espírito.

Aikido não é o velho Budo, com suas estratégias de poder pessoal concentrado nas mãos de um, ou de poucos. Aikido subverte esse pensamento graças à visão de Ō Sensei, de tornar toda a humanidade uma grande família, no melhor sentido, uns cuidando e apoiando aos outros.

As novas gerações que estão chegando vão virar de cabeça para baixo essa maneira antiga de fazer as coisas. Acredito que valores muito mais reais e mais próximos do espírito do Budo verdadeiro guiarão os novos aikidokas do século XXI. Penso que 99% dos que compõem as nossas Entidades nem mesmo sabem as razões da existência de tantos grupos e nunca participaram das disputas que lhes deram origem. Talvez um dia estejamos todos juntos. Para isso, devemos buscar nosso fortalecimento na prática de um Aikido sério, forte, que também seja uma fonte de paz e de harmonia; apoiar nossos Instrutores com Cursos de Formação que capacitem em teoria e técnica àqueles que serão os representantes profissionais do Aikido; ter um planejamento de envio anual desses Instrutores ao Hombu Dojo, utilizando os recursos da Lei de Incentivo ao Esporte (LIE) e de outros canais de patrocínio que existem para ser explorados. Enfim, tudo o que já fazemos num dos Estados mais pobres do Brasil, o Ceará, dentro da Federação Cearense de Aikido.

Sinceramente, não penso em termos de legado, mas de continuidade – num momento histórico diferente – do trabalho de meu Mestre, Kawai sensei.

Na época do Kawai sensei tinha uma formação de instrutores, que eram os uchi deshi. Hoje em dia não temos mais aqui esse tipo de formação, você acha poderia ser resgatado ou pensa em uma formação de instrutor diferente?

Kawai sensei era mesmo um tipo único de ser humano, daqueles que você conhece um, durante uma vida inteira. Seus uchi deshi tinham alojamento, três refeições por dia e aprendiam shiatsu, acupuntura e Aikido, ganhando pra isso!

Isso se dava assim: cada sessão de acupuntura custava o que seriam hoje mais ou menos 120 reais. Depois das agulhas ele nos chamava e entregava uma toalha que usávamos para fazer o shiatsu naquela pessoa. Ao final do dia contávamos as toalhas e aqueles 20 reais dos 120 reais que ele cobrava, vinham para nós, em dinheiro e na hora, por cada toalha. Eu diria que por ficar o dia todo, ganhava o equivalente a uns dois mil, dois mil e quinhentos reais por mês, nos valores de hoje. Para aprender!!!

Ele também pagou as taxas de exames de Dan para muitos de nós. Para pelo menos um aluno de Ono sensei – cujo nome prefiro não citar, porque esse mesmo depois o acusou de racismo, abandonando também meu sempai e seu sensei – ele também pagou a taxa do exame de 4° Dan. Ele ganhava muito dinheiro com a acupuntura. E a maior parte do que ganhava colocava no desenvolvimento do Aikido – em nosso desenvolvimento.

É difícil para quem vive apenas de Aikido, hoje, poder manter um uchi deshi nesses moldes, ou mesmo nos moldes do Hombu Dojo, com um salário. Penso que devemos criar um modelo de cursos para Instrutores, para capacitar e dar profissionalização aos mesmos. E nesses cursos procurar elevar a qualidade técnica, fornecendo também conhecimento histórico e teórico, para ninguém sair falando bobagens como “Aikido não tem atemi”, embora cada um possa optar por usar ou não o atemi. Também seria a oportunidade para discutir e orientar a melhor maneira de organizar um Dojo em cada caso, dentro da realidade de cada um, como Associação, Instituto, ou Microempresa Individual, fornecendo orientações para quem está iniciando, porque todos sabemos como é difícil começar e manter um Dojo exclusivamente de Aikido.

Pessoalmente, por outro lado, meu sonho continua sendo criar um espaço para acolher pessoas que desejem viver como uchi deshis. Mas isso é outra história, depois eu conto quando chegar a hora.

Hoje, temos inúmeros relatos na queda do interesse dos jovens pelo Aikido. Além disso, muita se fala na queda da popularidade do Aikido em si. Como reverter essa situação?

Muito dessa queda, sejamos honestos, vem da baixa qualidade dos Instrutores. Trata-se simplesmente de uma seleção natural. Alguns, como nas escolas onde estudamos, até sabem a matéria, mas não sabem ensinar. Mas, em geral, o nível está muito baixo. Por isso defendo os cursos de formação para quem deseja se profissionalizar como Instrutor de Aikido. Sempre existiram os períodos sazonais e as artes da moda. Com o surgimento do MMA ficaram evidenciados o Jiu Jitsu e o Muay Thai.

Isso é natural, por que não seria? Todavia, sempre haverá pessoas procurando o Aikido, o Kung Fu, o Karate, o Tae Kwon Do, ou qualquer outra arte marcial com que se identifiquem, porque cada uma tem algo a oferecer, certa egrégora que atende a cada tipo de pessoa. O mais importante, a meu ver, é que ao chegarem num Dojo as pessoas sintam que estão adentrando um espaço onde certos assuntos são tratados com seriedade pelos que ali praticam, como a defesa da vida e os princípios de honestidade, respeito, inclusão, fraternidade e harmonia.

Conheci Dojos de Aikido que tinham “panelinhas” de veteranos. Existe algo mais ridículo e contrário a tudo o que o Aikido representa, algo que mais afaste um iniciante sério e bem intencionado? Não meço a qualidade de um Dojo, ou do Aikido praticado ali, pelo número de alunos. Sei que uma das maneiras mais fáceis de encher um tatame é afrouxar as exigências para obtenção de faixas e Dans. Não me parece que essa deva ser nossa preocupação.

Façamos de nossos Dojos espaços voltados para o crescimento de nossos alunos e eles estarão lá, crescendo ao nosso lado. O mais importante é lembrar que estamos ali para servir, não para sermos servidos.

Hoje estamos vivendo uma pandemia, onde o contato físico é uma das coisas mais evitadas. Consegue imaginar como será a situação do Aikido num futuro próximo?

Essa pandemia de Covid-19 pegou de surpresa toda a sociedade e trouxe reflexos impactantes sobre a economia em diversos setores. Para as academias de Aikido não é diferente. Muitos professores pagam aluguel e tiveram que entregar as chaves por não terem como manter as portas abertas neste momento de crise.

Comparo essa situação ao período da Reforma Meiji, quando foi abolida a classe samurai. De um dia para o outro milhares de homens que não sabiam fazer outra coisa tiveram que se reinventar, muitas vezes, passando a exercer funções antes consideradas inferiores, até mesmo vergonhosas para um samurai.

Os de espírito mais valente fizeram valer naquele momento os ditados antigos que diziam: “Um falcão pode até estar morrendo de fome, mas não tocará num grão sequer”, simbolizando que havia níveis aos quais um samurai não desceria, como o da desonestidade e da criminalidade, para obter seu sustento. E: “Pode ser que o samurai não coma nada, mas utilizará seus palitos de dente”, porque um samurai não procurava culpados por sua situação, nem adotava postura de vítima. Eles mantiveram acesa a chama que chegou até nós, tornaram o Japão uma das maiores economias do mundo e fizeram com que seus nomes fossem conhecidos, bem como as artes e a cultura que amaram.

Essa crise de agora pode estar a fortalecer os que têm a coragem e a determinação dos antigos samurais. Que o exemplo que nos deixaram inspire todos os nobres professores de Aikido e de outras artes marciais que se dedicam com seriedade a construir e manter o Budo em nosso país!

O que é Aikido e Budo para você?

A transição do termo Bujutsu para Budo ocorreu durante a Reforma Meiji, graças ao sensei Jigoro Kano, para preservar e difundir os valores do Bushido, o código ético samurai, após a Reforma e a extinção dessa classe de guerreiros.

Kawai sensei ressaltava a importância fundamental do Budo para a formação moral do Japão. Para ele, o Budo era o grande distintivo do povo japones frente aos demais povos, a razão da excelência de sua educação, cultura e da sua incrível capacidade de combate na guerra.

Para os samurais, Budo, o Caminho do Guerreiro, era o caminho do serviço perfeito ao seu senhor, o Daimyo, ou o Xogum. Para Kawai sensei, Budo era o caminho da perfeição no serviço a Deus. Ele rezava três vezes ao dia, desde as 4h da manhã, fazia longos shugyo, cuidava de seus alunos e pacientes de acupuntura com enorme zelo – e era reto. Possuía uma disciplina inacreditável e não se desviava em nenhum momento do que acreditava ser o seu dever. Ele me mostrou que o Budo é um caminho solitário. É você e sua consciência, você e Deus. Por isso é melhor não mentir para si mesmo. Se mentir, você não cresce.

O’Sensei Morihei Ueshiba relata que no momento de sua iluminação compreendeu que o espírito do Budo é o amor. Certa vez ele afirmou: “Às vezes vou caminhando e penso que estou sendo acompanhado, mas quando olho para trás, vejo que não há ninguém me seguindo”.

Aikido é esse Budo divino doado por ele para todos os povos, para o qual todo praticante sério deveria olhar.

Gostaria de deixar alguma mensagem ou consideração final?

Sim, quero agradecer a oportunidade que você me oferece, de falar a aikidokas de outros grupos e contar um pouco da história de Kawai sensei, tão deturpada por quem foi incapaz de compreender suas atitudes – e também a minha própria.

Masatake Fujita sensei dizia: “Em Aikido, anzen daichi“; a limpeza deve estar em primeiro lugar não só em nosso dogui e nossa técnica, também no coração e na nossa intenção durante o treino. O “misogi”, exaustivamente praticado por Ō sensei, tinha essa finalidade de purificação, assim como os “shugyo” de meu sensei.

Eu sei o quanto Kawai sensei desejava que cada aikidoka brasileiro pudesse encontrar em si mesmo essa autoconfiança que não depende de nada externo, sejam Dans, títulos ou reconhecimento.

Essa pureza que não precisa de máscaras de poder, nem de qualquer imagem falsa de perfeição, vem do coração. E se alimenta somente da busca de sua própria impecabilidade.

Demonstração dos 50 anos de aikido no Brasil

Para saber mais sobre o trabalho do Herbert sensei:

Site da Federação Cearense de Aikido

Instagram do Herbert sensei

18 comentários em “Entrevista Herbert Ran Ichi sensei

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  1. Parabéns a ambos, Leonardo Sensei pelo convite e Herbert Sensei pela ótima entrevista! Forte abraço amigos e “Vida Longa ao Aikido”.

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      1. Entrevista magistral. Tive uma única experiência com Herbert sensei e seus ensinamentos reverberam e apontam caminhos. Obrigado Leo sensei por abrir mais esta porta.

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  2. Parabéns pela excelente entrevista Leonardo Sensei!!! Herbert Sensei é uma referência para todos nós!! Um forte abraço.

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      1. Fui sim, conheci o aikido nas aulas de Herbert Sensei. Da faixa branca até o 3o kyu (onde ainda estou parado nesse kyu… rsrs). Abração.

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