Entrevista com Didier Boyet sensei

foto: Daniel Carvalho

* The English version of this interview can be found at this link

A primeira vez que fui ao Japão, tinha 21 anos, não existia Youtube e nem blogs como esse. As informações que se podiam ter sobre os mestres eram do Aikido Journal, alguns livros e VHS, ou pequenos vídeos de segundos, que demoravam anos para baixar na internet. Mesmo assim, achava que sabia quem era quem no Aikido, vi inúmeras fita cassetes dos “All Japan Demonstration”, tinha noção de quem eram os mestres, seus uke´s e alunos: estava muito enganado! Aliás, adoro perceber quando estou errado.

Minha primeira aula no Hombu, nunca me esquecerei, foi na classe do Yasuno sensei. Como toda a nova experiência, você olha para tudo e absorve cada informação. Estávamos todos alinhados para o início do treino, quando entra um senhor, com antebraços do tamanho de uma coxa e cara de poucos amigos, que fitava o tatame procurando onde se sentar. Percebi a tensão se formar no ar. Ele acha um espaço e, magicamente, um vácuo se abre dentro de um dojo lotado. Naquele dia não treinei com ele, nem lembro de ter reparado na sua prática. Porém, lembro que era usado como Uke do Yasuno sensei frequentemente, o que me chamou a atenção. No dia seguinte, na aula do Masuda sensei, vejo a mesma cena, no instante que ele chegou à tensão e respeito se fizeram presentes. No espaço que se abriu ao redor dele fui e me sentei. Fiz a reverência, num sinal claro de que seríamos parceiros naquele treino. Percebi o riso e alívio em muitos ao redor, mas não compreendia o porquê. Masuda sensei não dava aquecimento, começávamos direto com Suwari Waza Shomen Uchi Irimi Nage, já no primeiro minuto de treino entendi muito bem a reação de todos, agora me restavam 59 minutos para tentar sobreviver. E assim, fui introduzido para quem eu chamo de: “O destruidor de egos, Didier Boyet sensei”.

Se você esteve treinando no Hombu Dojo no período entre 1978 e 2016 e não treinou com ele, tenho minhas dúvidas sobre o quão sério você treinou por lá. Didier Boyet sensei é um dos melhores e mais comprometidos Aikidokas que existem. Uma vez, ouvi de um membro antigo do Hombu Dojo: “Yamashima é o alpha dos treinos da manhã, Didier é o dos treinos da noite”. Mesmo soando como uma brincadeira, isso era uma verdade. Como o Boyet sensei estava diariamente presente nas aulas da noite, todos sabíamos quem estava no topo da cadeia alimentar do tatame naqueles treinos. É claro, como todo jovem você olha para aquele leão mais velho e pensa, hoje eu “chuto a bunda dele”. Há quase vinte anos estou tentando! Nesse período, de tanto ser amassado por ele nos treinos comecei a aprender coisas muito além do que imaginava. Naturalmente, ele virou uma enorme referência no meu Aikido, a ponto de com muito esforço ter conseguido organizar um seminário internacional com ele no Brasil.

Uma das razões desse blog é dar luz e voz para essas joias que existem no Aikido que, infelizmente, poucos conhecem. Por isso, foi uma enorme alegria quando ele aceitou essa entrevista. Sei que ele é avesso aos holofotes, por isso acho ainda mais gratificante ter esse registro dele aqui e com isso fazer com que mais pessoas possam conhecê-lo.

Didier Boyet sensei, eu e Gaute Lambertsen sensei, voltando de algum jantar pós treino.

Antes de encerrar, quero contar uma anedota. Tínhamos terminado um treino no qual passei uma hora sem sequer movê-lo, ao mesmo tempo que eu era jogado feito boneco de pano. Estávamos na escada de incêndio do Hombu, do lado de fora do tatame do terceiro andar (era verão e o único lugar com uma leve brisa para se refrescar entre os treinos era lá). Ele percebe que eu estava com ego destruído, aquele momento que você se questiona se tem talento algum para o Aikido. Num raro ato de gentileza, ele fala:

− Seu Aikido melhorou!

− Só se você quer dizer que meu ukemi está melhor! – respondo.

Ironicamente, eu acho, ele diz:

− Não, você chegou até a tirar meu equilíbrio um pouco.

Nesse instante, minha testosterona sobe, levanto e olho na cara dele e falo:

− Não vejo a hora de um dia te acertar com tudo!

− Nos seus sonhos você pode conseguir, até eu morrer você pode tentar. Agora tem mais uma hora de treino, são sessenta dolorosos minutos para você gastar tentando, vamos?

Claro que eu fui! Como diz o ditado: “se quer ser um leão, ande com leões”. Muito obrigado, Dider Boyet sensei!

* Nessa entrevista, os nomes em japonês aparecem da forma tradicional, primeiro o sobrenome depois o nome.

** As fotos aqui foram tiradas do site do Didier Boyet sensei e do meu arquivo pessoal.

Didier Boyet sensei, 7° dan de Aikido e 6° dan em Iaido. Nasceu em 04 de setembro de 1946 em Lyon, França. Iniciou o Aikido em 1971, dentro do grupo do Nobuyoshi Tamura shihan. Influenciado por Kazuo Chiba shihan, decide ir em 1977 ao Japão para segui-lo. Por quase quarenta anos treina diariamente no Hombu Dojo. Hoje reside em Paris e ministra seminários por todo o mundo.

O senhor pode nos contar um pouco da sua infância? O senhor tinha um hobby ou alguma prática esportiva?

Eu nasci em setembro de 1946, pouco mais de um ano após o final da Segunda Guerra Mundial. Meu pai foi forçado a se inscrever no sistema Nazista de trabalho obrigatório que era aplicável a todo jovem apto nos territórios ocupados pelos alemães. Ele foi libertado e voltou para casa alguns dias antes do fim da guerra e se casou com minha mãe em poucos meses.

Meus pais trabalhavam como operários para uma grande companhia francesa de manufatura de caminhões (Berliet Co.): meu pai como operário regular e minha mãe como funcionária de escritório. Nós vivíamos nos subúrbios da cidade de Lyon, onde a fábrica funcionava. Eu fiz o primário na vizinhança onde vivíamos e aos 12 anos passei a freqüentar a escola no centro de Lyon.

Eu me lembro de minha infância como um período de vida simples: sem TV, sem telefone, mas com muita liberdade. Nós morávamos em um pequeno conjunto de residências pertencente à fábrica que empregava meus pais e as crianças passavam a maior parte do tempo que dispunham ao ar livre, brincando nas áreas abertas próprias dos subúrbios de então.

Basicamente não tínhamos necessidades materiais e simplesmente nos juntávamos, nos misturávamos.

Enquanto eu era criança não era muito interessado em esportes. Meu pai nas suas horas vagas era voluntário no clube de basquete da fábrica e eu entrei no programa de basquete para as crianças. Eu gostava do jogo (eu ainda gosto e acompanho atentamente o campeonato da NBA), mas infelizmente eu era baixo (realmente muito baixo) e logo fui dispensado do time. No segundo grau e na faculdade eu nunca me interessei por outras atividades além dos esportes obrigatórios que constavam do currículo escolar.

Portanto, Aikido foi sua primeira arte marcial? Como e quando o senhor encontrou o Aikido?

No começo dos anos 70, depois de ter cumprido minhas obrigações militares, eu arrumei um emprego em uma pequena cidade chamada Tours, mais ou menos a 200 km ao sul de Paris, no rio Loire. Eu era novo na cidade e, obviamente, não conhecia ninguém lá. Uma noite, poucos dias após minha chegada, entediado, eu decidi ir ao cinema. Infelizmente, sendo novo na cidade e desconhecendo os costumes locais, eu me defrontei com portas fechadas pois as salas não abriam naquele dia (uma terça-feira, como inexplicavelmente me lembro). Lá estava eu, olhando para o cinema fechado e me sentindo um tanto tolo. Aparentemente eu não era o único desinformado já que havia um outro rapaz encarando a fachada do cinema. Nós nos entreolhamos, começamos a conversar e, após descobrirmos que ambos éramos novos na cidade, decidimos entrar em um barzinho para um drink. Enquanto relaxávamos, eu reparei em uma televisão afixada na parede e silenciada. Estava passando um documentário sobre artes marciais japonesas e a parte que eu assistia era exatamente sobre Aikido. Eu nunca tinha ouvido falar de Aikido, não tinha interesse por artes marciais ou pelo Japão, mas, mesmo assim, as imagens que eu estava vendo me impressionavam imensamente. Eu acho que era um filme de Michel Random intitulado “Les Arts Martiaux Du Japon” (Artes Marciais Japonesas) de 1971.

Este filme dura um pouco mais de uma hora e apresenta algumas Artes Marciais, mas eu tive a sorte de estar assistindo neste aparelho de tv exatamente quando estava passando a parte sobre Aikido. As imagens do Kisshomaru Doshu e do Yamaguchi Seigo Sensei na demonstração tiveram um impacto direto em mim. Eu fiquei hipnotizado e no dia seguinte liguei para a Prefeitura para me informar sobre aulas de Aikido na cidade. Ainda hoje acho difícil de acreditar que em 1971 o atendente da prefeitura de uma cidade tão pequena (com uma população de não mais que 150.000 habitantes) soubesse que aulas de Aikido eram ministradas no centro local de esportes! De posse desta informação, eu visitei o centro de esportes onde encontrei a pessoa responsável pelas aulas de Aikido, Mr. Gérald Servat, na época um 2º ou 3º dan  que havia estudado com Nakazono Mutsuro Sensei enquanto este estava vivendo na França e que então estava praticando com Tamura Nobuyoshi Sensei.

Eu comprei um keikogi e me preparei para minha primeira aula. Honestamente, eu não sabia qualquer coisa sobre etiqueta e comportamento adequado no dojo e ao pisar no tatame eu notei que algumas pessoas estavam sentadas num alinhamento e uma única pessoa estava sentada separada e sozinha de frente para as demais. Eu não sei o que passou pela minha cabeça, talvez achando que fosse indelicado deixar aquele homem sentado sozinho, eu decididamente cruzei o tatame e me sentei ao seu lado. Ele não se deu ao trabalho de falar comigo e simplesmente me olhou de relance, fixou o olhar na linha de estudantes e então entendi que era junto deles que eu devia sentar.

Tive muita sorte por ter tido um grande primeiro professor, alguém que tinha compreendido o sentido verdadeiro das artes marciais e que tinha como único objetivo treinar e se aprimorar. Quase imediatamente ele me levou para treinar com Tamura Sensei, que na época viajava nos finais de semana por todo o país para dar seminários. Poucos anos depois, infelizmente, ele teve sua vida encurtada por uma doença fatal.

Tamura Sensei conduzindo um seminário em 1975 em Le Mans, França, no qual Boyet sensei toma ukemi para Tamura Sensei, começando aos 6:40 minutos.

A França foi um dos primeiros países a receber mestres de Aikido e muitos discípulos de O-Sensei estavam ensinando lá. Naquela época o senhor teve contato apenas com Tamura Sensei ou também teve contato com outros instrutores do Hombu Dojo? Como era o treinamento de Tamura Sensei neste período?

Bem, as coisas são muito mais complexas do que parecem. Primeiro de tudo, deve ficar claro de uma vez por todas que O-Sensei ou o Hombu Dojo, jamais enviou alguém de forma auspiciosa para ensinar especificamente Aikido na Europa. Na verdade, todos esses professores pediram e conseguiram do Hombu Dojo um acordo para que seus esforços, embora não recebessem qualquer apoio financeiro, tivessem um apoio moral do Aikido Headquarters no Japão. Muitos destes professores já faleceram, mas o legado deles está firmemente estabelecido em um grande número de praticantes de Aikido por toda a Europa.

O primeiro artista marcial japonês a pôr os pés na França e demonstrar técnicas de Aikido foi Mochizuki Minoru (nascimento no Japão em 1907 – morte na França em 2003) que era um instrutor de judô formado por Kano Jigoro Sensei, o fundador do Judô. Ele também havia treinado Aikido por um ano no Dojo Kobukan de Morihei Ueshiba. Mochizuki Sensei viajou para a França de 1951 a 1953 para ensinar judô. Ele aproveitou a oportunidade para demonstrar um pouco de Aikido, seduzir alguns praticantes de judô e karate, e poucos anos depois seu filho Hiroo estabeleceu o ramo francês da escola Yoseikan Aikido fundada por Minoru em Shizuoka, Japão.

Abe Tadashi (nascimento no Japão em 1926 – morte na França em 1984) foi um estudante de   O-Sensei antes da Segunda Guerra Mundial. Ele se mudou para a França em 1952 para estudar em Paris e viveu lá até 1959. Ele tinha uma relação de parentesco com a família imperial e era tio de Yamada Yoshimitsu. Ele é tido como o primeiro japonês a ensinar Aikido oficialmente no Ocidente. Ele fez amizade com André Nocquet (nascimento na França em 1914 – morte na França em 1999) e o impeliu a viajar para o Japão patrocinando o projeto. Quando Abe Tadashi mudou de volta para o Japão, ele, alegadamente, vendeu uma licença para ensinar Aikido a André Nocquet, um gesto que irritou grandemente o Hombu Dojo e resultou em uma ação legal.

Abe Tadashi ensinou muitos dos aikidocas franceses que, poucos anos depois, deram a Tamura Nobuyoshi Sensei boas vindas à França. Dois outros instrutores japoneses ajudaram no desenvolvimento do Aikido nos anos 60:

Nakazono Mutsuro (nascimento no Japão em 1918 – morte nos EUA em 1994). Viveu na França de 1961 a 1972, até ser deportado após seus malvistos comentários sobre os testes nucleares franceses. Próximo de O-Sensei, uma autoridade em kotodama, acupuntura e medicina chinesa, um expert em Judô e Aikido, ele era muito respeitado no mundo do budo. Ele viajou o mundo da Mongólia ao Vietnam, Índia, França, Reino Unido e Estados Unidos, tendo desempenhado importante papel no desenvolvimento do Aikido na França e na Grã Bretanha.

Murashige Aritomo (nascimento no Japão em 1895 – morte na Bélgica em 1964). Amigo próximo de O-Sensei e um excelente espadachim e budoca, começou a viajar pela Europa em 1962 para ensinar Judô e, ocasionalmente, Aikido. Ele morreu em um acidente de carro. É o pai de Murashige (Mark) Morihiko (1945 – 2013), um estudante se Yamaguchi Seigo Sensei que atuou como assistente de Chiba Sensei na Aikikai de San Diego, e o avô de Murashige Teruaki, que também estudou com Chiba Sensei.

Estes instrutores abriram as portas para dois outros jovens instrutores recém saídos do programa de uchideshi do Doshu Kisshomaru e que foram realocados para a França e encarregaram-se do desenvolvimento do Aikido na Europa.

Noro Masamichi (nascimento no Japão em 1935 – morte na França em 2013). Chegou na França em 1962. Ele havia sido uchideshi no Hombu de 1955 a 1961. Ele procurou se estabelecer como professor de Aikido por toda a Europa, mas sofreu um sério acidente de carro em 1966. Alguns anos depois (oficialmente em 1979), tendo se recuperado, mas com severas seqüelas de seus ferimentos, ele desenvolveu uma versão transformada de Aikido a que ele deu o nome de Kinomichi. Seu filho ainda a ensina em Paris.

Tamura Nobuyoshi (nascimento no Japão em 1933 – morte na França em 2010). Uchideshi no Hombu Dojo em 1953, Tamura Sensei se estabeleceu na França em 1964, pouco depois de se casar. Inicialmente, colaborou com Nakazono Sensei até a partida deste para os EUA, depois com Noro Sensei até o acidente de carro e com outros instrutores de Aikido ativos na França e Europa, tais como Mochizuki Sensei e Nocquet Sensei. Ele conseguiu construir  uma sólida organização e se transformou numa das figuras mais significativas no desenvolvimento do Aikido fora do Japão.

Devo mencionar também vários instrutores japoneses que atuavam em outros países da Europa e que contribuíram a sua maneira para o desenvolvimento do Aikido.

Abbe Kenshiro (nascimento no Japão em 1915 – morte no Japão em 1985) Ele passou 10 anos no Reino Unido, 1955 a 1965, e fundou o Conselho Britânico de Judô em colaboração com Harada Mitsusuke (Shotokan Karate) e Abe Tadashi (Aikido). Depois de seu retorno ao Japão, ele solicitou ao Hombu Dojo que enviasse um instrutor de Aikido para o Reino Unido para ensinar no Conselho Britânico de Judô. O Hombu Dojo escolheu Chiba Kazuo Sensei. (Para mais detalhes sobre os anos de Chiba Sensei na Grã Bretanha veja https://aikidodidierboyet.com/en/category/textes/a-life-in-aikido/).

Tada Hiroshi (nascimento no Japão em 1929). Membro do Hombu Dojo desde 1950, começou a ensinar na Itália em 1964 e estabeleceu o Dojo Central em Roma em 1967. Em 1971, Fujimoto Yoji, um de seus estudantes, assumiu o ensino na Itália e Tada retornou ao Japão. Ainda hoje ele conduz seminários na Itália com regularidade e permanece como uma das figuras mais influentes no Tokio Aikido Headquarters.

Chiba Kazuo (nascimento no Japão em 1940 – morte nos EUA em 2015). Depois de treinar como uchideshi no Hombu Dojo de 1958 a 1966, ele se mudou para a Inglaterra, fundou a British Aikikai antes de sua volta para o Japão em 1976, foi para os EUA em 1981 e lá fundou um grupo com ramificações internacionais que chamou de Birankai. Próximo de Tanura Sensei, viajava freqüentemente  para a França durante seu período no Reino Unido.Ace

Ikeda Masatomi (nascimento no Japão em 1940). Estudante de Tada Sensei, ficou por algum tempo na Itália antes de voltar para o Japão e finalmente mudou-se para a Suiça em 1977 onde começou a ensinar Aikido.

Sugano Seichi (nascimento no Japão em 1939 – morte nos EUA em 2010). Uchideshi do Hombu Dojo, começou a ensinar Aikido na Austrália em 1967 antes de mudar-se para a Bélgica a pedido de Tamura  Sensei em 1982. Em 1988 foi realocado para New York para auxiliar Yamada Yoshimitsu Sensei.

Kitaura Yasunari (nascimento no Japão em 1937). Membro do Clube de Aikido da Universidade de Waseda durante seu período de estudante, mudou-se para a Espanha em 1967 para estudar na Universidade de Madri. Ele é um erudito em Artes, especialista nos trabalhos e El Greco.

Asai Katsuaki (nascimento no Japão em 1937). Começou a estudar ainda criança no Japão e se mudou em 1965 para a Alemanha onde começou a ensinar Aikido.

O texto acima é uma espécie de sumário do impacto e da influência de instrutores japoneses no desenvolvimento e disseminação do Aikido na Europa. Destes instrutores a maioria, senão todos, agiram individualmente e não precisaram se reportar ao Hombu Dojo ou a qualquer outra autoridade. Eles foram para a Europa por razões pessoais ou porque viram uma oportunidade. Eles trabalharam arduamente, não era fácil para nenhum deles. Ganhar a vida com artes marciais fora do Japão era e ainda é difícil. A maioria teve de enfrentar problemas com o idioma, pelo menos na chegada, sem mencionar outros problemas culturais e sociais (os britânicos estavam bastante incomodados pela forma como os japoneses trataram os prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial e não recebiam bem os oriundos do Japão em solo britânico por um bom tempo). Mas eles fizeram um excelente trabalho e tiveram sucesso nos seus esforços.

Na época que comecei a treinar Aikido no começo dos anos 70, todos os instrutores iniciais já tinham deixado a França e voltado para o Japão ou tinham se mudado para outros lugares. Poucos meses após seu acidente de carro Noro Sensei voltou a ativa, mas ele estava em Paris e eu estava vivendo nas províncias e tinha poucas oportunidades de ir a capital. Além disso, Tamura Sensei, que não tinha um dojo, estava viajando pelo país e dando seminários todo fim de semana, frequentemente em locais próximos de onde eu vivia. Então descobri Chiba Sensei e tentava participar de suas atividades sempre que ele estava no país. Em função disto, meu treinamento durante meus primeiros anos (até que eu fosse para o Japão em 1977) foi feito conforme os ensinamentos de Tamura Sensei e os ensinamentos de Chiba Sensei, em menor grau.

Didier Boyet sensei e Chiba sensei em 1980

Em 1974 o senhor encontrou Chiba Sensei em um seminário organizado por Tamura Sensei; como este encontro transformou seu Aikido e, de certa forma, a sua vida?

Não me recordo exatamente da data, mas lembro que foi meu primeiro Summer Camp, provavelmente 1973 ou 1974. De qualquer forma, eu era um iniciante e ainda não havia tido muita exposição ao Aikido pois começara no outono de 1971. Portanto eu havia treinado menos de dois anos e, embora eu já tivesse encontrado Tamura Sensei não me lembrava dele tampouco. Este Summer Camp foi no centro da França, em Villefranche-de-Rouergue, e durou duas semanas. A maioria dos participantes estava acampando, bem como Tamura Sensei, sua família e Chiba Sensei. Todas as classes eram conduzidas pelos instrutores japoneses, Tamura Sensei e Chiba Sensei, provavelmente duas horas de manhã e duas horas a tarde. Eu me lembro claramente de meu assombro quando Chiba Sensei começou a ensinar. Eu tive a mesma reação de quando vi Aikido pela primeira vez na televisão alguns anos antes. No final do seminário os dois instrutores fizeram demonstrações. Em um dado momento Chiba Sensei estava demonstrando contra três ou quatro oponentes que o conseguiram encurralar em uma ponta do tatame. Eles congelaram por um segundo e Chiba Sensei soltou um formidável “kiai” que os fez retroceder imediatamente. Ele instantaneamente aproveitou esta vantagem para retomar o controle da situação.

Depois de assistir a esta demonstração eu comecei a entender que Aikido era muito mais do que imaginara inicialmente. Depois de dois anos no pequeno dojo onde eu treinava duas vezes por semana, eu tinha a sensação de que conhecia tudo sobre Aikido. De certa forma Chiba Sensei abriu uma porta para um mundo que eu desconhecia. Eu me envolvi mais nos treinos e comecei a viajar aqui e ali nos fins de semana para frequentar classes conduzidas por Tamura Sensei e Chiba Sensei.

Nos anos 70 Chiba Sensei tinha em torno de trinta anos, cheio de energia, extremamente dinâmico, muito impressionante e sem muita tolerância para sorrisos e brincadeiras no tatame, mas era muito amigável fora do tatame apesar das nossas dificuldades de comunicação: claro que ele não falava francês e seu inglês era básico e as vezes ininteligível para mim. Ele era mais impressionante e imponente do que assustador. Esta percepção mudou algum tempo depois quando fui Uke de Chiba Sensei durante uma de suas classes e quase fui a nocaute em um movimento de irimi-nage. Ele me acertou bem forte no rosto e eu me dei conta quão atrasado eu ainda estava e quanto eu precisava treinar e aprender. Um ano depois Chiba Sensei foi chamado de volta ao Japão para auxiliar Aikido Headquarters na negociação com a nova IAF e Tamura Sensei convidou Mitsuzuka Takeshi Sensei para ensinar Iaido durante os treinamentos dos acampamentos de verão. Este foi o sinal que eu estava esperando e resolvi me mudar para o Japão para treinar por alguns anos tendo Chiba e Mitsuzuka como mentores. No final acabei passando quase quarenta anos no Japão, tendo treinado Iaido com Mitsuzuka Sensei até seu falecimento e permanecido próximo de Chiba Sensei, mesmo depois que ele deixou o Japão para ir para San Diego na Califórnia, até ele falecer em 2015.

Boyet sensei e Mitsuzuka sensei, em 2006.

Quais foram seus preparativos para se mudar para o Japão? Além de Chiba Sensei no Aikido e Mitsuzuka Sensei no Iaido, o senhor tinha conhecimento de outros mestres com quem gostaria de treinar no Hombu Dojo ou fora?

Na verdade, eu não me preparei muito. Eu falei com Tamura Sensei para obter seu consentimento e ele, por sua vez, me pediu que informasse Chiba Sensei. Chiba Sensei estava na programação para ensinar no seminário San Sebastian, organizado por Kitaura Sensei no país Basco. Durante o seminário Tamura sensei conseguiu um encontro em um almoço para que eu informasse Chiba Sensei do meu projeto. Ele recusou seu apoio de imediato e, alegando já haver estrangeiros demais no Hombu Dojo (particularmente franceses) e que este projeto seria só mais uma dor de cabeça para ele, me pediu que desistisse da idéia!  Acho que Tamura Sensei conversou com ele porque quando mencionei que já havia comprado minha passagem de avião Chiba Sensei não fez mais objeções.

Meus planos eram bem vagos. Eu conhecia apenas algumas pessoas em Tokyo: uma mulher chamada Margareth Marcano, aluna de Chiba Sensei. Ela era da Venezuela e acho que de uma família de posses, já que freqüentava uma escola particular na Suíça. Era uma aluna dedicada de Aikido e seguia Chiba Sensei onde quer que ele ensinasse na Europa. Tão logo ele voltou para o Japão ela o seguiu. Ela me pegou no aeroporto na minha chegada e inclusive me colocou no seu apartamento bem pequeno que ficava na mesma rua do Hombu Dojo.

Eu não tinha ideia de como iria ganhar a vida. Eu tinha conseguido obter um visto cultural de um ano para estudar Aikido e o plano era passar alguns anos em Tokyo antes de voltar para a França. Eu havia juntado toda minha poupança, não mais que alguns milhares de dólares, e partido. Aterrissei no aeroporto Haneda de Tokyo em 4 de outubro de 1977 e vivi no Japão desde então até 9 de junho de 2016.

Como era o Hombu Dojo quando o senhor chegou? Quem eram os instrutores e quem eram os sumikomi?

Antes de chegar ao Japão eu tinha muito pouco conhecimento sobre o Hombu. Poucos meses antes de deixar a França eu encontrei um rapaz chamado Daniel Boubault que treinava Aikido, estava estudando japonês e morava em Tokyo. Ele me dera preciosos conselhos de como proceder para solicitar um visto cultural de Aikido, informações básicas da forma de funcionamento do Hombu e acabou se revelando uma grande ajuda nas minhas primeiras semanas em Tokyo.

Minha ideia era me colocar sob a orientação de Chiba Sensei. Como ele havia se responsabilizado pela minha solicitação junto ao Hombu e me apresentado pessoalmente ao Doshu, eu estava pronto a seguir seu conselho e sua norma. Chiba Sensei tratava todos os alunos como estudantes do Doshu, já que eram membros do Hombu Dojo. Embora ele ficasse satisfeito que os praticantes quisessem ter aulas em grupo com ele, ele nos tratava como membros do Hombu. Ele se via apenas como parte desta organização. Portanto ele encorajava enfaticamente cada um de nós a assistir e a treinar em todas as classes disponíveis no Hombu Dojo.

No período da minha chegada, Kisshomaru Doshu dava todas as aulas das 6:30h, Osawa Kisaburo Dojo-cho dava uma aula por semana, Yamaguchi Shigeo Sensei três aulas por semana, bem como Masuda Sensei; se bem me lembro, Tada Sensei, Watanabe Sensei, Arikawa Sensei, Sasaki Sensei tinham duas aulas cada e os outros instrutores (Ichihashi, Endo, Shibata, Yasuno) tinham uma aula por semana. Os sumikomi eram Seki Shoji, MiyamotoTsuruzo, Osawa Hayato e Yokota Yoshiaki. O treino era duro e desafiador. Na época, os estudantes internos da casa (sumikomi ou uchideshi) não tinham tantas ocupações fora do Hombu e basicamente compareciam a todas as aulas do Doshu e à maioria das aulas do final da tarde. Uma aula típica das 6:30h teria Waka Sensei (Moriteru), Fujita, Endo, Shibata, Yasuno, Miyamoto, Osawa, Yokota e outros sempai alinhados e praticando arduamente. As pessoas precisavam ser cuidadosas ao pegar uma parceira ou parceiro porque a dupla se mantinha por toda a duração da aula. Quando Miyamoto Tsuruzo entrava no dojo podia se ver uma onda de praticantes se afastando dele, mas, logo em seguida, Shibata Sensei chegaria, logo antes da entrada do Doshu. Podia se notar, então, o pânico se espalhando entre os alunos que haviam se enganado e sentado no lugar errado: longe de Miyamoto, mas, repentinamente, perto demais de Shibata para ter esperança de escapar! Treinar com qualquer um dos dois envolvia muita exigência, pois eles se recusavam a reconhecer submissão, defendendo seu espaço e mantendo sua posição a qualquer preço. Mas esta situação era específica da aula do Doshu. Outras aulas não eram sempre tão desafiadoras, exceto, claro, as aulas do Chiba Sensei e Shibata Sensei onde a tensão era sempre alta por conta do temperamento dos instrutores.

Embukai, “All Japan Demonstration”, por volta de 1990. Boyet sensei sendo uke para o Shibata sensei durante a demonstração.

Além das aulas regulares do Hombu Dojo o senhor também fazia parte do grupo privado de alunos de Chiba Sensei. Como eram estas aulas particulares? Algum instrutor do Hombu Dojo ou sumikomi também participava?

Eu me juntei ao grupo que fazia aulas particulares com Chiba Sensei logo após minha chegada a Tokyo. Todos os componentes deste grupo assistiam à aula de sexta-feira a noite de Chiba Sensei. O grupo incluía muitos americanos , Paul Sylvain, Lorraine Sylvain-DiAnne, Meik Scoss, Bruce Bookman e Jay Dunkelman, uma mulher inglesa (Dee Chen, a secretária de Chiba Sensei na Grã Bretanha que o seguiu para o Japão), uma mulher venezuelana (Margaret Marcano, uma estudante de Chiba Sensei na Europa que também o seguiu para o Japão, mas que deixou o grupo logo em seguida) e um casal da Escócia (Murray e Sheila Walker, antigos alunos de Chiba Sensei  lá no Reino Unido). O grupo tinha solicitado ao Hombu Dojo uma permissão para organizar uma aula especial conduzida por Chiba Sensei. As aulas aconteciam duas vezes por semana as terças e quintas, das 13h às 15h (frequentemente até mais tarde) no pequeno dojo do quarto andar. Shibata Sensei era um visitante assíduo destas aulas.

Lembro-me vividamente da intensidade destas sessões de treino. Embora não me recorde de um medo físico, ainda posso lembrar-me de como meus joelhos começavam a tremer descontroladamente enquanto eu trocava de roupa antes da aula. Muitos anos depois, conversando informalmente com Chiba Sensei sobre vários assuntos, mencionei esta tensão palpável se acumulando antes e durante as aulas. Ele disse que se lembrava de sentir esta tensão assim que punha os pés no dojo. Todavia, durante todo o tempo que treinamos nestas aulas particulares, não me lembro de quaisquer acidentes, embora lutas e sangue derramado não fossem novidade. Era óbvio para todos nós que estas sessões eram importantes. Muitos anos depois, porque tive a sorte de testemunhar a transformação e evolução de Chiba Sensei, eu entendi que também para ele estes momentos foram importantes. Nesta época ele lecionava apenas uma hora por semana e, ocasionalmente, poucas horas por mês em Nagoya. As lições do grupo no Hombu tornaram-se um laboratório, uma área de teste para Chiba Sensei, um lugar onde ele podia perseguir o que havia começado a desenvolver ao longo dos dez anos que passara no Reino Unido (especialmente os últimos oito anos do período em Londres): um estudo sempre renovado dos fundamentos (Kihon-waza). Ele costumava carregar consigo o famoso livro “Budo Renshu”, desenhado à mão, compilado pela Sra. Takako Kunigoshi sob a supervisão do O-sensei em 1933-1934. Nós passamos por todas as 166 técnicas introduzidas neste livro. Também treinamos armas, na maioria das vezes bokken, trabalhando kumitachi conforme concebido por Saito Sensei em Iwama. Mais tarde, depois que Chiba Sensei havia se mudado para os EUA, ele abandonou o ensino e a prática de kumitachi pois, segundo disse, não era propriamente representativo do trabalho de armas de O-sensei. Mais tarde ele retomou a técnica, mas com uma abordagem diferente.

Além de Chiba Sensei, nestas quatro décadas no Japão o senhor aproximou-se de incontáveis mestres. Poderia falar sobre estas outras influências no seu Aikido?

Como você bem sabe, Hombu Dojo oferece 5 classes por dia de segunda a sábado e duas classes nos domingos. Membros podem fazer todas as práticas, mas as aulas de domingo requerem uma taxa adicional. Quando cheguei em Tokyo o quadro de professores era bastante notável e, além do Kisshomaru Doshu, incluía Osawa Kisaburo, Yamaguchi Seigo, Arikawa Sadateru, Chiba Kazuo, Watanabe Nobuyuki, Sasaki Masando, Masuda Seijuro, Ichihashi Norihiko, Endo Seishiro, Shibata Ichiro.

Didier Boyet sensei, de óculos escuro, com Yamaguchi sensei, ao centro. (1980)

Eu tentei treinar no máximo de aulas que conseguia e de fato treinei com todos os professores disponíveis, pelo menos inicialmente, mas limitei meus treinos de Aikido ao Hombu Dojo e não frequentei aulas fora (como eu também estava estudando Iaido não tinha muito tempo). Aos poucos fui ficando mais ligado a um número restrito de professores. Com Chiba Sensei sempre tive uma relação mais próxima. Depois Yamaguchi Sensei. Aprendi com cada um e com todos os professores que ensinavam no Hombu, mas Chiba e Yamaguchi tinham alguma coisa que os outros não tinham: eles mudavam o tempo todo. Eles não estavam ensinando, estavam praticando e se você também quisesse poderia juntar-se a eles e viajar com eles. Sobretudo, eles me ensinaram que Aikido não pode ser ensinado. Aikido é treinamento, Aikido é vida e não há um livro ou guia para isso.

Boeyt sensei e Chiba sensei, em 2006

Acredito que poucos no mundo tiveram acesso a tantos mestres e treinaram tão intensamente quanto o senhor. Dito isto, o que treinamento significa para o senhor? Qual a importância de ter um mestre?

Eu entrei no mundo do Aikido sem saber do que realmente se tratava. Mas depois de uns poucos anos de prática diária eu me dei conta que Aikido e treinamento sempre teriam que vir primeiro. Somente recentemente eu comecei a pensar no assunto. Especialmente depois da morte de Chiba Sensei que eu considerava como meu mestre. Embora eu tenha praticado e treinado com muitos professores (basicamente todos os instrutores atuando no Hombu Dojo durante os anos 80 e 90) e embora eu nunca tenha sido considerado um ”kenshusei” ou um “uchideshi” de Chiba Sensei ( no Japão eu era considerado como um estudante do Doshu, um membro do Hombu Dojo onde Chiba Sensei ensinava). Eu sempre me relacionei com Chiba Sensei como se ele fosse o mestre que eu precisava para me guiar no caminho do Aikido. Porém ele não era perfeito. Ninguém é. Mas ele tinha aquilo que fazia com que eu quisesse emulá-lo. Ele estava procurando por alguma coisa e, mesmo que eu não soubesse do que se tratava, obviamente valia a pena.

Do ponto de vista de Chiba Sensei existem vários passos no estudo de Aikido. Ele definiu e deu o nome de Shu Ha Ri a estes passos:

Inicialmente, já que você na verdade não sabe porque pratica Aikido, tudo vai ser físico. Esta é a sua fase “Shu”: você aprende os aspectos físicos do Aikido, as formas e suas variações copiando o que lhe é ensinado.

Na segunda fase, “Ha”, você tenta desenvolver o que você aprendeu na primeira fase e aplicar isto de uma forma livre.

Na terceira fase, “Ri”, você tem que esquecer todos os aspectos físicos do seu treinamento e desenvolver uma forma de prática mais espiritual para produzir seu próprio Aikido.

Dito isto, você tem que regularmente voltar à fase um e treinar as formas básicas porque estas são os elementos que permitem que você crie o seu mundo do Aikido.

O ‘mestre’ é o guia e ao mesmo tempo a marca que você quer atingir e ultrapassar. Em um certo ponto você não mais precisará do mestre. Você é o mestre.

Boyet sensei no seminário que fez no Brasil. Uke: Leonardo Sodré

No Aikido existe uma correlação entre movimentos corporais e o uso da espada. Além do Aikido, o senhor é um especialista na espada japonesa. Como o senhor vê o uso da espada na maioria dos dojos? Qual a importância do treinamento com espada no Aikido?

No Aikido a espada é tudo. Não há Aikido sem espada. Estranhamente, a espada não era a arma escolhida pelos primeiros Samurai. A arma escolhida pelos Samurai era o arco (leia “Legends of the Samurai” de Hiroaki Sato). “Katana” era a arma usada pelos soldados a pé. Os nobres a cavalo usavam arcos. Mas quando a espada se tornou “a arma”, ela também passou a representar a alma do Samurai. E a relação da espada com o Samurai se desenvolveu ao longo de séculos, até que o sistema que governava o Japão foi destituído em 1867 e a classe Samurai foi abolida. Para mim, a filosofia Samurai está totalmente contida na espada. A espada é uma arma que pode matar de duas formas: pode matar seu oponente e pode matar você. Portanto, é da maior importância domesticar e dominar a espada. E isso só acontece através da prática.

Na minha opinião, o movimento mais importante no Aikido é o Ikkyo. E Ikkyo é um corte com a espada. Todo o resto deriva do Ikkyo. Mas para fazer um Ikkyo de maneira adequada, você tem que saber como cortar com a espada. O-Sensei foi claro neste ponto; ele disse: Aikido é espada. O problema è que não se pode ensinar espada. Pode-se mostrar o que você faz com ela, pode-se mostrar uma forma, mas é só. Para ter um total domínio da espada, é preciso estar unificado com ela.

Na prática, tem-se que estudar os movimentos e enfrentamentos do bokken como se estivesse lidando com uma lâmina viva. Então, transferem-se estes movimentos para o Aikido e neste a espada material desaparece, mas permanece em espírito. Mas também é necessário praticar com a lâmina real na bainha e aprender a desembainhá-la.

Eu tive muita sorte por estudar com um magnífico professor de espada (Mitsuzuka Takeshi Sensei) e ainda tive outros instrutores como Yamaguchi Sensei e Chiba Sensei que sempre enfatizaram a importância da espada na prática do Aikido. Na verdade, muito poucas pessoas realmente estudam bokken e espada e, ainda assim, pretendem ensinar Aikido.

Além da espada, Jo é outra arma usada no Aikido. Chiba Sensei desenvolveu um método bem consistente para a prática de Jo. No entanto, aparentemente, a prática de Jo no Aikido não parece ter alguma coisa em comum com Jodo. Para o senhor, de onde veio a prática de Jo no Aikido e qual a importância do treinamento com esta arma além da espada?

É claro que O-Sensei pode ser visto em vários vídeos manejando o jo. As vezes ele o usa contra um parceiro, mas na maior parte das vezes ele usa o jo como uma forma de orar para os deuses.

A prática de armas (bokken, espada, jo) deveria fazer parte de um treinamento completo de Aikido. Chiba Sensei não estava satisfeito com os vários “kata” de bokken e Jo concebidos por Saito Sensei e então ele fez um para o Jo, inspirado pelo trabalho de Nakayama Hakudo Sensei, o Fundador do Muso Shiden Ryu.

Eu acho que a prática de Jo ajuda a entender o conceito de maai, de timing e um conceito de awase. Receber, absorver, contra-atacar o golpe de um oponente. Jo contra a espada, ou madeira contra o aço, ensina o poder e as possibilidades destes conceitos essenciais para o Aikido.

Você treina por muitos anos e, como em todos os processos, os erros e acertos acontecem. Qual seu conselho para aqueles que estão iniciando sua caminhada no Aikido? O que deveriam enfatizar na prática e quais equívocos deveriam evitar?

Tudo o que posso fazer é apontar que a resposta está no treinamento. Deve-se perseverar até que as portas se abram. E existem muitas portas para abrir. Portanto, fracassos e equívocos são OK. O treinamento os corrigirá. O que eu descobri treinando Aikido é que nunca se sabe. Sempre há mais a ser descoberto.

Depois de tantos anos de prática, o que motiva o senhor a treinar? Sente que ainda existem descobertas a serem feitas, que o treino ainda traz coisas importantes?

Parar de praticar ou estudar significaria que encontrei a resposta, que eu sei e que não há razão para continuar a busca. Mas não é o caso. A grandeza do Aikido é que ele permite que eu continue com a minha vida, entenda a direção para onde ela está indo e obtenha satisfação disto. Envelhecer é um processo bastante depressivo. Quando a vida está próxima do fim, ou no fim, muitas mudanças acontecem no corpo e na mente. O corpo envelhece, órgãos falham, a mente fica menos vivaz e algumas vezes também a memória pode fraquejar. Aikido me ajuda a lidar com todos estes problemas. Praticar me ajuda a manter a forma e a lidar com o declínio (lento e progressivo) do corpo; também estimula a mente e me ajuda a me manter alerta.

Além de tudo, eu aprecio treinar e desafiar a mim mesmo. Praticar abre portas e acessos a novos campos. Um processo sem fim.

Já que o senhor mencionou o desafio, estamos enfrentando um grande desafio que é a pandemia. Como tem sido para o senhor o desafio de não poder treinar no tatame com parceiros? O senhor viaja bastante por todo o globo dando seminários; tem recebido informações sobre como os dojos de vários países estão lidando com esta situação mundial?

O lockdown começou em torno do meio de março aqui na França e foi imposto severamente. Não se podia viajar além de um quilometro da própria moradia e saídas eram permitidas somente para compras, passeios com o cachorro ou para ir trabalhar nos casos em que não fosse possível trabalhar de casa. Todas as atividades públicas foram proibidas e todos os lugares públicos foram fechados ( bares, restaurantes, salas de concerto, cinemas e, claro, os centros esportivos e outras espaços de treino). Basicamente, eu não treinei fisicamente Aikido do meio de março até o meio de agosto quando alguma atividade foi liberada sob condições especiais.

De certo modo eu apreciei este período de isolamento (não um isolamento total, já que a internet me dava acesso a informação, entretenimento, e me permitia a comunicação com amigos e conhecidos. Mas, de um modo geral, o lockdown foi um golpe severo na nossa atividade. Dojos que tiveram que fechar por muitos meses, fecharão para sempre ou irão sofrer muito. Se vão se recuperar e sobreviver ainda é uma questão.

Alguns professores profissionais com medo de perder a maioria de seus estudantes começaram a conduzir aulas na internet, para manter alguma forma de contato. Como conduzir uma aula se não se pode interagir com o aluno e “sentir”? Turmas de armas se tornaram, repentinamente, a coisa a se fazer (vi coisas na internet que as vezes eram quase insuportáveis).

Achei que este isolamento forçado era uma boa oportunidade de refletir sobre as próprias ações, mas entendo que foi um tanto desastroso para pessoas que dependem das aulas para ganhar a vida.

As coisas estão um pouco melhor aqui na Europa e, com sorte, vamos voltar à normalidade até o fim do ano se o continente não for atingido por uma segunda onda da pandemia.

Outro desafio que temos na sociedade, e também no Aikido, é o acesso de mais mulheres em posições de liderança, seja em dojos, dando seminários e liderando organizações. Posso estar enganado, mas tenho a impressão de que Chiba Sensei alcançou um equilíbrio entre seus estudantes. Como podemos evitar que repliquemos no universo do Aikido os preconceitos e barreiras que vemos na sociedade?

Embora houvesse mulheres praticando Aikido no Japão com O-Sensei (Takako Kunigoshi deve ser a mais famosa), com Kissshomaru Doshu (Sra. Tamura, por exemplo) não era tão comum. Acho que Chiba Sensei enfrentou pela primeira vez o fato de ter que ensinar um grupo de mulheres no Reino Unido e, claro, nos EUA, onde seu dojo sempre foi freqüentado por um grande número de mulheres. Ele sempre tratou a todos igualmente na forma de adaptar suas ações de acordo com o que estava a sua frente. Acho que isto é essencial no treino e instrução de Aikido: todos são iguais, mas, ao mesmo tempo, cada um é único e deve ser tratado adequadamente. A resposta perfeita de Aikido a um ataque é a resposta adequada ao ataque. Aikido desconhece competição na forma que boxe, tênis ou qualquer outro esporte conhece. O propósito não é destruir o oponente para ganhar, é controlar ele/ela usando a energia dele/dela. Assim, gênero, idade ou corpo é irrelevante. Um Aikidoka ajustar-se-á a seu/sua oponente de acordo com o nível de agressividade e de força dele/dela. É essencial entender isto e que este nível de entendimento só pode ser aprendido através de um treinamento árduo. Na minha opinião, as sociedades humanas erram porque se baseiam na dominação e eliminação e não em igualdade e partilha. Infelizmente, isto também é verdade para muitos que pretendem ser um Aikidoka e que não compreendem e fazem mau uso do Aikido.

Aprender e treinar no dojo deveria ter um direcionamento no sentido de aprender a controlar a si mesmo para que consiga controlar agressões.

Muitíssimo obrigado. Gostaria de deixar uma mensagem ou alguma consideração final?

Em uma palavra: perseverança. Nunca desista, uma porta se abrirá para novos espaços e novas possibilidades porque Aikido é a descoberta de si próprio.

Entrevista do Didier Boyet Sensei para o Canal Aikido Brasil

* Entrevista feita por Leonardo Sodré e traduzida por Lielze Marques

3 comentários em “Entrevista com Didier Boyet sensei

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