Tsuruzo Miyamoto Shihan (parte I)

foto: Gary Payne

A primeira vez que vi o Aikido do Miyamoto sensei foi no final dos anos 90 num VHS – não existia Youtube nesses tempos. Era um vídeo da Demonstração Anual de Aikido do Japão. Algo ali me fisgou, mas não sabia o que era. Um ano depois, chegou nas minhas mãos o vídeo do Seminário da Federação Internacional de Aikido, em que ele dava uma aula. Assisti tanto que o vídeo cassete provavelmente ia sozinho para a parte do sensei. Quando fui pela primeira vez ao Hombu, era ele uma das minhas maiores motivações de estar lá.

Tsuruzo Miyamoto nasceu em 30 de março de 1953, no Japão. Aos 18 anos, ingressou na Universidade de Fukuoka, onde começou a praticar Aikido com o Morito Suganuma Sensei.
Em Abril de 1975, depois de se formar na universidade foi aceito como uchi-deshi do Hombu Dojo. Lá faz a sua formação como instrutor, com Doshu Kisshomaru Ueshiba e muitos outros importantes mestres. É um dos instrutores de Aikido mais respeitados do mundo no momento. Em 2016, ele foi promovido ao 8º Dan pelo terceiro Doshu Moriteru Ueshiba
.
Foto: cedida por Vitaly Kornev do Jikishinkai Novosibirsk

Na época, ele dava aula nos avançados as quartas e sextas a noite, e três vezes na semana para os iniciantes, as segundas, quartas e sextas. Lembro que ao terminar a aula do Doshu, corri para o segundo andar, aonde os iniciantes treinam, e fui fazer sua aula. Era uma quarta feira. Tive a sorte de ele já me chamar para fazer ukemi, nada demais, era um dos únicos graduados no tatame. Então, as 17h30, chegou o aguardado treino dele para os avançados. Peguei um parceiro de treino um tanto quanto inusitado. Na segunda técnica da aula, num Suwari waza Kata tori Dai Ikkyo, ele começou a tentar socar minhas partes íntimas. Lembro que fiquei meio sem saber que raios era aquilo. Nesse instante o Miyamoto sensei pára ao meu lado e fala: “Punch him to” (Bata nele também). Segui à ordem! Por mais estranho que seja, funcionou. Continuamos a treinar e tudo fluiu bem. Final da aula, Miyamoto sensei me chama, diz que gostou de mim e que se eu tivesse livre iríamos jantar. Foi assim que fui introduzido a ele.

No jantar, estava a turma que eu considerava como o topo da montanha do Miyamoto sensei, dentre eles: Didier Boyet e John Brinsley. Didier era um dos veteranos do Hombu, o alfa dos alfas lá, meio que uma entidade a parte, que virou uma das grandes referências para mim. John era mais novo, um Aikido impecável, com uma base sólida dos fundamentos e ao mesmo tempo uma capacidade de transitar para coisas avançadas muito rápido. Era sempre o primeiro Uke do Miyamoto sensei nos treinos, o que indicava que era o seu braço direito. Ver ambos em ação, tanto no tatame, mas fora dele, era uma aula de Budo. Muito além da técnica, existe uma vivência, uma espécie de estado mental de presença absoluta, um Zanshin, que os bons praticantes vão desenvolvendo nessa relação professor aluno. Bastava o Miyamoto sensei olhar para algo que seria respondido, dentro e fora do tatame. Não há verbalização, é sensibilidade e atenção aos mínimos detalhes, sem nunca baixar a guarda.

Anos depois, estávamos jantando com o sensei num restaurante próximo ao Hombu dojo. Nisso, o Doshu entra acompanhado de algumas pessoas. Imediatamente o Miyamoto sensei se levanta, como um gato que vai do relaxado ao alerta num piscar de olhos. Ele estava com a gente, mas sempre consciente para qualquer necessidade do Doshu, que deveria estar mesas de distância do nosso grupo. Uma hora, Miyamoto sensei se levanta e vai em direção a porta. Quando me viro para ver, ele já estava escoltando o líder máximo do Aikido na saída do estabelecimento. Fiquei impressionado, mas sabia que já tinha visto essa atitude com seus alunos, em especial com John.

Essas coisas vão muito além do tatame e são tão importantes quanto as técnicas que aprendemos. O estado de alerta constante diferencia o que fazemos de um esporte, ao mesmo tempo que esse senso de zelo com nossos professores e veteranos é uma das coisas que humaniza aspectos brutais da arte marcial. Ser capaz de transitar entre esses dois espectros da nossa arte, do Yang ao Yin, é algo fascinante.

O texto abaixo é uma tradução do “On Miyamoto sensei (part 1)”, do John Brinsley sensei. O texto original está aqui. Em breve publico a parte dois. Se um dia você estiver visitando Los Angeles, recomendo vistar o Aikido Daiwa e treinar com Brinsley sensei. Você pode também seguir eles nas redes sociais: @aikidodaiwa . Muito obigado, Brinsley sensei por esse belo texto.

John Brinsley pratica Aikido desde 1991, principalmente em Tóquio no Aikikai Hombu Dojo, sob a direção de Doshu Moriteru Ueshiba, seguindo principalmente T. Miyamoto sensei. Ele voltou para Los Angeles do Japão em junho de 2013. Atualmente ocupa o 6º Dan e é instrutor chefe do Aikido Daiwa.

Sobre Miyamoto Sensei (Parte 1)

John Brinsley

“Não há novas técnicas no aikido. No entanto, existe descoberta.”

– Miyamoto Tsuruzō Sensei, outubro de 2019

foto: Ana Paula Migliari
Seminário do Miyamoto sensei no Rio de Janeiro, organizado pelo Círculo de Aikido

Como todo mundo, tenho um pouco mais de tempo em minhas mãos, então pensei em começar a escrever algumas das minhas lembranças de 15 anos ou mais no Hombu.

Comecei a praticar no Hombu quando me mudei para Tóquio em janeiro de 1996. Demorou um pouco para descobrir com quem valia pena praticar (não comigo), quais as aulas dos professores eram mais ou menos interessantes e qual era a ordem geral de hierarquia. Seria ilusório dizer que eu estava no fundo – como um shodan estrangeiro que não conhecia ninguém, eu não estava nem perto de qualquer ordem de hierarquia.

Existem duas opções de treinamento: de segunda a sábado ou sete dias por semana, com uma taxa extra aos domingos. Como meu trabalho dificultava saber exatamente quando eu poderia ir para a aula, também me inscrevi no domingo. E isso mudou a trajetória do meu treinamento, porque Miyamoto Sensei ensinava aos domingo às 9h da manhã.

Uma das aulas mais populares eram aos sábado, às 10h30, ministrada por Osawa Hayato Sensei. Pelo menos 60 pessoas compareciam a cada semana e era fácil entender o porquê. Ele ministrava uma aula vigorosa e interessante, e mesmo que você tivesse bebido até tarde na noite de sexta-feira, não era preciso muito esforço para chegar ao dojo às 10h15. Osawa Sensei tinha uma abordagem quase artística de sua técnica, e seus movimentos eram graciosos e precisos. Tomar ukemi para ele exigia flexibilidade, conectividade e velocidade, e poderia ser um desafio. Mas nunca foi perigoso. E então vinha a hora de um almoço descontraído descendo a rua, em um pequeno local chamado Kitchen.

As aulas das 9h da manhã de Miyamoto Sensei no domingo tinham pouca semelhança com isso. Ele também ensinava na sexta-feira à noite às 17h30, como ainda faz. Mas muito menos pessoas apareciam aos domingos, geralmente não mais que 20 ou 25. Novamente, não há mistério do porquê: além do custo extra, o horário era muito menos favorável se você tivesse bebido na noite anterior. E Miyamoto Sensei quase certamente teria estado, então ele estaria menos receptivo também.

Sua aula era muito mais arriscada do que a do Osawa Sensei (ou praticamente de qualquer outro professor, exceto Arikawa Sensei na quarta-feira à noite, e Arikawa Sensei era algo totalmente diferente). Miyamoto Sensei na época – com 42 ou 43 anos – tinha uma maneira particularmente mais intensa e incisiva de fazer a técnica. Ele parecia penetrar no corpo do uke, obrigando-o a suportar todo seu peso, executando o movimento com seu centro bem próximo ao chão. Ele esperava que seu uke fosse flexível, ágil e resistente. Então, como agora, ele frequentemente mudava a técnica no meio do que estava fazendo, testando o uke e a si mesmo, experimentando o caminho. Ele também usava atemi. Não sempre, e raramente com alunos que não estavam na rotação do ukemi, mas com frequência suficiente. Tenho uma claro lembrança de ver Miyamoto Sensei ensinar aos domingos de manhã e sentir como se tivesse descoberto algo novo.

Não havia muitos estrangeiros que assistiam à aula. Então, pouco a pouco ele passou a me notar mais. Não me lembro quando, mas em algum momento entrei na rotação do ukemi. Quanto mais ele me chamava, mais exigente se tornava. Fiquei mais sintonizado com o movimento dele, mais sensível ao que ele estava fazendo, mais capaz de aceitar sua demanda.

Miyamoto Sensei sempre saía nas noites de sexta-feira após a aula e, graças a Didier Boyet, eu me tornei parte do grupo que o acompanhava. Frequentemente íamos a um pequeno izakaya chamado Kitaichi, que não existe mais. Na época, Miyamoto Sensei era um fumante inveterado, passando por dois maços de cigarro em algumas horas. Fui encarregado de comprar Mild Sevens para ele e me certificar de trocar cinzeiros sujos. Às vezes, eu tomava dois banhos depois de chegar em casa antes de poder dormir.

No tatame, pude sentir meu aikido mudando. O que Miyamoto Sensei estava me ensinando, eu estava tentando aplicar à minha prática. Eu sempre fiz o meu melhor para seguir todos os professores o máximo possível e fazer o que eles estavam fazendo. Mas minha abordagem interna – como era – vinha cada vez mais do que eu colhia com Miyamoto Sensei. Ele era tão intenso, tão imerso em responder ao que seu parceiro estava lhe dando, tão bom em transmitir seu poder através de seus quadris, que eu tentava fazer isso também. Parte disso era imitação, mas me deu uma perspectiva a partir da qual estudar e praticar até que fosse a maneira mais natural de me mover. E começou naquelas manhãs de domingo, quando mais de uma vez eu tomei ukemi enquanto respirava o Sake que ele tinha bebido na noite anterior (ou com mais precisão na mesma manhã). Isso podia ser imprevisível, porque nos primeiros 10 a 15 minutos ele poderia não estar tão feliz em estar lá. Mas eu ficava satisfeito em ser “atropelado” e mesmo assim conseguir levantar.

Em algum momento em meados de 1997, Miyamoto Sensei deslocou meu ombro. Ele estava fazendo ikkyō ura, de shōmen uchi, e quando ele me girou para o meu ponto cego, ele deu uma rasteira, varrendo minha perna interna com a dele, batendo meu ombro primeiro no tatame. Algumas semanas depois, quando voltei, ele perguntou: “você está bem?” Eu disse que sim, e voltou a me derrubar como se nada tivesse mudado.

Demonstração do Miyamoto shihan, Jonh Brinsley sensei é o primeiro a fazer ukemi, seguido de Gaute Lambertsen sensei

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